essência e condição II

por henrique guerra maio em segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Outrora defendia-se a ideia que viver a experiência do eterno é uma espécie de morte, dizia-se que nenhum ser vivo conseguiria aguentar aquele despertar e logo procuraria refúgio em algo mundano, em algo banal. Defendia-se porque o homem mortal tendia para a imortalidade.

Hoje, critica-se tal despertar, porventura o homem tão adverso àqueles segundos em que toca com sua mão na eterna verdade preferiu esquecer o que será aquela angústia divina. Vivemos ao som do que nos prende, do constrangimento. Coitados daqueles que teimam em abdicar do espaço público e se deparam na solidão onde poderão exercer a contemplação (que sempre foi tida como última actividade do homem, a mais importante das actividades). O trabalho, a riqueza, a política seriam estados prévios àquela contemplação, seriam um caminho para aquele estado último onde a esperança se dilui e fundamenta-se a solidão para que se roce o sangue que nos dá vida.

Não critico uns nem outros. Não critico os que se prendem à sua vida activa, à sua vida pública, pois faço parte desse mesmo grupo, igualmente não critico os que contemplam, porque em verdade eles nunca existiram e tal modelo de homem é mera imaginação. Utopia, pois este “homem”, não é homem, não o poderia ser, como custaria a alguém saber que o correcto é seu isolamento após uma vida meramente pública e mundana? Como se desprenderia ele deste seu bailado? Negaria toda a sua vida? Todo o seu Passado?

(...)

Com o tempo, aceitaremos que a própria crítica é mundana, é trivial e banal. Porque ela faz parte do espaço público, ela faz parte daquele estado prévio. Acrescento, exagerando, que faz parte do constrangimento. Eis que aquele que almeja a imortalidade, sabendo que a solidão é o seu espaço, sabendo que seu pensamento não pode e não deve ser comunicado*, apenas seguirá uma vida onde a resposta que irá semear será só sua, apenas sua. Não se tratará de egoísmo, visto que se todo e qualquer homem deseja a imortalidade, então cada um de nós terá que contar que outrem fará e descobrirá aquilo que nós mesmos desvendaremos ao tornarmo-nos imortais. E aqui reside o maior dos problemas sobre a imortalidade do homem: biologicamente condenados, a nossa contemplação só poderá estar associado a um qualquer novo estado de crisálida que catapultaria nossa essência para outro nível. Talvez, aqui se esculpa toda e qualquer teoria sobre Deus. Aqui mesmo, nós “seres” que não homens, caminhamos…

*Aquele que pensa, que contempla, ao resumir seus pensamentos pára sua excelsa actividade. Se a vida de contemplação é o último dos estados, então ao querer comunicar o que sente ao contemplar, regride e volta ao estado prévio de seu caminho.

(…)

Deparo-me com a seguinte conclusão: falar do "estado de contemplação" não é próprio da condição humana, muito menos da sua natureza...

(minhas notas e rascunhos)