Poema da morte de amor ao som de Cannonball Adderley

por Rita Morais de Carvalho em terça-feira, 8 de março de 2011

Blues da morte de amor

já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida.
mas afinal não morri, como se vê, ah, não,
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.

a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah, não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing, minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.

há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes, uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete: - morrer ou não morrer, darling, ah, sim.

Vasco Graça Moura, in Poezz - Jazz na Poesia em Língua Portuguesa.






Álbum: Know what I mean?, 1961
Música: Waltz for Debby
Cannonball Adderley: alto sax
Bill Evans: piano
Pearcy Heath: bass
Connie Kay: drums

2 comentários

sooo nice!

by Francisco on 8 de março de 2011 às 22:13. #

...eu que não gosto do sujeito confesso que gostei deste blues...e ao som do Cannonball it's better!!!!
...já experimentaram com o Coltrane?

by pinto afonso on 29 de março de 2011 às 21:57. #