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Desde que nos deixaste o tempo nunca mais se transformou
Não rodou mais para a festa não irrompeu
Em labareda ou nuvem no coração de ninguém.
A mudança fez-se vazio repetido
E o a vir a mesma afirmação da falta.
Depois o tempo nunca mais se abeirou da promessa
Nem se cumpriu
E a espera é não acontecer — fosse abertura —
E a saudade é tudo ser igual.
Daniel Faria, in Explicação das Árvores e de Outros Animais
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Agora a Parte II.
Keith Jarrett, Koln Concert
O que um verso demora!
A esta mesma hora,
Quantos poetas, como eu, à espera!...
Passou o inverno, veio a primavera,
Deitou-se a noite, ergueu-se a madrugada
E a voz
De todos nós
Cativa na garganta estrangulada.
Nenhum sinal no céu de próximo milagre;
Os adivinhos mal nos adivinham;
E os restantes humanos,
Há infinitos anos
Que apenas tecem
A teia da rotina,
Como o instinto os ensina.
E resta-nos a força
Que empurra os cegos contra a claridade.
Ter confiança é deslaçar metade
Do nó do tempo que o destino aperta.
Suprema descoberta
Doutros que no passado não desesperaram,
E foram premiados e cantaram.
Mas pesa como um luto
Este silêncio hostil.
E fere como a raiva dum cilício
A certeza da morte
Colada ao corpo.
Que desgraça
Desconhecida,
Se a mudez ultrapassa
A nossa vida!
in Antologia Poética (4a Edição Aumentada), Diário XIII
Nasci em Maio, o mês das rosas, diz-se. Talvez por isso eu fiz da rosa a minha flor, um símbolo, uma espécie de bandeira para mim mesmo.
E todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, no dia 12 de Maio, às dez e um quarto da manhã (que foi a hora em que eu nasci), a minha mãe abria a porta do meu quarto, acordava-me com um beijo e colocava numa jarra um ramo de rosas vermelhas, sem palavras. Só as suas mãos, compondo as rosas, oficiavam nesse estranho silêncio cheio de ritos e ternura.
Nesse tempo o Sol nascia exactamente no meu quarto. Eu abria a janela. Em frente era o largo, a velha árvore do largo dos ciganos. Quando chegava o mês de Maio, eu abria a janela e ficava bêbado desse cheiro a fogueiras, carroças e ciganos. E respirava o ar de todas as viagens, da minha janela, capital do mundo, debruçado sobre o largo onde começavam todos os caminhos.
E tudo estava certo, nesse tempo, ou, pelo menos, nada tinha o sabor do irremediável. (...)
E eu dormia poisado sobre a eternidade, como se tudo estivesse certo para sempre, eu dormia com muitos olhos, muitos gestos vigilantes sobre o meu sono. Por vezes tinha pesadelos, acordava, inquieto, a meio da noite, qualquer coisa parecia querer despedaçar-se e então exclamava:
- Mãe!
E logo essa voz, tão calma, entrava dentro de mim, mandava embora os fantasmas, e era de novo o meu quarto, a doce quentura da minha casa no cimo da ternura.
Não havia polícia nesse tempo. Ninguém roubaria a tranquilidade do meu sono, ninguém viria a meio da noite para me levar, porque bastava eu chamar:
- Mãe!
E logo uma voz, tão calma, mandava embora os fantasmas. E era a paz, nesse tempo, em que todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, o dia 12 de Maio, às dez e um quarto da manhã, a minha mãe abria a porta do meu quarto e colocava, religiosamente, um ramo de rosas vermelhas sobre a minha vida, nesse tempo, em que dormir, acordar, nascer, crescer, viver, morrer, eram um rito no rito das estações. (ler mais)
Use your skills - the forest would be very quiet if only the best bird sang.
(fotografia de Afonso Bianchi)
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Fala com segurança, numa voz quente e forte, com uma desenvoltura que até desarma. É moreno, olhos expressivos. Usa uma t-shirt branca e corrente de ouro com uma cruz. Não admira: é 'católico, de uma família católica, de padres e de freiras'. Quando era miúdo, tinha o ritual de lhes pedir a benção e beijar o crucifixo. Se o primo que era cónego fosse vivo, ele não estaria assim, garante. 'Há padres que sabem encaminhar as pessoas..'.
Nasceu vadio, mas orgulha-se de 'nunca ter sido cadastrado'. Correu todas as casas de correcção e fugia sempre. Um dia escondeu-se num contentor em Campanhã e foi parar a Sta Apolónia. Ficou por lá. É do Porto, mas desses tempos passados no sul ficou-lhe a pronúncia. Lá chamam-lhe puto Zé Manel; aqui é conhecido por Lisboa.
