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What if you miss the last train?

por Inês em quinta-feira, 11 de março de 2010

E a saudade é tudo ser igual

por Inês em quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Desde que nos deixaste o tempo nunca mais se transformou
Não rodou mais para a festa não irrompeu
Em labareda ou nuvem no coração de ninguém.
A mudança fez-se vazio repetido
E o a vir a mesma afirmação da falta.
Depois o tempo nunca mais se abeirou da promessa
Nem se cumpriu
E a espera é não acontecer — fosse abertura —
E a saudade é tudo ser igual.

Daniel Faria, in Explicação das Árvores e de Outros Animais

Banda sonora de estudo (ainda)

por Inês em segunda-feira, 25 de maio de 2009

Agora a Parte II.



Keith Jarrett, Koln Concert

Às vezes não sei escrever

por Inês em quarta-feira, 29 de abril de 2009

O que um verso demora!
A esta mesma hora,
Quantos poetas, como eu, à espera!...
Passou o inverno, veio a primavera,
Deitou-se a noite, ergueu-se a madrugada
E a voz
De todos nós
Cativa na garganta estrangulada.

Nenhum sinal no céu de próximo milagre;
Os adivinhos mal nos adivinham;
E os restantes humanos,
Há infinitos anos
Que apenas tecem
A teia da rotina,
Como o instinto os ensina.

E resta-nos a força
Que empurra os cegos contra a claridade.
Ter confiança é deslaçar metade
Do nó do tempo que o destino aperta.
Suprema descoberta
Doutros que no passado não desesperaram,
E foram premiados e cantaram.

Mas pesa como um luto
Este silêncio hostil.
E fere como a raiva dum cilício
A certeza da morte
Colada ao corpo.
Que desgraça
Desconhecida,
Se a mudez ultrapassa
A nossa vida!

Miserere Nobis, de Miguel Torga
in Antologia Poética
(4a Edição Aumentada), Diário XIII

Ritos no rito das estações

por Inês em sexta-feira, 17 de abril de 2009

Ontem à noite apeteceu-me reler Manuel Alegre. Com isto das internets, perdeu-se aquela mística de ir procurar papéis em gavetas ou estantes antigas e de pelo caminho encontrar fotografias já esquecidas e cartas e bilhetes que não sabemos se queremos (devemos) continuar a guardar. Poderia ter ido desencantar este excerto a algum desses cantos para onde se atiram as coisas que não nos apetece arrumar. E, na minha cabeça, fui de facto desencantá-lo aí, ao meu 7º ou 8º ano, que foi quando o descobri, por altura do 25 de Abril - para ler nas comemorações da escola. Deixo-o aqui, antes que chegue a 'febre das comemorações' do próximo fim-de-semana, onde ele perderia o protagonismo que merece. Anos passados, parece-me tão bonito como da primeira vez que o li.


Nasci em Maio, o mês das rosas, diz-se. Talvez por isso eu fiz da rosa a minha flor, um símbolo, uma espécie de bandeira para mim mesmo.


E todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, no dia 12 de Maio, às dez e um quarto da manhã (que foi a hora em que eu nasci), a minha mãe abria a porta do meu quarto, acordava-me com um beijo e colocava numa jarra um ramo de rosas vermelhas, sem palavras. Só as suas mãos, compondo as rosas, oficiavam nesse estranho silêncio cheio de ritos e ternura.

Nesse tempo o Sol nascia exactamente no meu quarto. Eu abria a janela. Em frente era o largo, a velha árvore do largo dos ciganos. Quando chegava o mês de Maio, eu abria a janela e ficava bêbado desse cheiro a fogueiras, carroças e ciganos. E respirava o ar de todas as viagens, da minha janela, capital do mundo, debruçado sobre o largo onde começavam todos os caminhos.

E tudo estava certo, nesse tempo, ou, pelo menos, nada tinha o sabor do irremediável. (...)

E eu dormia poisado sobre a eternidade, como se tudo estivesse certo para sempre, eu dormia com muitos olhos, muitos gestos vigilantes sobre o meu sono. Por vezes tinha pesadelos, acordava, inquieto, a meio da noite, qualquer coisa parecia querer despedaçar-se e então exclamava:

- Mãe!

