por Francisco em sábado, 15 de dezembro de 2007

Viva!

Antes de mais, gostava de deixar a minha satisfação pessoal por 3 acontecimentos na semana que findou: o dia da FDUP, a saída do Tribuna (à qual me irei referir mais tarde) e o jantar de Natal da faculdade. Cada um deles à sua maneira, reforçaram os laços que me unem cada vez mais à FDUP, qual amor à primeira vista, onde desde o primeiro momento me senti muito bem.

Em Novembro escrevi sobre Durão Barroso e o seu papel enquanto bom anfitrião da Cimeira das Lages, acontecimento oficioso da invasão no Iraque, em 2003, por razões que todos conhecemos (será que conhecemos, de facto?). Ana Gomes sintetiza de forma muito clara e objectiva esse papel e camuflagem do mesmo aqui.

O que me traz aqui hoje é a Cimeira de Bali. Parece que na recta final das negociações os EUA cederam na sua posição crónica e intransigente no que às metas de redução da emissão de gases poluentes com efeitos de estufa diz respeito. Se assim for (e aplaudo desde já esta atitude), os EUA ganham um pouco mais de credibilidade, embora esta pareça indiferente para a admnistração Bush, que nunca hesitou em abrir a boca em defesa do ambiente quando o Protocolo de Quioto continuava amarrotado no balde do lixo. Já para não falar no estatuto de país mais poluidor do mundo, de mãos dadas com a China.
Todavia, e porque seria idealista (a palavra agora está na muito na moda para qualificar alguém com ideias demasiado corajosas) a ideia de uma convergência total na Cimeira de Bali, a redução de gases poluentes com efeitos de estufa não faz afinal parte do texto oficial. Com efeito, este cita "numa nota de rodapé, um capítulo de um relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, onde essas metas indicativas são referidas". Esperemos pois que este pormenor de formalidade textual não seja semelhante ao que se tem passado no plano material, concreto: objectivos fundamentais transformados nisso mesmo, meras "notas de rodapé", esquecidas e contornadas.
Uma nota para Al Gore. Esta nova superstar da causa ecológica (e milionária também) não perde agora uma oportunidade para se mostrar, qual Madre Teresa de Calcutá, como protector e homem-missão de defesa do Ambiente e do nosso planeta. Mas a sua falta de tacto é tão grande que chega a dizer coisas como estas: "Como não tenho nenhum cargo no meu país, não estou limitado pelas simpatias diplomáticas. Vou dizer, por isso, uma verdade inconveniente: os EUA, o meu país, são o principal obstáculo nesta conferência". Esta pérola tem um duplo interesse. Primeiro, mostra o estofo político e moral de Al Gore que afirma, sem pudor, que neste momento, não ocupando nenhum cargo político no seu país, pode afirmar as suas supostas convicções ecológicas. Portanto, estando na política, há que estar de boca fechada e seguir o rebanho, certo? Depois porque demonstra uma enorme hipocrisia nos propósitos de Al Gore. Ao afirmar que os EUA são o principal obstáculo à Cimeira de Bali, além de não dar ao mundo nenhum novidade, esquece-se que também ele foi vice-presidente de uma administração que em anos nada distantes insistiu igualmente em não ratificar o Protocolo de Quioto. Quem era então o "principal obstáculo"?
Para concluir, gostava de só expressar uma preocupação. A Cimeira de Bali, e tudo o que seja (efectivamente) realizado no seu âmbito, é de louvar. Mas há que ter em conta a posição dos países em desenvolvimento. Se o planeta corre os riscos que corre, uma grande fatia desse bolo pertence aos países hoje desenvolvidos que nos seus processos industrializadores não olharam a meios (árvores, solos, rios, mares, ar, ...) para acumular riqueza. Ora são muitos destes países que hoje apelam (e bem, sem dúvida) ao cumprimento dos objectivos ambientais. Mas estes não podem exigi-lo de forma pura e dura, esquecendo-se do seu próprio passado. Os países em desenvolvimento também precisam de se industrializar e gerar riqueza para avançar no sentido de sociedades mais igualitárias e dinâmicas. Há pois que delinear com estes estratégias e planos alternativos que permitam harmonizar o crescimento industrial com a protecção dos recursos naturais, de forma a não repetir os mesmos erros do passado. E num mundo de hoje onde o conhecimento e as novas tecnologias abundam, não pode haver desculpas para não o fazer...

Um abraço e bom fim de semana