sobre a dor (amor)*

por henrique maio em quarta-feira, 3 de junho de 2009

Árdua tarefa a que te propões: explicar aos outros o que é a Dor. Porventura, a senilidade dominou-te. Pelo contrário, dar-te-ei razão se te propões a explicar aos outros o que é a Tua e só tua Dor. Não tem igual, é única e mais ninguém a poderá sentir. Aí sim, terás todo o meu apoio e tentarei compreender que dor te atormenta o espírio. Entre Dor e não-dor, pouco há mais nesta coisa a que se chama Vida. A dita felicidade facilmente encontra o seu repouso na não-dor, mas não perderá a sua mais essencial característica: é não-dor, apenas a sua ausência. Se este é o nosso estado natural, então o Criador apenas pode ser censurado. Não entendeu o quanto alguém se deixa consumir pela dor. Tal Criador porventura padece da mesma falta.
Haverá algo neste mundo que não tenha em si Dor? Haverá? Logo, há aqueles que se arrogam do direito, chegam-se à frente e insinuam: "Meu caro, o Amor, o simples e belo Amor". Logo falham nos seus intentos, o Amor nem é dor, nem é não-dor. O amor é o palco onde ambos os estados se gladiam. É um espaço livre, onde ambos os estados, se tentam impor. Assim, chegamos e com a máxima sensatez há divisão: há para alguns o Amor que não é dor, onde a suposta Felicidade abunda, onde a solidão não é presença, onde se está preparado para admirar as coisas do mundo; para outros, o Amor é simplesmente o mais profundo reflexo da dor, o corpo morre e suspira, porém podendo admirar-se o mundo e as suas coisas (doutro modo claro está!) E de destes dois possíveis estados se propor uma conversa? O que vive o amor que não é dor e o amor que é a mais pura dor? Como explicariam um ao outro o que é Amor? Logo, voltamos ao início. Nunca tentes explicar o que é o Amor, apenas e só o teu Amor. O que não traz obrigatoriamente a compreensão dos outros, apenas e apenas uma ponte para tal, uma mera possibilidade (porventura destinada ao fracasso).

Porque é tão difícil falar de Amor? E porque se tudo resume à dor e não-dor?
Alguma peça falta e não se trata de mero equilíbrio.

E, assim, termina um ano de tribuna!
Um abraço!

2 comentários

A ideia da dor no amor é muito engraçada.

Nunca tinha pensado nisso. Sempre vi como duas coisas excludentes, ou uma ou outra. E não faz muito sentido...

by Tiago Ramalho on 4 de junho de 2009 às 08:50. #

"Logo falham nos seus intentos, o Amor nem é dor, nem é não-dor. O amor é o palco onde ambos os estados se gladiam. É um espaço livre, onde ambos os estados, se tentam impor."

by Isabel on 4 de junho de 2009 às 22:26. #