E logo essa voz, tão calma, entrava dentro de mim, mandava embora os fantasmas, e era de novo o meu quarto, a doce quentura da minha casa no cimo da ternura.

Não havia polícia nesse tempo. Ninguém roubaria a tranquilidade do meu sono, ninguém viria a meio da noite para me levar, porque bastava eu chamar:

- Mãe!

E logo uma voz, tão calma, mandava embora os fantasmas. E era a paz, nesse tempo, em que todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, o dia 12 de Maio, às dez e um quarto da manhã, a minha mãe abria a porta do meu quarto e colocava, religiosamente, um ramo de rosas vermelhas sobre a minha vida, nesse tempo, em que dormir, acordar, nascer, crescer, viver, morrer, eram um rito no rito das estações. (ler mais)

Post piroso mas verdadeiro

por Inês em sexta-feira, 3 de abril de 2009

Use your skills - the forest would be very quiet if only the best bird sang.


(fotografia de Afonso Bianchi)

O 'puto Zé Manel'

por Inês em quinta-feira, 19 de março de 2009

Saiu de casa com 11 anos. 'Juntou-se' com 15. Teve 'tudo e agora não tem nada'. A ex-mulher morreu em Agosto. Estavam separados há 23. Ainda gosta dela. Nunca mais se vai apaixonar. 'Com isto, até ganhei pavor às mulheres'.
Fala com segurança, numa voz quente e forte, com uma desenvoltura que até desarma. É moreno, olhos expressivos. Usa uma t-shirt branca e corrente de ouro com uma cruz. Não admira: é 'católico, de uma família católica, de padres e de freiras'. Quando era miúdo, tinha o ritual de lhes pedir a benção e beijar o crucifixo. Se o primo que era cónego fosse vivo, ele não estaria assim, garante. 'Há padres que sabem encaminhar as pessoas..'.
Nasceu vadio, mas orgulha-se de 'nunca ter sido cadastrado'. Correu todas as casas de correcção e fugia sempre. Um dia escondeu-se num contentor em Campanhã e foi parar a Sta Apolónia. Ficou por lá. É do Porto, mas desses tempos passados no sul ficou-lhe a pronúncia. Lá chamam-lhe puto Zé Manel; aqui é conhecido por Lisboa.
Voltou para casa da mãe já as sobrinhas eram grandes. Tentou ser tio, se até viviam na mesma casa, mas um dia 'a Martinha' deu-lhe uma resposta torta e ele fez as malas e foi embora. Agora, ela é a sobrinha que mais o apoia. 'Não é, Raquel? É muito querida, a Martinha', diz com um sorriso.
Não é que seja desprezado pela família: só não se sente bem com ela. 'Sou um fugitivo', conclui.
Ponho-lhe a mão no ombro, mas só me apetece abraça-lo. 'Sr. Zé, um dia posso escrever a história da sua vida?', pergunto quase baixinho. Ri-se e não me responde. É natural - geralmente fala calado.

Não consigo escolher (ou Não me apetece escolher..)

por Inês em quinta-feira, 12 de março de 2009

O tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.


Fico admirado quando alguém, por acaso e quase sempre sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor. eu sei exactamente o que é o amor. O amor é saber que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer. o amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte de nós que não é nossa. o amor é sermos fracos. o amor é ter medo e querer morrer.


Fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido

com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro
do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de
medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto
dentro de mim: será que vou morrer?, olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.

