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do falar*

por Anónimo em quinta-feira, 28 de maio de 2009

Sempre me disseste que falas com o coração nas mãos,
como se tratasse de algo único! Algo só teu!
Sempre me perguntei se há outra forma de falar...

tb publicado aqui

O homem que tinha coração de vidro*

por Anónimo em sexta-feira, 15 de maio de 2009

tb publicado aqui

Lá longe, naquele pequeno (já nosso) mundo, nascerá em tempos um homem caricato. Esse homem, na sua condição igual a tantos outros, era especial por possuir um coração de vidro. Os homens das ciências e afins quiseram estudá-lo, mas logo os humanistas os proibiram. "Não maltratem aquela pessoa. Ele padece de uma doença. Morrerá ao mínimo sofrimento e mágoa. Que direito é o vosso de lhe tirarem a vida? É o conhecimento? Estranha doença que vós senhores da medicina sofrem." disseram na altura.
Cresceu e de petiz tornou-se homem de barba feita. Da sua infância apenas é importante reter o isolamento. A mágoa, o sofrimento só os poderia conhecer em contacto com outros homens, como tal, pensaram os pais, seria melhor isolá-lo do mundo e dar-lhe o carinho necessário para crescer dentro de quatro paredes. Melhor solução? Sem certezas, fora a adoptada. Que homem sou eu para a criticar? Aquela pobre criança ficaria com o coração estilhaçado à mínima birra, ao menino contacto que a levasse à desilusão.
De barba feita, quis, o pobre homem, sair de casa. Ver o que estava para lá da verde paisagem.
Os pais ficaram receosos. Como lhe explicar a sua condição? "Querido filho, amor da minha alma! Lá fora o mundo não te sorri tanto como cá dentro. Cá dentro tens carinho. Lá fora tens outras coisas que te farão sofrer."
O filho intrigado respeitou. Mas a curiosidade ultrapassa os avisos. Escapuliu-se o outrora petiz.
Os primeiros tempos foram agradáveis. Viveu junto à natureza, conheceu as maravilhas do mundo. O problema surgiu com o envolvimento com outros. Ele não estava preparado.
A sua viagem, de nascente a jusante, tal como as coisas do Tempo, tinha um fim e início. Mas, nós homens sem estilhaços sabemos que através do Tempo podemos reparar tudo ou, pelo menos, esquecer ou atenuar a dor. A sua viagem era rápida, muito rápida. O início e o Fim ligados por tão frágil peça.
E eis que a desilusão, mágoa, angústia, solidão, ódio, maldade se fizeram sentir, estilhaçando-o. A desilusão ensinou-lhe que nas relação com as pessoas nada é certo e a esperança em demasia, a expectativa também ela engradecida leva sempre sempre à desilusão. A mágoa mostrou-lhe a dor que se sente quando alguém age para connosco a procura das nossas lágrimas. A angústia explicou-lhe que vivemos em pleno estado de ansiedade e tudo nos custa, a falta de novidade, o excesso dela e o não sabermos lidar com as coisas da Vida. A solidão, estado natural de nós homens, teve nele um efeito tal que lhe tirou as forças, a energia e vitalidade e tudo isto apenas com uma premissa: o afastamento face ao mundo, face às pessoas, o olhar absorto e o coração e alma consumidos por uma labareda mais forte que a roubada por Prometeu para forjar os homens. O ódio de mãos dadas com a maldade desfizeram-no, sem razão ou qualquer lógica, eram eles mesmos por si e nada mais há a explicar.
O sangue escorria-lhe pela boca, de joelhos entoou a sua última prece:

Ó vida, ó vida! Porque me deste tu a tua dádiva
se não me deste a oportunidade de compreender o mundo?
Porque me deste forças para nascer e olhar a Natureza
Se logo me impediste de tocar nas suas folhas.
Porque me fizeste homem se nunca me poderia relacionar?
E porque de todos os homens me escolheste a mim
Para sofrer com todos os ódios deste mundo
Para os sentir como ninguém
Para os viver e respirar
Aceitava não ter nascido e sido isolado
Era preferível, teria-me feito sorrir!
a minha alma espalhada agora no terra
o meu sangue te dou. Sem agradecimento espero
TU própria me condenaste.
Não me arrependo da viagem. Arrependo-me sim de ter abdicado!
Abdicado do único Amor que tive. Meu pai e minha mãe.
Calma. A lógica e Razão aparecem.
Não te odeio Vida. Não! Fizeste-me sentir o Amor e mais não posso pedir.


