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Carne (Lobos)

por henrique guerra maio em domingo, 8 de novembro de 2009

Cada minuto que vivi

(e já me esqueço dos que nunca vivi)

é reflexo do lobo solitário que em mim habita,
Labirinto, ilustre labirinto, que me prende o corpo e me constrange ao longo da Natureza,
Meu corpo dissipa-se por entre meu sangue disperso em meu redor

(Lembro-me, um lobo tem que caçar)

O mundo é uma fábula, uma peça sem fim,
Ao qual o mais galvanizado dos homens geme pelo fim da tirania em seu próprio corpo.
A caça, luar a nossos olhos, é o que nos coage a assaltar outro coração,
Voracidade em nossas garras ao caçar e só nos fartamos quando, com nossos dentes, comemos as vísceras de outrem.

Degolamos, porque o desejo da caça é superior à humanidade que em nós reside.

(Lembro-me: um Lobo tem que caçar,
E a família reúne-se para meditar sobre os frutos da caça.
É dia de festa, todos os corpos se movimentam vagarosamente)

Remorso na esperança que nos leva à traiçoeira caça,
Fé nos olhos (verdes) que escarnecem o cadáver de outrem jazido a nosso lado,
Amamentamos deuses por entre ossos, carne putrificada e reminiscências.
Evocamos os nossos entes queridos e suas almas.
Após a caça, somos repetidamente humanos.

(Lembro-me, até um Lobo tem família)

As massas movem-se consoante as leis que as regem,
Cegas elas procuram o Bem-Comum,
Pura fantasia que as norteia. (O caos reina..)

(Lembro-me até um Lobo pode Amar)
Mas, amor de verdade?
Ou fantasia de amor?
Não vale a pena esculpir uma verdade,
Aqui me prostro, porque o amor de lobo tem tanto valor como o amor de cordeiro.

Somos Lobos? Todos?
(Cala-te, enfastias-me com tua prece!)

Abismo, até os Lobos têm um abismo (neles, não o coração, apenas e apenas só a Fome).

nota: originalmente aqui

essência e condição II

por henrique guerra maio em segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Outrora defendia-se a ideia que viver a experiência do eterno é uma espécie de morte, dizia-se que nenhum ser vivo conseguiria aguentar aquele despertar e logo procuraria refúgio em algo mundano, em algo banal. Defendia-se porque o homem mortal tendia para a imortalidade.

Hoje, critica-se tal despertar, porventura o homem tão adverso àqueles segundos em que toca com sua mão na eterna verdade preferiu esquecer o que será aquela angústia divina. Vivemos ao som do que nos prende, do constrangimento. Coitados daqueles que teimam em abdicar do espaço público e se deparam na solidão onde poderão exercer a contemplação (que sempre foi tida como última actividade do homem, a mais importante das actividades). O trabalho, a riqueza, a política seriam estados prévios àquela contemplação, seriam um caminho para aquele estado último onde a esperança se dilui e fundamenta-se a solidão para que se roce o sangue que nos dá vida.

Não critico uns nem outros. Não critico os que se prendem à sua vida activa, à sua vida pública, pois faço parte desse mesmo grupo, igualmente não critico os que contemplam, porque em verdade eles nunca existiram e tal modelo de homem é mera imaginação. Utopia, pois este “homem”, não é homem, não o poderia ser, como custaria a alguém saber que o correcto é seu isolamento após uma vida meramente pública e mundana? Como se desprenderia ele deste seu bailado? Negaria toda a sua vida? Todo o seu Passado?

(...)

Com o tempo, aceitaremos que a própria crítica é mundana, é trivial e banal. Porque ela faz parte do espaço público, ela faz parte daquele estado prévio. Acrescento, exagerando, que faz parte do constrangimento. Eis que aquele que almeja a imortalidade, sabendo que a solidão é o seu espaço, sabendo que seu pensamento não pode e não deve ser comunicado*, apenas seguirá uma vida onde a resposta que irá semear será só sua, apenas sua. Não se tratará de egoísmo, visto que se todo e qualquer homem deseja a imortalidade, então cada um de nós terá que contar que outrem fará e descobrirá aquilo que nós mesmos desvendaremos ao tornarmo-nos imortais. E aqui reside o maior dos problemas sobre a imortalidade do homem: biologicamente condenados, a nossa contemplação só poderá estar associado a um qualquer novo estado de crisálida que catapultaria nossa essência para outro nível. Talvez, aqui se esculpa toda e qualquer teoria sobre Deus. Aqui mesmo, nós “seres” que não homens, caminhamos…

*Aquele que pensa, que contempla, ao resumir seus pensamentos pára sua excelsa actividade. Se a vida de contemplação é o último dos estados, então ao querer comunicar o que sente ao contemplar, regride e volta ao estado prévio de seu caminho.