José Luís Peixoto

First thing in the week

por Inês em quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Está um barulho insuportável no bar, como se fosse hora de almoço. Os caloiros de farmácia multiplicam-se, eu só vejo manchas roxas e um bocadinho de nada dos tons castanhos das mesas. A hora de almoço há muito que já se foi, olho lá para fora e percebo que é noite cerrada. Na cozinha a azáfama é a do costume, mas a mim parece-me - daqui - que o barulho não passa do balcão para lá. Só vejo - vê-se tão bem...- silêncio. Eu não sabia nada sobre ela, nem mesmo o nome. Mas também não precisava: vinha ao bar, ela atendia-me e eu conhecia-a do que ela era nessas alturas. Nunca parei para pensar nela um minuto que fosse: era certo que sempre que me pendurava no balcão e fazia aquela voz de mimo tão típica do Aquecido, por favooor ia ser brindada com sorriso (e não com um ar maldisposto, como acontece em tantos bares de outras escolas ou faculdades) acompanhado da piada de sempre: Oh minina, o que é que é aquecido? A torrada? E eu ria-me sempre da mesma maneira e quem estava à volta ria-se também e os brasileiros são assim, põem-nos bem dispostos. Agora vejo silêncio porque quem lá está sabe que não vai ouvir mais durante todo o dia o samba que vem daquela maneira de falar que nós não conseguimos imitar.
E afinal, lembro-me agora, parei uma vez para pensar nela, lembro-me bem, afinal pensei. Foi na sexta-feira à tarde, quando saí do bar com o leite achocolatado na mão (Fresco, minina?). Pensei que era uma bênção poder ouvir alegria no trabalho quando se vai pedir um café.
E terça-feira - first thing in the morning - soube que havia, como sempre, torradas e cafés e leite com chocolate, mas que não ia haver nunca mais o sorriso contagiante da senhora de quem eu nem sabia o nome. E fiquei a pensar nisso entre Mis Sis Sóis Rés Lás e Mis o resto da manhã.
Somos tão pequeninos.


Felizmente, a propósito de nada

por Inês em quinta-feira, 27 de novembro de 2008


É uma coisa terrível a morte de um pai. Nem que seja de um ponto de vista extremamente egoísta: um pai é o que está entre nós e a morte.

Lobo Antunes

Life's soundtrack

por Inês em quinta-feira, 13 de novembro de 2008


Já é outra vez quinta-feira e eu sem nada para dizer. Sem tempo para inventar, com demasiado na cabeça para escolher. Deixo-vos então aquele que é o meu pano de fundo nas mais variadas horas - desde as de estudo às de pura comunhão com a natureza ou com a cidade.
Esta semana serve de banda sonora ao meu trabalho de DF. Em momentos de falta de concentração vale-me sempre - se tocada baixinho junto ao ouvido faz desaparecer o mundo à nossa volta. Nem sei bem por onde começar...Por isso vou para o início. Senhoras e senhores: Keith Jarrett, The Koln Concert - Part I.


Cheiro a café nas mãos

por Inês em quinta-feira, 6 de novembro de 2008



Acordar cedo e ao saltar da cama ter que vestir um roupão. Olhar para os vidros embaciados. Escolher um casaco e um cachecol. Sair para a rua. Frio na cara, cabelo ao vento. Ver passar o autocarro ao dobrar da esquina. Classic. Um café cheio, por favor. Sms matinais. O autocarro e agora entro. Cheiro a pessoas. Jornais gratuitos. O percurso de todos os dias. Um rapaz giro de fato e gravata VS o AcTc que não acabei de ler na noite anterior. A rua estreita e barulhenta que me leva ao meu destino. FDUP. Bons dias na subida da escadaria. Tantos lugares à escolha. Aula daquelas (mais uma). O ultimamente constante se-calhar-afinal-em-certa-medida até gosto de Direito. Intervalo. Conversas e mais bons dias. Um corredor cheio de caras conhecidas. Sorrisos. Um anfiteatro a abarrotar. Critérios e restrições. Raciocínios às vezes quase matemáticos. Definitivamente, gosto de Direito. Sorriso de já não era sem tempo! Almoço de sempre. Conversas de sempre que sabem bem como sempre. O bar a uma hora diferente da de sempre - o bar à hora de sempre da minha 5a feira ou o bar à hora de quase nunca da minha semana. Biblioteca. Livros, anotações, separatas, mexericos em tom quase inaudível. Aula. O raio do intervalo que nunca nos dão, o raio do café de que tanto precisava, o raio das baleias e das moratórias. Como é que ainda assim gosto de Direito? As reservas e o costume. Não sei, mas gosto. 2h15 seguidas. Lanche no bar - semi cheio ou semi vazio? O tão desejado café fica adiado. Afinal já não é preciso. O melhor mito urbano de sempre contado à mesa do lanche. Acredito, não acredito, até podia ser verdade, mas. Conversas parvas rua acima. Ver o autocarro ao longe, mas a vir para cá. Até amanhã em vozes diferentes - vocativos trocados, a mesma boa disposição. 5 da tarde e já é quase noite. O sítio do costume. Ficar a mexer o café tempos infinitos. Fazer durar o tempo. Passar os dedos pela chávena ainda quente enquanto leio. Ainda artigos, ainda restrições, outros autores, novas questões, a cabeça a mil. E cada vez gosto mais. Olhares. Mensagens. Descobertas surpreendentes. E supreendentemente gosto. O cheiro a café nas mãos. As chaves de casa na porta. O cheiro a fumo na roupa. Agora apetecia-me mesmo acender a lareira e ficar tempos infinitos a fixar as labaredas até ter as bochechas vermelhas. E estar de pijama, sim. Deitada no sofá. A ler um livro. Adormecer ali mesmo. E amanhã não ter absolutamente nada para fazer.
Acordar à pressa e fazer tudo outra vez, ainda com cheiro a café nas mãos.