É um conto que não me é estranho de todo. Se calhar já o li, imaginei outrora. A questão é que o sinto!
Como tal decide escrevê-lo ou reescrevê-lo á minha maneira. Aqui fica uma espécie de resumo. Sim, esta não será a história completa. Coração de vidro. Faz-me rir tanta inocência e ao mesmo tempo tanta verdade.
Ainda fica o agradecimento ao T. Ramalho. Voltei aos contos meu amigo, voltei aos contos. =)

De bater o meu coração parou*

por Anónimo em quinta-feira, 14 de maio de 2009

Ó Procusto que viste em mim?
Prometi-te o cândido Amor
Convidaste-me;
De sussurro em sussuro
De Cântico em Cantico
encantaste-me.

Procusto, Procusto
Enlaçaste-me;
Apeguei-me a Ti.

Na noite calma pediste o meu descanso
Amarraste-me...

Procusto, a ti descrevi o que a minha alma via;
o que temia.
Minhas fragilidades expostas.
Transparente corpo.

Adormeci...
Não de cansaço. Alma tranquila.
Logo te revelaste!
Querias vingança.
Apedrejar meu corpo.
Cortar-me.
Sede de conhecimento?
Não! Pura Maldade.

Procusto, que te fiz?
Merecer o teu Ódio?

Mas, logo o Divino se entrometeu
Não morri às tuas mãos.
Meu coração parou.
A desilusão na tua face sem perceberes.
À tua frente uma cândida pessoa
Sem musculatura suficiente para aguentar a dor
Física? Raios, Procusto! Dor na Alma.
Não me quiseste entender.
Logo,
Ganhei este teu Jogo! Sem orgulho, sem mérito!
Apenas pelo que sou... Ironia!

(título de um filme francês) tb publicado aqui

da ociosidade

por Anónimo em sexta-feira, 8 de maio de 2009

(1) Engraçado, por qualquer razão que desconheço, hoje não me apetece falar. Não me apetece passar horas e horas a descrever o mundo e as coisas dele: não me apetece falar de Deus, de Amar, de ódio, de guerra, de esperança e desespero. Neste momento, nada me ocorre sobre a tua vida ou a dos outros, não há curiosidade em observar ninguém. Não há necessidade! Sinto apenas que quero ocupar o Tempo para que ele passe. Ocupar o Tempo de uma maneira tao trivial...
Adoro estes curtos momentos, fazem-me sorrir e é quando noto que sou uma pessoa "feliz". Não puxes por mim hoje! E não me faças falar da ociosidade. Não a entenderás como eu a vejo.

(2)
Menina dos olhos tristes,
Faço tudo para não ter que pensar
E mascarando-me de Charles
Desligo o pensamento e Perco-me no luar
Grito ao Amor


(3) Há que entreter a alma para não ligarmos ao que nos rodeia e para estarmos sempre iludidos na felicidade. Só uma petiz criança poderá acreditar na fácil ilusão. Todavia à medida que crescemos trocamos a crença na ilusão por um sentimento de intensa necessidade da mesma. A diferença é que a crença é natural e pouco pensada enquanto que, por outro lado, a necessidade é racionalizada e carregada de receio.
Falo-te da ociosidade pela simples razão de precisar dela. Hoje sei que os momentos em que não faço do ócio o meu presente, são aqueles onde o passado e a perspectiva futura habitam com tal intensidade que me atenuam o sorriso; o pesar dos sonhos, receios, certezas.
Eis que chegamos ao palco principal e só nos pedem uma pequena tarefa: escrever com a tinta com que amamos. O Ponto ajuda-nos se tropeçarmos; o encenador estende-nos as cordas para ficarmos bem seguros.
A ociosidade é coisa má? Não! A ociosidade é o único estilo de vida capaz de balizar a nossa árdua tarefa nos meandros da solidão, querida alma. E tal qual criança trocista, só me rio com o calor do luar e o frio da aurora; tal qual uma criança trocista só me rio com mágoa quando mesmo em pleno ócio observo os outros e a solidão me acompanha.
E agora, eis que dou conta que esta faceta da vida se altera. Infelizmente, o ócio, o ócio como o entendo e o vivo, não é a válvula de escape tal como o desenhei; o ócio, esse mesquinho e fraco ser, não é mais que meros minutos numa pessoa que vive a velocidades estonteantes. O pensamento vence a batalha e o ócio enfraquece, prostrando-se aos pés da razão.
Ó querida alma, o luar volta a ser frio e a aurora fria permanece.