(…)

Deparo-me com a seguinte conclusão: falar do "estado de contemplação" não é próprio da condição humana, muito menos da sua natureza...

(minhas notas e rascunhos)

essência e condição

por henrique guerra maio em segunda-feira, 19 de outubro de 2009

I

“Põe a gramática em prática,

Didáctica, dramaticamente citando técnicas

Poéticas com estéticas

Fonéticas sempre atento ou surpreendente

Com métricas à frente, p’a mentes cépticas e exigentes”

Sam the kid

Sou guardião da palavra, da pedra e de meu Império. Assim, pedra a pedra, palavra a palavra, ergo meu Império.

Vaidade e modéstia se misturam enquanto esculpo meu próprio discurso. Cepticismo leva-me as idiossincrasias fazendo-me encontrar a soma das partes. O Homem no seu todo é um Império imperfeito. Nunca vi um só Homem que através de certa palavra conseguisse expressar exactamente o significado que ela mesma lhe trás a seus olhos. E eis aqui toda a problemática de uma linguagem que sempre se quis universal. Confunde-se sensação e razão e, mesmo assim, sabendo tal, ergue-se um discurso sempre, mas sempre nebuloso. A palavra constrói-se ao longo do Tempo e, assim, a mesma palavra é repositório de épocas, do ritual e do costume. Porém, estranha-se quando certa palavra em certo momento é usada com o seu sentido já esquecido nas almas dos homens, estranha-se a habilidade e a novidade (que em verdade nunca foi novidade, mas sim renascimento).

Um estilo não é mais que resultado do processo criativo de um homem que nunca se lembrou das leis da razão enquanto erguia sua própria eloquência.*

*("O génio por muito que saiba, quando entregue à sua criação, é inconsciente como o cedro", Ruy Belo)

A razão não habita pelos caminhos da criação, pois se a palavra tem que se deformar em certa altura, a razão logo castraria tal processo que, mais tarde, levaria a um harmonioso renascimento. O desconforto surge pela novidade e esta é a minha confissão. Todo o Homem pensa sua linguagem e semeia com ou mais cuidado, porém não se ceguem pela razão e pelo estudo da palavra, uma boa colheita advém sempre do coração do homem que, em certa altura, decide inverter o curso do rio, fazendo nascer a admiração, criando e exaltando seus deuses.

Um estilo não é um qualquer cárcere da criação. Cria teu estilo, com mais ou menos modéstia e, mesmo não agradando a todos, alimenta-o para que cresça. A crítica à tua Obra virá certamente, mas a crítica não destrói o criador, apenas é resultado da contemplação da Obra. Se a tua obra é contemplada, então, meus caros, a criação de um estilo “Novo”, de palavras com novos significados, foi a semente que lutou para medrar. E conseguiu crescer, destruindo as estruturas lógicas outrora definidas. Porque lógica, tu, caro homem, não poderás brincar com a palavra?

Dá-me a sístole e eu, como reflexo, dar-te-ei a diástole.

Logo ao longe nasce a contestação o discurso não é universal. Mas, se seu criador ao fazer preces para que seu discurso nascesse nunca procurou outra coisa a não ser seu crescimento porque razão seu discurso teria que ser universal? Porque razão, todo e qualquer homem, perceberia a semente que está por detrás de certa palavra usada por certo homem em particular? Ah, desenganem-se, não é falha do criador, não é arrogância ou superioridade do mesmo, é apenas respeito à ideia que o fez criar. Se o julgam caem no ridículo e obrigam esse mesmo homem a apegar-se às cordas da Lógica para poder trepar até ao cimo da montanha. Que a linguagem traz entendimento e diálogo entre homens é algo de verdadeiro, não nos podemos esquecer nunca que ela também traz a confusão e a diferença. Tentar subtrair esta característica àquela é mera quimera.

Reparai, eu fundo a concórdia e a confusão. Faço com que elas unam as mãos! Porém, admiro a confusão, oportunidade única para vencer a inércia e arrebitar o homem há muito encarquilhado em suas estruturas.

Em mim, entabulando meu discurso, apenas desenho uma conclusão: jamais irei procurar a Verdade, ela não me interessa; por outro lado, nunca cairei no erro de abraçar a Lógica; ainda, em mim não habita qualquer ânimo para exaltar a Razão. Critiquem minhas palavras, em mim, uma divindade: a sensação. Único discurso capaz de enaltecer nossa condição. Mas tudo são vazias palavras se não as souber decorar. E eis que fundo o laço que me une aos homens: o coração. Minha palavra renasce cada vez que me encontro diante de uma folha branca, minhas mãos procuram moldar a argila. A cada dia, a mesma palavra encontra novo significado, até ser reduzida à sua essência e, assim, apelando ao sacrifício, descobrirei com o tempo que a essência da palavra é reflexo do laço que nos une.

"Consistência,integridade,longevidade na essência"

Sam the kid