La Noyee

por Inês em quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Addiction.

Há dias

por Inês em quinta-feira, 23 de outubro de 2008



Há dias que nos devolvem o sentido.



A questão é que nem sempre deixamos que eles aconteçam - nem sempre temos tempo para eles na nossa vida. E o mais engraçado é que passamos dias à espera que esses dias apareçam para nos surpreender - numa manhã de sol? - sem nunca nos apercebermos que raramente lhes damos espaço de actuação. Os protagonistas das nossas agendas complicadas são, regra geral, as responsabilidades. Mas o vício de querer estar sempre onde há alguma coisa a acontecer, ainda que, na nossa cabeça, nos apareça num papel secundário, é tanto ou mais escravizador do que o ter que estar ou o ter que fazer.
Às vezes é preciso respirar fundo, fechar os olhos para não cair na tentação de hesitar e repensar tudo outra vez e passar um risco bem grande na nossa agenda - naqueles dias que ainda não têm, mas podiam vir a ter toda uma
ordem de trabalhos. E vivê-los sem qualquer plano delineado, à mercê de tudo o que de bom e de mau deles possamos vir a retirar.


(Luísa, desculpa os itálicos, eu sei que os detestas, mas é um vício que, como vício que é, insiste em escravizar-me.)

They're Back

por Inês em quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Felizmente que os restantes tribunos andam em maré de inspiração - quase só se têm visto textos por aí. Deste lado, escasseiam essencialmente as ideias, embora deva confessar que o tempo também não abunda.

Assim, aproveito esta fase para poupar as palavras minhas, que substituo pelas de alguém que dispensa apresentações - especialmente depois daquela que nos foi proporcionada ontem no anfiteatro 1.01. Deixo, então, aqui excertos de Love and Death (1975), de Woody Allen, passado ontem pelo nosso Cineclube - onde, há que dizê-lo, o Tribuna esteve bem representado.

Soube bem este recomeço e soube ainda melhor ver a sala composta - dos sorrisos de sempre, dos de de vez em quando e daqueles que se calhar só vemos uma vez ou que se calhar se vão repetir por muitas mais. Um obrigada e parabéns.








The question is have I learned anything about life. Only that human being are divided into mind and body. The mind embraces all the nobler aspirations, like poetry and philosophy, but the body has all the fun. The important thing, I think, is not to be bitter... if it turns out that there IS a God, I don't think that He's evil. I think that the worst you can say about Him is that basically He's an underachiever. After all, there are worse things in life than death. If you've ever spent an evening with an insurance salesman, you know what I'm talking about. The key is, to not think of death as an end, but as more of a very effective way to cut down on your expenses. Regarding love, heh, what can you say? It's not the quantity of your sexual relations that counts. It's the quality. On the other hand if the quantity drops below once every eight months, I would definitely look into. Well, that's about it for me folks. Goodbye.


Fall

por Inês em quinta-feira, 2 de outubro de 2008




A vida é feita de nadas.


De grandes serras paradas, de searas onduladas, de poeira, da sombra de uma figueira e por aí fora...