tb publicado aqui ( textos que se relacionam com o tema da ociosidade)

Fado incerto

por Anónimo em terça-feira, 7 de abril de 2009


"Não parei de pensar desde a última vez que tivemos juntos. Tudo é mais difícil agora e não te sei explicar porquê. Quer dizer, o sentimento é tão claro e óbvio, mas por outro lado não vejo uma palavra que o descreva na perfeição. Talvez porque custe ser claro para os outros, talvez porque me apeteça fugir desse confronto. Não sei ao certo o que torna isto tão mas tão árduo e não sei como tirar estas cordas dos meus braços e pernas. Prometi dar-te um presente, fi-lo em forma de escolha, numa mão tinhas uma pequena marioneta (bastante catita) na outra mão tinhas a mais hedionda rosa. A tua escolha, amarga a meus olhos, nunca foi clara. Digo-te hoje o que significava cada: a marioneta, era eu, podias (e se calhar sempre o fizeste) brincar comigo, estrangular-me, desmembrar-me, odiar-me, fazer preces à Fortuna para que me magoasse; a hedionda rosa, era e será sempre a mesma peça de teatro, o mesmo palco onde tu e eu nos perdemos constantemente e nenhum de nós se levanta e assume posição. Não sei ao certo o que é que escolheste deste presente nunca desejado por ti, mas como oferta tinhas que o receber, pois odiares-me é fácil, mas fazê-lo friamente e claro é coisa que de ti nunca esperarei. De ti e de qualquer outrem que se diga pessoa, não é assim? A vida tem destas coisas, ser-se inocente ao ponto de se acreditar no Homem.

Quero-te falar do ódio e como sinto que é perda de tempo. Li em tempos que nunca deviamos perder tempo a explicar ódio e desgosto por alguém quando podiamos aproveitar tais momentos para demonstrar amor por aqueles que gostamos. Sábias palavras e se isto foi algo que sempre senti até hoje, depois de lidas (aquelas palavras) tornou-se fé, fanatismo, religião. Amar em vez de odiar, é assim tão difícil? E aqueles momentos em que somos sinceros, mas que para terceiros somos tão frios que magoamos os outros? Paradoxo? Provavelmente quando somos frios e magoamos só queremos o melhor para essas pessoas e quiçá depois de tanta frieza elas crescem no agir e tornam-se mais afáveis, alegres e amorosas.
Penso no que te digo e sinto-me estúpido, falo-te de amor. Coisa estúpida essa, não é? Para que falar de amor se podemos perder o nosso dia a falar de todas as outras coisas que nos afastam dele? Se podemos discutir tudo o que é importante para manter os teatros, essas hediondas rosas. Digo-te, em qualquer ocupação tua, vais encontrar amor. Olha, o caso daqueles mesquinhos advogados e senhores do direito, eles a serem tal, amam a justiça, não é assim? Seja lá o que ela for, afinal de contas é so mais um anelo subjectivo de cada um, certo? Podes não acreditar no que te digo, não é censurável.
Gosto de perder horas a descrever o amor com amor na fala e se tal acção se confunde com alguma fragilidade minha, apenas vos digo na minha humilde posição que têm que ser livres (se assim o desejarem).

