Tu

por Ricardo Mesquita em sexta-feira, 25 de setembro de 2009

A graça do teu olhar. Os teus olhos embainhados de uma luz intensa e funda. A tua pele com a volúpia a escorregar-lhe no traço fino e firme das tuas formas. As tuas mãos compridas e os teus dedos longos numa promessa de serenidade. A forma como te rias para mim naquela noite. A mesa comprida e o magnetismo do teu sorriso a prender-me demoradamente a atenção. Os teus ombros numa simetria absoluta e a noite como a moldura perfeita para o teu rosto.
As tuas mãos tocando-me ligeiramente as pernas. Os passos dos teus dedos e o arrepio aceso do desejo. Com os olhos despi-te o mundo e o espaço. Meti no bolso o tempo. E desenhei com a intensidade do olhar a vontade na areia fina da tua pele.
Boiava no ondular sereno do teu corpo e escutava o sono da noite embalado pela doçura dos teus gestos. Seguraste-me a mão debaixo da mesa. Os teus dedos assim presos na carne dos meus. Sempre gostaste das minhas mãos.
As velas soprando luz no carmim suave dos teus lábios. A música suave como um hino à tua beleza despretensiosa. Uma gargalhada acendia-te o rosto e o génio.
No meio das vozes que apenas ouvia sem lhes reparar nos rostos, procuravas o meu olhar. O amor assim trocado era o mais cómodo dos lugares. E lembrava-me das noites em que te amei. A mesma luz vinda do teu sorriso e a música suave da entrega. Os nossos dedos enlaçando-nos os corpos ao que as almas se haviam prometido. Ficavas depois horas com o teu rosto pousado nos meus braços. Os teus olhos fixos nos meus com o silêncio a flutuar no ar suave da respiração cansada. O teu corpo nu com a cidade e as ruas lá em baixo.
Sibilavas palavras quentes e doces no meu ouvido e ficavas lá a derreter-me a pele e a acender a vontade de semear o desejo no serpentear do teu corpo.
Perdia-me com o teu riso infantil e luminoso. Com a forma como o mundo parecia importar pouco no sentido que punhas nas coisas. Como nada parecia importar no estreitar sentido dos teus braços.
E nessa noite, como em todas as outras, tinhas na moldura do teu rosto a talha acesa do meu amor por ti.
Ao passares os teus dedos, de novo, na minha perna a voz escondida sob a pele da noite iluminou o fundo dos meus olhos para ti.
Como as estrelas no céu de uma noite qualquer.