#38 às terças

por TR em terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Continuando com o direito na literatura:

“- Sente-se. Agora vai ouvir o senhor escrivão a ler a acusação. (…)
O jovem advogado de defesa, advogado oficioso, dissera-lhe que podia estar certo da absolvição, porque matara a mulher, cujo adultério tinha sido provado.
Na feliz inconsciência dos animais, não sentia sequer a sombra do remorso. E ter de responder por aquilo que tinha feito, isto é, por uma coisa que não dizia respeito a mais ninguém senão a ele, era o que não compreendia. Aceitava a acção da justiça como uma fatalidade inevitável.
Havia na vida a justiça, como no campo os maus anos.
E a justiça, com todo aquele aparato solene de cadeirões majestosos, de barretes, de togas e de penachos, era para Tarará a mesma coisa que o grande moinho novo a vapor, inaugurado com grandes festejos no ano anterior. Visitando-o com muitos outros curiosos, ao ver aquela engrenagem de rodas, aquele maquinaria endemoninhada de êmbolos e de roldanas, Tarará sentira surgir dentro dele, e crescer pouco a pouco, juntamente com o pasmo, a desconfiança. Cada qual iria levar o seu trigo àquele moinho; mas quem garantia aos clientes que a farinha era mesmo a do trigo entregue? Era necessário que cada qual fechasse os olhos e aceitasse com resignação a farinha que lhe dessem.
Assim agora, com a mesma desconfiança, mas com a mesma resignação, Tarará entregava o seu caso à engrenagem da justiça.
Pelo seu lado, sabia que rachara a cabeça à mulher com uma machadada, porque, ao voltar a casa num sábado à noite, encharcado e sujo, de uma propriedade um pouco abaixo da aldeia de Montaperto onde trabalhava toda a semana como um criado de lavoura, fora dar com um grande escândalo na Travessa do Arco de Spoto, onde morava, em San Gerlando.
Poucas horas antes, a sua mulher fora apanhada em flagrante adultério com o cavaleiro Dom Agatino Fioríca.
A senhora dona Graziella Fioríca, mulher do cavaleiro, com os dedos cheios de anéis, as faces tingidas de vermelhão e toda enfeitada, como uma daquelas mulas que levam ao som do tambor um carregamento de trigo à igreja, tinha guiado, ela própria, pessoalmente, o delegado da segurança pública, Spanó, e dois polícias, à Travessa do Arco de Spoto, para a comprovação do adultério.
A vizinhança não pudera esconder a Tarará a sua desgraça, porque a mulher ficara retida na prisão, com o cavaleiro, toda a noite. Na manhã seguinte Tarará, mal a vira reaparecer muito calada diante da porta da rua, antes que as vizinhas tivessem tido tempo de acorrer, saltara-lhe em cima de machado em punho e abrira-lhe a cabeça.
Vá a gente saber o que estava agora a ler o escrivão…”

Do conto “A verdade”, de Luigi Pirandello