Mas, não me quero perder neste devaneio, voltemos ao início: "Não parei de pensar desde a última vez que tivemos juntos". Sei o que dizer em seguida, sei o que pensar, sei o que esperar e desesperar, mas não sei o que fazer concretamente. É tudo tão confuso, mas já não parte de mim. É certo que amo, amo as pessoas, mas já dei tanto, porque tem que partir de mim? Cada vez mais a minha alma se liberta e todas as correntes passam de mim para ti (vós)."

Um dia, talvez, o cansaço crescerá em mim de tal forma que falar de amor me provocará enjoo. Nesse triste (e que triste) dia, deixarei de ser Homem, não é assim?"

La rupture

por Anónimo em terça-feira, 31 de março de 2009

Les jours tristes(...)

"do amar"

"Como hás-de amar se te desprendes das coisas com tanta simplicidade e indiferença? Se não ligas a quem te rodeia, à sua individualidade? Como hás de amar, se vives de uma Razão que te prende a um padrão sem nexo? Como hás tu de ser Homem se não queres amar pela simples razão de amar? Se me escreves um texto e mo explicas, que oportunidade eu terei de amar a palavra se a sua beleza foi espremida? Se me ofereces a mais bela flor do mundo, mas tu pela vontade máxima de ma explicar, de ma mostrar por completo, lhe arrancas as pétalas, como conseguirei eu admira-la e amá-la? Pega numa laranja e partilha-a com o mundo, nunca a dividas em dois, deixa-a ser algo uno, se a dividires é certo que a conheço na totalidade, mas não amo e sem amor não há beleza nas coisas! Se me amas o olhar, porque mo tentarás descrever? Oh, pobre rapariga! Um sopro cresce... Não te quero educar no amor!

"Porque me hás de educar no amor se já amei?"

"Não percebeste o que te quis dizer..."

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"do jogo"

Não é costume sair sem passar pelo meu querido Café, mas o dia de hoje seria uma excepção, uma triste excepção acrescente-se, com a qual aprendi o porquê de apenas me sentir bem quando recebido pelo Café lá do sítio. Fui a uma daquelas casas de sorte e fortuna e tornei-me num jogador, esta noite marcou os acontecimentos que se seguiram nos dias a seguir, pelo menos marcou o fim da minha vontade, do meu arbítrio, do sentimento de poder escolher. A primeira mesa onde me sentei a jogar (tratava-se de Blackjack* penso) prendeu-me a noite toda, não notei a minha tristeza na altura, talvez a minha ponderada companhia tenha criado aquela atmosfera apática a que uma pessoa não pode fugir e que torna o fingimento uma necessidade.


*o que significa o 15 no blackjack? Pura apatia; indecisão na aposta!

conversas num café em Paris**

por Anónimo em quinta-feira, 26 de março de 2009

Les jours tristes (...)

"Bem, ragazzo! Isso não tem uma resposta clara, penso que nem pergunta se pode considerar!

Ser-se instável não é uma característica; melhor, ser-se instável é em primeira instância ser-se Homem! Nunca conheci ninguém emotivo, que sofresse e que pensasse, que não fosse instável (no sentido em que me falas). Penso que o Homem no seu concreto existir é, apenas, É. Com tudo o que esta expressão pode dizer por demasiado vaga que seja.

Jeune fille, tu és instável?

"Hmmm... Admitir tal é de facto algo de sobremaneira dificil. Num hipotético olhar objectivo, claro que seria; todavia tal frieza de olhar não é o real nem o concreto e como tal não me considero. Essa intimidade resulta de uma reserva tal, própria da pessoa em si, que nunca é demonstrável. Acaba por ser certo egoísmo nosso, mas é um egoísmo essencial e vital, um defeito da Razão dito doutra forma.

"És de facto cruel; pela forma como me falas. Fria... és incrível, falas-me de Razão! (um sentimento de desconforto surgia em mim pelas palavras pouco harmoniosas da sempre querida rapariga; levantei-me e sai a correr do Café).

Um sopro frágil - A crippling Blow

por Anónimo em terça-feira, 17 de março de 2009

Já não tinhamos desistido de tudo?

Desistir(surpreendida)? Desistir (um tom de gozo crescente)? Desistir?! (pasmada, como quem bloqueia quando nos dizem que algo é assim porque tem que ser)?