Voltou para casa da mãe já as sobrinhas eram grandes. Tentou ser tio, se até viviam na mesma casa, mas um dia 'a Martinha' deu-lhe uma resposta torta e ele fez as malas e foi embora. Agora, ela é a sobrinha que mais o apoia. 'Não é, Raquel? É muito querida, a Martinha', diz com um sorriso.
Não é que seja desprezado pela família: só não se sente bem com ela. 'Sou um fugitivo', conclui.
Ponho-lhe a mão no ombro, mas só me apetece abraça-lo. 'Sr. Zé, um dia posso escrever a história da sua vida?', pergunto quase baixinho. Ri-se e não me responde. É natural - geralmente fala calado.
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como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.
Fico admirado quando alguém, por acaso e quase sempre sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor. eu sei exactamente o que é o amor. O amor é saber que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer. o amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte de nós que não é nossa. o amor é sermos fracos. o amor é ter medo e querer morrer.
Fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro
do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de
medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto
dentro de mim: será que vou morrer?, olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.
José Luís Peixoto
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E afinal, lembro-me agora, parei uma vez para pensar nela, lembro-me bem, afinal pensei. Foi na sexta-feira à tarde, quando saí do bar com o leite achocolatado na mão (Fresco, minina?). Pensei que era uma bênção poder ouvir alegria no trabalho quando se vai pedir um café.
E terça-feira - first thing in the morning - soube que havia, como sempre, torradas e cafés e leite com chocolate, mas que não ia haver nunca mais o sorriso contagiante da senhora de quem eu nem sabia o nome. E fiquei a pensar nisso entre Mis Sis Sóis Rés Lás e Mis o resto da manhã.
Somos tão pequeninos.
É uma coisa terrível a morte de um pai. Nem que seja de um ponto de vista extremamente egoísta: um pai é o que está entre nós e a morte.
Esta semana serve de banda sonora ao meu trabalho de DF. Em momentos de falta de concentração vale-me sempre - se tocada baixinho junto ao ouvido faz desaparecer o mundo à nossa volta. Nem sei bem por onde começar...Por isso vou para o início. Senhoras e senhores: Keith Jarrett, The Koln Concert - Part I.
Acordar à pressa e fazer tudo outra vez, ainda com cheiro a café nas mãos.
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A questão é que nem sempre deixamos que eles aconteçam - nem sempre temos tempo para eles na nossa vida. E o mais engraçado é que passamos dias à espera que esses dias apareçam para nos surpreender - numa manhã de sol? - sem nunca nos apercebermos que raramente lhes damos espaço de actuação. Os protagonistas das nossas agendas complicadas são, regra geral, as responsabilidades. Mas o vício de querer estar sempre onde há alguma coisa a acontecer, ainda que, na nossa cabeça, nos apareça num papel secundário, é tanto ou mais escravizador do que o ter que estar ou o ter que fazer.
Às vezes é preciso respirar fundo, fechar os olhos para não cair na tentação de hesitar e repensar tudo outra vez e passar um risco bem grande na nossa agenda - naqueles dias que ainda não têm, mas podiam vir a ter toda uma ordem de trabalhos. E vivê-los sem qualquer plano delineado, à mercê de tudo o que de bom e de mau deles possamos vir a retirar.
(Luísa, desculpa os itálicos, eu sei que os detestas, mas é um vício que, como vício que é, insiste em escravizar-me.)
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Assim, aproveito esta fase para poupar as palavras minhas, que substituo pelas de alguém que dispensa apresentações - especialmente depois daquela que nos foi proporcionada ontem no anfiteatro 1.01. Deixo, então, aqui excertos de Love and Death (1975), de Woody Allen, passado ontem pelo nosso Cineclube - onde, há que dizê-lo, o Tribuna esteve bem representado.
Soube bem este recomeço e soube ainda melhor ver a sala composta - dos sorrisos de sempre, dos de de vez em quando e daqueles que se calhar só vemos uma vez ou que se calhar se vão repetir por muitas mais. Um obrigada e parabéns.
The question is have I learned anything about life. Only that human being are divided into mind and body. The mind embraces all the nobler aspirations, like poetry and philosophy, but the body has all the fun. The important thing, I think, is not to be bitter... if it turns out that there IS a God, I don't think that He's evil. I think that the worst you can say about Him is that basically He's an underachiever. After all, there are worse things in life than death. If you've ever spent an evening with an insurance salesman, you know what I'm talking about. The key is, to not think of death as an end, but as more of a very effective way to cut down on your expenses. Regarding love, heh, what can you say? It's not the quantity of your sexual relations that counts. It's the quality. On the other hand if the quantity drops below once every eight months, I would definitely look into. Well, that's about it for me folks. Goodbye.
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A vida é feita de nadas.
De grandes serras paradas, de searas onduladas, de poeira, da sombra de uma figueira e por aí fora...
