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TERRA – 2
Enquanto caminhávamos pela rua, o leilão colectivo conhecia novos lances. Leilão peculiar esse, ganharia quem acertasse na temperatura, quanto mais baixa melhor. Estivessem 0 graus e seríamos pequenos heróis caminhando pelas ruas numa noite escura de Outono. Foi um leilão sem início ou fim: ninguém revelou estarmos perante um, ninguém saberá que temperatura realmente esteve. Apenas lançávamos as hipóteses ao ar, talvez bem, talvez mal.
Enquanto caminhávamos pela rua, o leilão colectivo conhecia novos lances. Leilão peculiar esse, ganharia quem acertasse na temperatura, quanto mais baixa melhor. Estivessem 0 graus e seríamos pequenos heróis caminhando pelas ruas numa noite escura de Outono. Foi um leilão sem início ou fim: ninguém revelou estarmos perante um, ninguém saberá que temperatura realmente esteve. Apenas lançávamos as hipóteses ao ar, talvez bem, talvez mal.
Foi por aí que descemos uma vereda ao som de uma música frágil. Olhamos, vimos e subimos as escadas desse edifício quase devoluto, onde deparamos com pequenos jovens a dançarem danças folclóricas que, se pouco dizem aos pais, talvez menos diga aos próprios. Toda a magia daquela hora residia na condição daqueles jovens que, numa noite muito fria de Outono, saíam de casa rumo ao C.D.E.P. – Clube Desportivo Estrelas de Pinhel – para cruzarem os braços uns nos outros e dançarem, enquanto o rádio reproduzia as vozes tremidas que dão causa aos bailados dos ranchos.
Pouca paciência a nossa, amantes, simpatizantes ou tolerantes do desporto rei. Trocamos a dança pelo campo da bola, uma mesa de matrecos à moda antiga, com espaço bastante entre cada um dos jogadores. Depois o tempo correu, lá foi indo, e os pequenos jovens desceram das suas danças para connosco dividirem o palco de todos os sonhos. Jogamos, soubemos as suas ambições, que a greve era um dia em que não se ia à escola, que em Pinhel a escola tem mesas de matrecos e ping-pong, e confirmamos que, afinal, Portugal ainda era um país a várias velocidades. A noite continuou e foi bela, andamos mais, conversamos mais, especulamos mais. E, cansados, adormecemos.
…
Acordei então, no dia seguinte, a pensar num pequeno do dia anterior. Seriam 10h, talvez, e eu acabava de abrir os olhos, mais uma vez, para o mundo. Aí me lembrei do Cristóvão, miúdo benfiquista que conhecera no dia anterior, dono de uma gargalhada feliz, batoteiro aos matrecos, emissor de umas quantas asneiras esporádicas. Confrontei a minha manhã de sono – de jovem em viagem de lazer – com a pequena vida do rapazote, 11 anos talvez, que àquela hora ajudava o pai a erguer um muro ou, quem sabe, estaria a fazer a poda à vinha. E de como seriam as forças emergentes da vida que o fariam sair de casa na véspera para o bailarico com as meninas da sua idade, com um adulto fazendo de maestro, orientando toda a acção do grupo. Deitar-se-ia tarde, cansado, e no dia a seguir o pai chamá-lo-ia:
- Cristóvão, acorda e anda para a poda.
E eu, que nessa hora me dizia cansado, aquecia-me junto dos cobertores, tendo todo o dia à minha espera, apenas com o compromisso de ter de escrever umas quantas coisas para o jornal que, em verdade, nem se prendiam com a viagem, fiquei compadecido ao lembrar-me daquele rapazinho tão igual em quase tudo e tão diferente nesse pouco. Foi aí que, na hora de fraternidade, ainda que só que pela minha memória do jovem, tive acima de tudo pena que o mais importante do mundo não fosse as crianças.
A TERRA - 1
É no caminho do meu calvário, feito com pernas em dor e olhar enevoado, que volto o olhar para a minha terra. Vislumbro campos sem nome com filas seguidas de vinha; mas já só as vejo no meu imaginário, porque o homem fugiu para outros lugares e esqueceu esses espaços que há tanto pouco acarinhava. Agora, neste tempo, tudo está preparado para a videira enrodilhar-se nesses pequenos arames esticados em filas contínuas, como soldados bem adestrados. Mas é por esse gritante silêncio do oficial, eco mudo em todo o lado sentido, que os homens não saem para o campo. Não há ordem que valha o esforço e, por isso, no findar do Verão, as uvas a recordar a primavera tornar-se-ão memória ainda mais distante.
Queria falar com os velhos sobre esse crime que se vê ao largo dos caminhos. Quem abandonou a terra? E com que direito o fez? Mas será uma conversa feita de silêncios, e fá-los-ei recordar a sua juventude feita em amor (ou dor) ao campo, de como o esforço desse tempo apenas ficou guardado em papéis que se destinam a amarelecer. Ou, quem sabe, a ajudar a acender a lareira na noite fria de Natal em que os netinhos voltem à província de rosto enfastiado. De certa maneira, ainda vou conversando, quando vejo esses olhos envelhecidos ao frio, as mãos feitas em calos grossos, a terra escura a pintar a ponta dos dedos. É da maneira que acabo por ouvir as dignas memórias que acabaram guardadas no corpo. Converso sem palavras, porque não há que trazê-las para onde são hostis, não há que trazer dor para onde dor existe.
Há, porém, jugos que excedem a nossa vontade. Nessa casa que me serviu de lar, começo a falar sobre temáticas ordinárias, assuntos correntes do dia-a-dia. Mas, com sala quente e agradável, sem se sentir o frio seco que com a noite vem, a conversa acaba por flutuar para o passado, para a memória, agora pintada de palavras. Redescubro o tempo que longe vai, e faço o contraponto com os dias de hoje.
“Eu até deixava que cultivassem os campos de graça, e ficassem com tudo o que produzissem, mas ninguém quer.”
“A cooperativa chegou a pagar-me só metade dos custos que eu tinha com tudo.”
E com isto se fecham as portas à terra, embalando as trouxas em duas malas de cartão plastificado. Há quem parta, e nem chegue a dizer adeus: uns, porque lhes pesam os anos aí passados; outros, porque a esperança de uma vida melhor, mais “digna”, como lhes quer parecer, os convida a desprezar esse tempo aparentemente tão ignóbil.
E o amargo no gosto acaba por crescer. Os que ficam, recordam: quem não se enche de nostalgia perante a memória de um passado honrado?
Agora, que agastado estou, talvez vá ali ao café e peça um copo de vinho. Verde ou maduro, mas aqui da zona.
“Isso não temos, senhor. Quer um licorzinho?”
Licor de fora, vinho de cá. Afinal é tudo bebido à mesma.
“Venha lá um”.