# 36 às terças

por TR em terça-feira, 17 de novembro de 2009

Quando a vida embeleza a literatura, lembrando que nem tudo é alea (ou que se calhar até o é). Pilar del Río, na Pública de domingo.

“Quando é que percebeu a sua vida tinha mudado por causa do encontro com José?
Quando nos encontrámos. No dia seguinte telefonou-me para pedir a minha morada. Na época tinha um meio namorado, e quando cheguei a Espanha disse-lhe que já não o queria ver mais. Fiquei livre, sem relações, sem amante. Sabia que algo ia acontecer. E aconteceu: uns meses depois, José chegou, sem que tivesse havido uma carta, uma comunicação, nada. Apareceu em Sevilha. Eu sabia que ia aparecer, mais tarde ou mais cedo.

Como é que sabia?
Sabia. E de Junho a Novembro, que foi quando chegou o José, não houve mais ninguém na minha vida. Ninguém se podia aproximar. Eu estava à espera dele.

Por que é que a impressionou tanto?
Não me impressionou. Éramos tão parecidos, partilhávamos tanta coisa que era impossível que não as compartilhássemos. Não o conhecia pelas duas horas que passei com ele, conhecia-o pelo que escrevia.

O que é que conhecia? Nesses meses, continuou a procurá-lo a partir do que ele escrevia?
Não podia. Em espanhol estavam apenas traduzidos dois livros, o Memorial do Convento e o Ano da Morte de Ricardo Reis. Quando nos conhecemos, ele estava a escrever A Jangada de Pedra. Está lá descrito o nosso encontro: de outra maneira, noutro sítio, mas há uma mulher, e de repente ele sabe que é aquela a mulher, que tem de ser. Ele sabe que algo se passou, e ela sabe, não se verbaliza, mas ambos preparam as suas vidas.”

Um comentário

esta é daquelas coisas que só se espera ver em filmes... ou em livros :)

by Daniela Ramalho on 17 de novembro de 2009 às 19:10. #