Penso que é a altura ideal para vos apresentar as gentes que vagueiam dentro deste já nosso querido café! Lá longe, por detrás do Balcão está o avarento Dono, com uma sábia história de vida mas sem astúcia para a contar devidamente, com bons ensinamentos, mas sem forma, com amor, todavia sem o carinho que ele exige! À sua frente, o Embriagado do costume, o velhote que todos os dias às 17.15 (não 17.10 - oh como faz diferença estes escassos segundos para vós ou Alguém que leia) entra pela sóbria entrada do pequeno café, esboceja um pequeno sorriso para os clientes que se encontram por lá, chega ao pé do balcão, pede o seu pequeno copo com pequeno sangue verde lá dentro e fica absorto em si mesmo! Depois, no recanto do meu olhar, uma menina delicada, nobre, rica na alma, decidida no olhar, ostentando uma boina preta clássica que lhe assentava na perfeição e que todos os dias toma o seu chá com uma colher e meia de açucar e o seu croissant com uma passagem graciosa da melhor manteiga de Paris (nunca pode haver engano nesta preciosa ementa seria dolo por parte do nosso querido Café). Por fim, numa mesa ao fundo do pequeno Café, encontra-se por costume o Louco, que por pena da sua fraca condição humana o alimentam com verde vida naquela pequena mesa afastada de tudo e todos, do mundo lá fora por causa daquela feia vitrine transparente da janela do nosso Café (This is the world that we live in) e do mundo cá dentro do quão espaçadas estavam as outras mesas em relação àquela, que infortúnio. Enfin, la vie mes amies, cette merde!

Não ouse o leitor pensar que o Café era somente frequentado habitualmente por este pequeno número de almas, muito pelo contrário: ainda havia espaço para os gémeos Excêntrico e Indeciso que todos os dias iam lá tomar o seu café matinal; o "Heartless" sempre com um olhar vazio sem dizer uma palavra, que entrava para ler a primeira página do "Le Figaro"; aussi, era usual ver o nosso querido "Filosófo das ruas de Paris" que dia sim dia não (se não estou em erro, segundas, quartas e sábados - não, sábado não! Domingos! É isso, tenho quase certeza já que o nosso café nunca fecha portas durante os sete dias das nossas curtas e longas semanas) aparecia à porta como se tratasse de uma sombra e suspirava "Enivrez-vous!" (...)

Parvo, fala comigo, onde está o teu olhar?

Fixei-a até a fazer tremer e recuar na própria cadeira. Um Homem nunca devia ser interrompido quando pensa, quando deixa de viver para pensar objectivamente no que o rodeia. Aquela pobre desgraçada teve a ousadia! Oh, Amor, desculpa-me! Como tal despertou o intenso ódio que existe em mim! Não respondi, não merecia resposta. Desviei o meu olhar até encontrar outro ponto de interesse... Nunca o voltei a encontrar, com pena.

Olhei para baixo, para a mesa onde me encontrava, um cigarro tinha sido deixado aceso, associei-o ao abandono a que a minha amada madamoiselle me condenou na altura, nem cheguei a olhar em frente, sabia que não valia a pena, ela já não se encontrava lá - a presença, a sensação forte, o meu suor tinham abrandado e eram tudo sinais de certa "falta"!

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Um dia mais tarde, em súbita sobriedade vim a entender que naquele pequeno café existiam somente três presenças: uma era o Dono, o avarento Dono; outra era a a menina linda de boina preta clássica e, por fim, a outra presença era Eu.

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Tb publicado aqui!

o dia em que fecharam o meu café. . .

por Anónimo em terça-feira, 10 de março de 2009

"Tem piada, a vida..."

Nesse mesmo dia, comunicaram me a hedionda decisão! As portas quiseram fechar-se, as janelas rejeitavam o vento e o sol, as paredes convidaram sementes de amêndoa para se infiltrarem em si e crescerem fragmentando a sua alma. O ambiente era de tristeza pura, de um cinzento tão mas tão carregado. (O que não admirava, afinal de contas tudo se quer tornar num cinzento garrido, penso que o cinzento garrido é a nossa "raison d'être, digo-o assertivamente)

Oh que coisa triste veio a acontecer, o Estúpido pegou naquele pequeno pedaço de madeira e resolveu ferir a pobre janela, estilhaçando-a, fazendo com que as palavras voassem para fora. Esse mesmo, o Estúpido, agarrou as palavras, e gozou com elas, com a sua sensibilidade, com a "estupidez delas", por ironia que seja. Tão grave!

