Como areia fugindo entre as mãos

por Angelina em segunda-feira, 12 de abril de 2010

Canção do tempo que passa

Não tenho muito tempo para o mar
para nadar no mar para pescar
para nadar e amar não tenho tempo
para outras coisas em ar: o frio aperta
os ossos doem o coração palpita.
Vou pela praia contra o vento mas
sei que tudo agora é sempre assim
contra a corrente o tempo o próprio pensamento
na areia mole os pés vão-se enterrando
já não batem crawl como batiam
já não logram correr como corriam
e no entanto o tempo agora é de corrida
contra o tempo se corre contra o tempo
contra o tempo se corre e assim se morre
em frente ao mar olhando a desmedida
distância entre a tão curta vida e o amor dela
sobretudo ao crepúsculo quando o mar
nos interpela e nos apela a caravela
do coração se põe de novo a navegar
mesmo sabendo que já não há partida
e que as rimas em ar estão a acabar
e todo o tempo agora é contra o tempo
e mesmo sem correr so há corrida.

Livro do Português errante - Manuel Alegre

E se as prioridades que todos os dias,meses,anos nos obrigam a estabelecer estiverem trocadas? Se num dia algo nos parecer essencial e depois já não assim tanto? se sentirmos que já não adianta reprogramar tudo e organizar as gavetinhas cerebrais doutro modo?Gosto de pensar que quando acontece não é arrependimento mas sim amadurecimento...Digo a mim mesma como Scarlett O'hara "penso nisso amanhã, afinal de contas amanhã é um novo dia " e que mesmo sem correr só há corrida ... viro-me para o outro lado e finalmente fecho os olhos.