Um sopro frágil - A crippling Blow

por henrique maio em terça-feira, 17 de março de 2009

Já não tinhamos desistido de tudo?

Desistir(surpreendida)? Desistir (um tom de gozo crescente)? Desistir?! (pasmada, como quem bloqueia quando nos dizem que algo é assim porque tem que ser)?


Penso que é a altura ideal para vos apresentar as gentes que vagueiam dentro deste já nosso querido café! Lá longe, por detrás do Balcão está o avarento Dono, com uma sábia história de vida mas sem astúcia para a contar devidamente, com bons ensinamentos, mas sem forma, com amor, todavia sem o carinho que ele exige! À sua frente, o Embriagado do costume, o velhote que todos os dias às 17.15 (não 17.10 - oh como faz diferença estes escassos segundos para vós ou Alguém que leia) entra pela sóbria entrada do pequeno café, esboceja um pequeno sorriso para os clientes que se encontram por lá, chega ao pé do balcão, pede o seu pequeno copo com pequeno sangue verde lá dentro e fica absorto em si mesmo! Depois, no recanto do meu olhar, uma menina delicada, nobre, rica na alma, decidida no olhar, ostentando uma boina preta clássica que lhe assentava na perfeição e que todos os dias toma o seu chá com uma colher e meia de açucar e o seu croissant com uma passagem graciosa da melhor manteiga de Paris (nunca pode haver engano nesta preciosa ementa seria dolo por parte do nosso querido Café). Por fim, numa mesa ao fundo do pequeno Café, encontra-se por costume o Louco, que por pena da sua fraca condição humana o alimentam com verde vida naquela pequena mesa afastada de tudo e todos, do mundo lá fora por causa daquela feia vitrine transparente da janela do nosso Café (This is the world that we live in) e do mundo cá dentro do quão espaçadas estavam as outras mesas em relação àquela, que infortúnio. Enfin, la vie mes amies, cette merde!

Não ouse o leitor pensar que o Café era somente frequentado habitualmente por este pequeno número de almas, muito pelo contrário: ainda havia espaço para os gémeos Excêntrico e Indeciso que todos os dias iam lá tomar o seu café matinal; o "Heartless" sempre com um olhar vazio sem dizer uma palavra, que entrava para ler a primeira página do "Le Figaro"; aussi, era usual ver o nosso querido "Filosófo das ruas de Paris" que dia sim dia não (se não estou em erro, segundas, quartas e sábados - não, sábado não! Domingos! É isso, tenho quase certeza já que o nosso café nunca fecha portas durante os sete dias das nossas curtas e longas semanas) aparecia à porta como se tratasse de uma sombra e suspirava "Enivrez-vous!" (...)

Parvo, fala comigo, onde está o teu olhar?

Fixei-a até a fazer tremer e recuar na própria cadeira. Um Homem nunca devia ser interrompido quando pensa, quando deixa de viver para pensar objectivamente no que o rodeia. Aquela pobre desgraçada teve a ousadia! Oh, Amor, desculpa-me! Como tal despertou o intenso ódio que existe em mim! Não respondi, não merecia resposta. Desviei o meu olhar até encontrar outro ponto de interesse... Nunca o voltei a encontrar, com pena.

Olhei para baixo, para a mesa onde me encontrava, um cigarro tinha sido deixado aceso, associei-o ao abandono a que a minha amada madamoiselle me condenou na altura, nem cheguei a olhar em frente, sabia que não valia a pena, ela já não se encontrava lá - a presença, a sensação forte, o meu suor tinham abrandado e eram tudo sinais de certa "falta"!

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Um dia mais tarde, em súbita sobriedade vim a entender que naquele pequeno café existiam somente três presenças: uma era o Dono, o avarento Dono; outra era a a menina linda de boina preta clássica e, por fim, a outra presença era Eu.

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Tb publicado aqui!