"Je ne sais pas", disse-me a pobre rapariga que outrora era dona das mais profundas riquezas. "Não sei, não sei o que dizer, tudo me escapa pelas mãos, nada posso agarrar, não sei! Os olhares, os gestos, o toque, tudo foge nada pára. Porquê? As pessoas não compreendem...."

Oh rapariga, a novidade que tanto anseias, , como custa eu dizer-te isto, a novidade que eu anseio, eu, não tu, é efémera. A novidade, em si, uma coisa nova em si, é nova por um instante e depois monótona e horrivel, provoca vómito e doença, provoca enfermidade e ódio. Oh, piedade e ódio de tudo isto, que ardor! Como queima, rapariga, como queima!

Até tu... até tu me roubas as palavras! Porquê? Que te fiz eu?! Sabes, ainda bem que este lugar cai, se quebra e desaparece, estas paredes tão frágeis... se calhar sempre foram fragéis. Mas, mais que tudo isto, não percebo a maneira como ages, como és pretensioso e como desistes de ti e de mim.

Mas isto alguma vez foi de mim e de ti? (rematei admirado e confesso que o estava)

Entretanto o Estúpido continuava na sua demanda, zombava com os pobres homenzinhos nas suas vivências sem sentido. E até lançou boas ideias:

1 - Se a chávena de café fosse virada ao contrário?
2- Se brincássemos com as horas dos nossos relógios e isso não implicasse a condenação por "atrasos" ou "chegar cedo demais"!
3- Se uma fechadura de uma porta fosse trocada por um interruptor de luz (daqueles bonitos e pomposos)?
4- Se em vez de pacotes de açúcar, fossem pacotes de sal? E o açúcar vendido com formato de sal?

(Confesso, que só mais tarde vim entender tudo isto... mas muito mais tarde, quando porventura me tornei tão estúpido como aquele Estúpido, todavia por muito tarde que tenha sido, e se escrevo posteriormente a esse tempo "Tarde", então a loucura dominou a escrita, e este relato desvirtua o Estúpido que foi e o Estúpido que é!)

A rapariga chorava à minha frente... eu? Desaparecia por entre tanta palavra e dizer, desaparecia sem ter dito e por ter dito (coisa horrível acrescente-se).

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Para ti o disse, para ti... Neste dia, em que o nosso café fechou as portas, por uma destruição quer interior (por nós feita) quer exterior (por causa do Estúpido).
E mal destas palavras, se descrevessem a forma como o Excêntrico roubou o meu coração, como o bondoso o queimou, como o Histérico mo devolveu. As lágrimas queimadas pela bondade estéril...

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"Coisa triste essa de viver sem um grande amor!

Não te preocupes, jeunne fille!

Eu sei! Preocupar torna-nos quebradiços, muito muito frágeis como o gelo.

Sim, acertaste! É isso mesmo! Adoro esta sintonia!"

enfin.. enfin

por Anónimo em quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

De tantas conversas, fora toda a plasticidade, fora toda a pertinência delas, resta apenas, por vezes um certo vazio. Discute-se igual hoje, amanhã também e ontem? Sim, ontem também igual, ouvem-se as mesmas vozes, as mesmas opiniões, as mesmas irreverências, as mesmas respostas. No final resta sempre um sorriso de que algo foi feito, aliás bem feito! Um sorriso vazio sem lógica sem norte... Qualquer assunto e qualquer opinião hoje é certa, amanhã não e no dia a seguir volta a ser certa, qualquer sensação hoje é forte, amanhã fraca e depois de novo forte! Onde está o sentido de tudo isto? Não se sabe, mas discute-se sorrindo com as respostas de tal bailado argumentativo!

