sobre o problema político

por henrique guerra maio em quarta-feira, 21 de abril de 2010

"... surge aqui um problema específico (...) É o problema político. Problema que não obriga a abandonar (...) o modelo de realização meio/fim - simplesmente se no problema económico a acentuação se fazia nos meios, agora a acentuação faz-se nos fins. E que, justamente por isso, e dada a diferença, a mutação e a incompatibilidade com que os fins são pretendidos, só é susceptível de uma solução em que se implica uma certa estrutura e se oferece com certa índole. Em primeiro lugar, exige uma opção quanto a esses pretendidos e diversos fins e, portanto, a substituição da pluralidade dispersa dos sujeitos por uma instância que dessa opção decida - instância que, em tal substituição e no poder (poder decisório) que reivindica, suscita, desde logo, a questão sempre retomada da sua legitimidade. Em segundo lugar, essa mesmo opção - que o é perante um campo de pode-ser intencionalmente transfinito, que conhece a diferença e a incompatibilidade e se revela temporalmente aberto -, se postula uma estratégia (uma teleológica selectividade), não pode também prescindir de uma partidarização (a pluralidade dos sujeitos divide-se, perante a estratégica opção sobre os fins, entre os concordantes que a apoiam e os discordantes que se lhe opõem) e haverá de actuar segundo uma intenção de eficácia (os fins optados convocam as acções capazes de os realizarem). Em terceiro lugar, e porque em tudo isto o que em último termo está em causa são os fins (fins a intencionar e a seleccionar), a opção que eles exigem não poderá deixar de culminar numa decisão. Quer isto dizer que o mundo do político é o mundo da decisão, e sendo-o (...) é ele um mundo que se polariza no irracional: remete à voluntas e à sua correlativa irracionalidade (tem na voluntas como causa sui a sua ultima ratio). Não decerto que no quadro estratégico e na conduta eficaz os processos não sejam racionais, e de uma racionalidade que acaba por ser institucionalização, só que no fundamental a que tudo remete e de que tudo depende o que irredutivelmente se oferece é a decisão, com a sua específica irracionalidade. O sistema político tem uma racionalidade imanente que se estabiliza numa institucionalização, mas é uma irracionalidade no momento instituinte e na força dinamizadora. (...)
Castanheira Neves "A imagem do Homem no universo prático"