Coisas perturbadoras

por D. em domingo, 29 de novembro de 2009

Ontem passou na Sic notícias, no programa Toda a Verdade, mais um documentário assinado pela BBC, o que por si atesta a qualidade do mesmo. Desta vez a reportagem foi feita em Fresno, na Califórnia, também conhecida e simpaticamente apelidada pelos seus moradores como a Capital Mundial das metanfetaminas.

Para quem não sabe, as metanfetaminas são derivados das anfetaminas (estimulantes do sistema nervoso que provocam aumentos consideráveis de energia por quem as consome), e são facilmente manipuláveis em laboratórios caseiros. Normalmente são conhecidas por Ice ou Speed e podem ser ingeridas de várias formas, actuando rapidamente.

Ora, já tinha visto no mesmo canal uma reportagem sobre as metanfetaminas e a forma como o seu consumo é generalizado nos países orientais, pois têm a capacidade de deixar as pessoas frenéticas durante dias a fio sem dormir, o que em países como a Malásia e Tailândia é usado em trabalhadores de modo a produzirem sem parar durante uma semana, sendo depois despedidos porque os cérebros ficam irremediavelmente danificados. Aliás, o fenómeno está a atingir proporções tão incríveis que existem vários ataques nas ruas provocados por pessoas que ficaram em permanente estado de paranóia depois de passarem duas semanas seguidas a trabalhar sob o efeito de metanfetaminas. Em pesquisa na internet descobri que elas são muito populares na Ásia, pois durante a Segunda Guerra Mundial foram aperfeiçoadas no Japão de modo a terem os soldados sempre alerta sem sentirem a fadiga.

Contudo, a reportagem sobre Fresno era bastante mais chocante do que a reportagem sobre a Ásia, pois na cidade californiana descobrimos que toda a população ou pelo menos uma grande fatia da população, as consume diariamente como se fosse a coisa mais normal de se fazer entre amigos e entre família. E o pior é que o fazem considerando que existem coisas bem piores e que até se poderiam curar, mas não o desejam. Aliás, o facto de as metanfetaminas não criarem dependência física, mas apenas psicológica justifica talvez o facto de muitos deles terem um ar perfeitamente normal, embora na realidade fossem viciados.

E o jornalista da BBC vai tendo contacto com histórias fantásticas, além de descobrir que quase todos tinham mesmo muitos filhos, quase todos colocados em programas de adopção ou em lares de acolhimento, devido ao vício dos pais. Aliás, quando questiona um homem sobre o facto de ele ter preferido as drogas aos filhos, eles responde simplesmente que tal não é verdade, que gosta mesmo muito dos filhos e que gostava de estar com eles, mas que adorava também drogar-se e sabe que isso seria mau para eles. Sendo este o mesmo homem que viciado juntamente com a mulher, tomou a decisão de que seria útil prostitui-la para poderem pagar o consumo de 700 dólares por semana em metanfetaminas. É uma bela história de amor esta.

Pelo meio conhecemos ainda um outro viciado que se considerava um empresário, pois a única coisa que fazia era receber material roubado e depois vendê-lo pelo preço que achava justo; e um casal de irmãos que consumia e a seguir sentia a necessidade de fazer sexo de modo a poderem estar os dois mais juntos.

O mais impressionante de tudo é que as crianças que não eram retiradas aos pais conviviam normalmente com o consumo descontrolado de drogas pelos pais e vizinhos.

No fim, descobrimos contudo algo fascinante: ter de limpar a casa é uma coisa muito ruim. Isto porque uma das senhoras entrevistadas voltou a consumir metanfetaminas, quando percebeu que tinha de limpar a casa toda e decidiu que seria muito mais rápido fazê-lo com ajuda química. Contudo, depois a senhora revela que passou seis horas a limpar a mesma coisa, tendo demorado mais tempo do que pensou que ia demorar sóbria. Como ela bem constatou “Algumas pessoas tomam café, eu tomo metanfetaminas”.

Curiosa com a cidade, resolvi ir pesquisar algumas coisas sobre ela na net. E no site oficial, embora haja uma secção dedicada a turistas e várias outras coisas sobre a cidade, oficialmente ela ainda não resolveu adoptar o apelido de Capital Mundial das Metanfetaminas, vá-se lá saber porquê.