Desespera-se, por vezes, a mão cola na testa, o olhar é desviado, e nada faz sentido e até nesta porção nesta ilha onde não há Rosa dos Ventos, lá aparece um Iluminado que nos faz crer num sentido e num tópico de discussão e argumentação, discutir o exterior e a sensação (não interessa bem o objecto, interessa é discutir). Lá nos aparece essa Novidade, essa insanidade, esse vazio...
Às vezes não me entendo...

Até ao dia, em que um estrangeiro de cigarro na mão se aproximou, não se considerava um daqueles Iluminados. Apenas trazia com ele um bom discurso maduro, (mas oh vida tinha que ser mais um discurso). Mas, deste estrangeiro, adorei a perspicácia! Chegou ao pé do nosso grupo e sacudindo a beata para o chão, num tom jocoso mas bastante assertivo, disse:

"Vive-se por estas bandas?"

conversas num café em Paris II

por Anónimo em sábado, 17 de janeiro de 2009


Mas, se não te entendo é porque penso que excluis por completo coisas como a Maldade, o Ódio, etc... Isso tudo existe, e nós, materializamos esses mesmos valores em acções "livres" (sempre livres e, enfim, como custa dizer) com o simples intuito de magoar.


"Bem, eu não disse que tal não existe...

Ah! Estás a voltar atrás, não? O teu mundo inocente, a tua cidade, o teu império do coração pelo que me descreveste é um lugar cândido...

Sabes, queria que acordasses, queria que não palavreasses, queria que sentisses o que dizes e percebesses um pouco do que te quis dar até agora! Mas, pobre coitada e casmurra, estás sempre no mesmo lugar, aí sentada, com olhar desconfiado e com um pé atrás. Ser casmurro é coisa má e, mais que isso, é a cegueira que, por vezes ela mesma traz...
Bem, a Maldade existe. Para bem de todos nós, é bom que o saibamos e é bom que contemos com isso mal ponhamos um pé fora do nosso estado de crisálida; é óbvio! Mas a maldade não é um estado puro, ou.... enfim, diga-se, um estado geral, ela é uma excepção. A maldade é uma perspectiva, é Moral. O mal que tu entendes como tal pode ser o Bem de quem consideras inimigo ou do teu vizinho lá longe que vive numa montanha diferente da tua.
Se quis negar a maldade, não é a maldade enquanto acção que provoca sofrimento, mas sim quis esclarecer que a maldade é uma simples perspectiva do mesmo objecto!
Não é assim?

conversas num café em Paris I

por Anónimo em quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

"Apetece-me falar simples...

Simples como?

"Bem, tou um pouco cansado; apenas nos exibimos com as nossas mesquinhices e a nossa estupidez. Não sei ao certo, o porquê de tal, sei que tal como toda a gente também o faço e é algo muito mas muito viciante, todavia Porquê? Porque tendemos a separar-nos daquilo que é ou devia ser considerado importante?

Sabes, falar dessa forma é algo de todo impossível... Falar dessa forma é "Non-sense"... falar dessa forma é algo inócuo e pior será algo... Vazio!

"intrigante... Dizes-me que não conseguirias ver o mundo desta forma? aliás, a Realidade (porque de mundos estou eu cansado). Não penso assim, aliás, quando uma pessoa não é nem arrogante ou demasiado humilde, quando uma pessoa nem é ostensivamente parva ou séria, quando uma pessoa apenas é porque tem que ser, essa pessoa não te fala "das coisas que nos separam do essencial", essa pessoa fala-te desse essencial, tenta "palavrear o essencial", tenta fazer com que sentias o olhar dele, olhar dele perante o essencial. Por vezes, essa pessoa tirando essas máscaras, nem te dirá nada, apenas fará algo, algo simples, mas de uma beleza indescritivel.

E o gozo? E o brincar de forma desmedida com o outro?

"Bem, quando a pessoa que está à nossa frente, aos nossos olhos não significa nada, não é nada e não representa nada; quando a transfiguramos em "menos-que-coisa" então aí se formos "bastante" humanos desviamos o olhar, ou então vamos procurar dar-lhe significado, chegando ao pé dela e dando-lhe um aperto de mão, ou dizendo "Bom dia". Aí vamo-nos distinguir, vamos ser muito mais do que se gozassemos somente.

