O homem que tinha coração de vidro*

por henrique maio em sexta-feira, 15 de maio de 2009

tb publicado aqui

Lá longe, naquele pequeno (já nosso) mundo, nascerá em tempos um homem caricato. Esse homem, na sua condição igual a tantos outros, era especial por possuir um coração de vidro. Os homens das ciências e afins quiseram estudá-lo, mas logo os humanistas os proibiram. "Não maltratem aquela pessoa. Ele padece de uma doença. Morrerá ao mínimo sofrimento e mágoa. Que direito é o vosso de lhe tirarem a vida? É o conhecimento? Estranha doença que vós senhores da medicina sofrem." disseram na altura.
Cresceu e de petiz tornou-se homem de barba feita. Da sua infância apenas é importante reter o isolamento. A mágoa, o sofrimento só os poderia conhecer em contacto com outros homens, como tal, pensaram os pais, seria melhor isolá-lo do mundo e dar-lhe o carinho necessário para crescer dentro de quatro paredes. Melhor solução? Sem certezas, fora a adoptada. Que homem sou eu para a criticar? Aquela pobre criança ficaria com o coração estilhaçado à mínima birra, ao menino contacto que a levasse à desilusão.
De barba feita, quis, o pobre homem, sair de casa. Ver o que estava para lá da verde paisagem.
Os pais ficaram receosos. Como lhe explicar a sua condição? "Querido filho, amor da minha alma! Lá fora o mundo não te sorri tanto como cá dentro. Cá dentro tens carinho. Lá fora tens outras coisas que te farão sofrer."
O filho intrigado respeitou. Mas a curiosidade ultrapassa os avisos. Escapuliu-se o outrora petiz.
Os primeiros tempos foram agradáveis. Viveu junto à natureza, conheceu as maravilhas do mundo. O problema surgiu com o envolvimento com outros. Ele não estava preparado.
A sua viagem, de nascente a jusante, tal como as coisas do Tempo, tinha um fim e início. Mas, nós homens sem estilhaços sabemos que através do Tempo podemos reparar tudo ou, pelo menos, esquecer ou atenuar a dor. A sua viagem era rápida, muito rápida. O início e o Fim ligados por tão frágil peça.
E eis que a desilusão, mágoa, angústia, solidão, ódio, maldade se fizeram sentir, estilhaçando-o. A desilusão ensinou-lhe que nas relação com as pessoas nada é certo e a esperança em demasia, a expectativa também ela engradecida leva sempre sempre à desilusão. A mágoa mostrou-lhe a dor que se sente quando alguém age para connosco a procura das nossas lágrimas. A angústia explicou-lhe que vivemos em pleno estado de ansiedade e tudo nos custa, a falta de novidade, o excesso dela e o não sabermos lidar com as coisas da Vida. A solidão, estado natural de nós homens, teve nele um efeito tal que lhe tirou as forças, a energia e vitalidade e tudo isto apenas com uma premissa: o afastamento face ao mundo, face às pessoas, o olhar absorto e o coração e alma consumidos por uma labareda mais forte que a roubada por Prometeu para forjar os homens. O ódio de mãos dadas com a maldade desfizeram-no, sem razão ou qualquer lógica, eram eles mesmos por si e nada mais há a explicar.
O sangue escorria-lhe pela boca, de joelhos entoou a sua última prece:

Ó vida, ó vida! Porque me deste tu a tua dádiva
se não me deste a oportunidade de compreender o mundo?
Porque me deste forças para nascer e olhar a Natureza
Se logo me impediste de tocar nas suas folhas.
Porque me fizeste homem se nunca me poderia relacionar?
E porque de todos os homens me escolheste a mim
Para sofrer com todos os ódios deste mundo
Para os sentir como ninguém
Para os viver e respirar
Aceitava não ter nascido e sido isolado
Era preferível, teria-me feito sorrir!
a minha alma espalhada agora no terra
o meu sangue te dou. Sem agradecimento espero
TU própria me condenaste.
Não me arrependo da viagem. Arrependo-me sim de ter abdicado!
Abdicado do único Amor que tive. Meu pai e minha mãe.
Calma. A lógica e Razão aparecem.
Não te odeio Vida. Não! Fizeste-me sentir o Amor e mais não posso pedir.


É um conto que não me é estranho de todo. Se calhar já o li, imaginei outrora. A questão é que o sinto!
Como tal decide escrevê-lo ou reescrevê-lo á minha maneira. Aqui fica uma espécie de resumo. Sim, esta não será a história completa. Coração de vidro. Faz-me rir tanta inocência e ao mesmo tempo tanta verdade.
Ainda fica o agradecimento ao T. Ramalho. Voltei aos contos meu amigo, voltei aos contos. =)

Um comentário

E fizeste tu muito bem :)

e está muito fixe. Isto: "A solidão, estado natural de nós homens"; "Não te odeio Vida. Não! Fizeste-me sentir o Amor e mais não posso pedir." :)

O teu texto fez-me lembrar duas coisas:
1. Um livro chamado passaros feridos, que começa com a referencia a um pássaro que, prestes a morrer, faz um canto muito bonito. No momento em que está no seu esplendor...desaparece:)

2. Que para as flores florirem, sairem do botão, têm de apanhar chuva, vento, frio, sol, tanta coisa. E para se reproduzirem têm de ter abelhas e bichinchos a passearem por cima de si.

Um abraço!

by Tiago Ramalho on 16 de maio de 2009 às 15:03. #