# 32 às terças

por TR em terça-feira, 6 de outubro de 2009

Torga escreveu que quando lia num poema seu "madre", traduzindo "mãe", não conseguia rever a mesma palavra.
Mãe.
A palavra aprendida num contexto de três letras, com um m de mansidão a abrir uma sílaba que tudo revela. "Madre", "madre" é muito diferente.
Por mais formas que venha a encontrar, será na minha língua mãe (e não "madre") que encontrarei o significado último de tudo o que penso, nem que em traduções inconscientes. Por mais que aprenda, pensarei em português.
Mas não sei se bastará, se uma pátria é apenas isto.

2 comentários

Concordo e sinto.o da mesma maneira, que vou sempre precisar de uma concretizaçao na minha lingua Mae dos meus pensamentos, e do que aprendo mesmo em varias áreas e linguas. No entanto, ha um fenomeno, nao encontro palavra melhor neste momento, que em mim me leva por vezes a preferir usar certas expressoes noutras linguas, acho que so nelas se preserva a magia, o mistério, o glamour, o chic do seu meaning :p Dantes quando ouvia alguém dizer uma qualquer palavrinha em ingles e depois estalava os dedos e dizia 'ai como e que se diz em portugues?', achava que era presunçao, vontade de se empavonear, exacerbar,vomitar cultura e incomodava.me, para nao dizer irritava-me! Mas hoje compreendo que cada língua tem o seu je ne sais quoi que a torna unica , mas que pode ser aprendido e apreendido nao apenas pelos seus nativos ( considerando a lingua como a nossa patria ultima) . E por isso penso que não bastará, por isso uma pátria não será apenas isto, mas muito disto é-o certamente :)

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by Ana Cristina Sousa on 6 de outubro de 2009 às 23:02. #

Julgo que conseguiste expressar bem o que querias :P Eu há uns meses concordaria contigo, agora não. Por uma razão: no renascimento, com o ressurgir em força dos estudos de cultura clássica, um regresso à origem, era chic falar latim em grego. Falar fluentemente nas duas línguas. Erasmo, no Elogio da Loucura, parodiou este cenário: "Assim, imitaríamos os retóricos do nosso tempo, que se julgam pequenos deuses, por utilizarem duas línguas, como as sansessugas, e se maravilham com a habilidade de misturar no seu latim algumas palavras gregas, do que resulta um mosaico nem sempre muito a propósito".
Mais tarde, com o primado do francês, era chic usar estas expressões. Por exemplo, no séc XIX, na corte russa, saltitava-se fluentemente do francês para o russo.
Quer num quer noutro caso usavam-se as línguas da moda: latim e grego ou francês. A língua da moda, hoje, é o inglês, que não é particularmente bonito nem particularmente rico.
É por isso que, hoje, não concordo contigo. Prefiro falar só e só e só em português, nos limites do que a língua permite. Só para não me sentir acorrentado a esta moda - por natureza, muito circunstancial - do nosso tempo:P

by Tiago Ramalho on 7 de outubro de 2009 às 09:27. #