Sabes que isso não acontece na verdade... Isto é, sabes que uma mesma pessoa pode ser "bastante humana" para certas pessoas e "bastante desumana (suspiro.... penso que é isso que me dizes) com outras... Logo ninguém é perfeito, ninguém age uniformemente...

"Não disse o contrário... Por isso te disse que estava cansado dos "mundos". O teu olhar é um mundo, o meu é outro; o meu olhar para ti tem algo, o meu olhar para outro pode não ter esse algo. Somos instáveis, oscilamos facilmente...

A vida é feita de pequenos "nada", não é assim?

"Sabes... as vezes penso que estamos mesmo em sintonia"

(risos dos dois ... tal (o riso) era somente outro pequeno "nada")

O violino

por Anónimo em quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

"O violino decidiu cantar, cada nota de som tão vibrante ecoava na cabeça de quem ouvia dando-lhes vida; o violino decidiu chorar e cada som melancólico conseguia roubar os sorrisos de quem ouvia, tirando-lhes vida. O violino decidiu parar e o caos instalou-se no seio dos pobres homens que o ouviam.

Nasceram orações, nasceram crenças, nasceram pedidos de uma ressurreição do mesmo. O violino tornou-se imortal, como símbolo de um Deus que comandava o Homem mediante os seus acordes harmoniosos, belos ou hediondos e pérfidos.

O violino conspurcou com a necessidade o coração frágil dos homens e dividiu-os: aqueles que somente souberam reconhecer o tom hármonico do seu canto e aqueles que somente tiveram o privilégio de ouvir a solidão melancólica de quem morre pelo Tempo. Tal divisão, transformou-se num combate lógico, onde argumentos e argumentos escorriam ora a favor ora contra. Os homens excitados com tal discussão, fizeram religiões opostas, apenas pelo prazer de defender o canto que outrora souberam apreciar.

Assim, o Tempo foi passando, as religiões enraizadas já não tinham justificação e a rivalidade cristalizada nos olhos de cada pessoa repercutia-se num ódio tão grande mas tão grande pelo outro, que já não se devam ao privilégio de argumentar, apenas de se atacar mutuamente.
O ódio cresceu, foi falado e tornou-se algo material. O ódio nascera do coração dos pobres homens que já não sabiam o porquê da fé inicial, apenas sentiam inconscientemente uma necessidade existencial de gritar, de magoar, de ser agressivo para com o seu "diferente".

Todavia, nem tudo era mau, tínhamos os mais pomposos e sábios da nação que sabiam continuar na luta lógica, na dança eterna da argumentação e contra-argumentação; enquanto, os mendigos se matavam nas ruas, os anciãos discutiam com mestria (mal sabiam eles que estavam vendados pela cegueira, pela surdez e mudez; de sábios apenas tinham um título, apenas um título, pobres coitados!)

Daqui agitamos as asas e voamos, tal como uma bela pomba branca, para podermos percorrer o Espaço: saímos da Assembleia, fugimos das ruas cinzentas e aterramos nas planícies verdes onde um homem chorava. Tinha à sua frente uma pá com que vagorasamente abria a terra, mas desistira de tal tarefa. "Um dia quis criar um império, alicerçado no amor, na simpatia, na bondade e fraternidade; a tristeza venceu-me, tratava-se de utopia; tentei explicar tal, tocando, cantando para os meus homens e para os seus filhos... Eles apenas quiseram racionalizar tudo, esqueceram-se de sentir e criaram-se as divisões. Das divisões a guerra, da guerra o ódio e deste a minha lágrima." Dito isto, enterrou uma pequena caixa preta que guardava um apodrecido mas outrora belo e iluminado violino."

henrique maio - end 08

"a ideia cristaliza-se no tempo, congela-se, vive, é intemporal..."

(oh, les jours tristes: TEMPO, ESSENCIAL, CORAÇÃO, EU, OS OUTROS; o violino ainda teima em ecoar na minha cabeça, mas a lágrima já é tão forte que afasta a harmonia...)

aditamento: AMOR!!!