da ociosidade

por henrique maio em sexta-feira, 8 de maio de 2009

(1) Engraçado, por qualquer razão que desconheço, hoje não me apetece falar. Não me apetece passar horas e horas a descrever o mundo e as coisas dele: não me apetece falar de Deus, de Amar, de ódio, de guerra, de esperança e desespero. Neste momento, nada me ocorre sobre a tua vida ou a dos outros, não há curiosidade em observar ninguém. Não há necessidade! Sinto apenas que quero ocupar o Tempo para que ele passe. Ocupar o Tempo de uma maneira tao trivial...
Adoro estes curtos momentos, fazem-me sorrir e é quando noto que sou uma pessoa "feliz". Não puxes por mim hoje! E não me faças falar da ociosidade. Não a entenderás como eu a vejo.

(2)
Menina dos olhos tristes,
Faço tudo para não ter que pensar
E mascarando-me de Charles
Desligo o pensamento e Perco-me no luar
Grito ao Amor


(3) Há que entreter a alma para não ligarmos ao que nos rodeia e para estarmos sempre iludidos na felicidade. Só uma petiz criança poderá acreditar na fácil ilusão. Todavia à medida que crescemos trocamos a crença na ilusão por um sentimento de intensa necessidade da mesma. A diferença é que a crença é natural e pouco pensada enquanto que, por outro lado, a necessidade é racionalizada e carregada de receio.
Falo-te da ociosidade pela simples razão de precisar dela. Hoje sei que os momentos em que não faço do ócio o meu presente, são aqueles onde o passado e a perspectiva futura habitam com tal intensidade que me atenuam o sorriso; o pesar dos sonhos, receios, certezas.
Eis que chegamos ao palco principal e só nos pedem uma pequena tarefa: escrever com a tinta com que amamos. O Ponto ajuda-nos se tropeçarmos; o encenador estende-nos as cordas para ficarmos bem seguros.
A ociosidade é coisa má? Não! A ociosidade é o único estilo de vida capaz de balizar a nossa árdua tarefa nos meandros da solidão, querida alma. E tal qual criança trocista, só me rio com o calor do luar e o frio da aurora; tal qual uma criança trocista só me rio com mágoa quando mesmo em pleno ócio observo os outros e a solidão me acompanha.
E agora, eis que dou conta que esta faceta da vida se altera. Infelizmente, o ócio, o ócio como o entendo e o vivo, não é a válvula de escape tal como o desenhei; o ócio, esse mesquinho e fraco ser, não é mais que meros minutos numa pessoa que vive a velocidades estonteantes. O pensamento vence a batalha e o ócio enfraquece, prostrando-se aos pés da razão.
Ó querida alma, o luar volta a ser frio e a aurora fria permanece.

tb publicado aqui ( textos que se relacionam com o tema da ociosidade)