A propaganda, os votos e a manipulação das massas*

por D. em sábado, 16 de maio de 2009

Depois de dedicar largo tempo ao estudo da propaganda política, certas questões não poderiam deixar de aparecer na minha cabeça e fazer-me pensar acerca do papel que ela tem efectivamente nos dias de hoje. Em ano de eleições, certamente que os partidos já estruturaram, pensaram, repensaram e voltar a estruturar, quais as formas mais eficazes de chegar ao centro da questão: como ganhar votos.

A política já quase não se faz de convicções, hoje em dia trocam-se os votos por programas eleitorais, por promessas e porque indivíduo x aparece sempre muito bem na televisão, enquanto o indivíduo y tem um ar sempre desleixado. Não seria aliás a primeira vez que ouviria dizer que “entre dois candidatos mais ou menos iguais, eu escolheria o melhor vestido”, o que mostra que a imagem de marca compra pelo menos os votos de quem não tem ideologia ou de quem não tem tempo para perder com programas e ideias e promessas e acaba por votar nas duas alternativas do centro.

Existem depois aqueles que têm voto fixo, quer haja programa ou não, quer existam ideias ou não, quer o indivíduo esteja bem vestido ou não, quer ofereça uma casa nova ou simplesmente uma caneta que até escreve mal. Provavelmente estes são os indivíduos que vão aos comícios comer e beber de borla, arranjar umas t-shirts, umas canetas, uns blocos, uns cromos e autocolantes, um cachecol e um boné e acabam no fundo por não mudar o seu voto.

Depois sobram todos aqueles que descontentes com os actuais, tentam perceber quem pode trazer alternativas viáveis. Provavelmente é nesses, que são uma maioria, que os partidos investem tantos e tantos euros. Ora, aqui, os métodos e instrumentos de propaganda têm bastante a dizer e bastante a comprar e ganhar. Os indecisos são votos que contam o valor de uma adesão apenas no momento das urnas, mas apenas isso basta para arrancar mandatos e ganhar eleições. Dos diversos métodos, já todos temos conhecimentos que cheguem, juntando-se agora a febre da internet e aumentando-se o número de visitas aqui e ali.

Mas se tudo isto não deixa de fazer parte de uma propaganda que nos passa diante dos olhos e que conseguimos distinguir e sobre a qual temos capacidade de formar opinião crítica, a verdade é que na reportagem percebemos, ou pelo menos eu percebi claramente, que existem formas de fazer propaganda (e diga-se que são já verdadeiras obras de arte), que nos remetem de imediato para o universo Orweliano de um 1984 que levemente mexe as peças. Mas ao invés de um único Big Brother existem vários a puxar cada um para seu lado numa luta pelo domínio do inconsciente das massas.

Os exemplos mostram-nos épocas da história que naquele momento presente passavam despercebidas por aqueles que estavam sobre controlo. A propaganda era sublime e deixava despercebidos crimes horrendos e realidades que em estados emotivos controlados são simplesmente despercebidos a qualquer juízo de censura. Olhando agora o presente e ponderando sequer uma questão semelhante, quantos de nós saberão de facto se conseguem ou não ser manipulados por técnicas idênticas? Quantos afinal conseguem justificar os seus votos de forma racional? Quantos votam por juízos críticos que fizeram previamente? E quantos votam simplesmente dominados por esses mesmos sentimentos de ódio face a isto ou aquilo, porque em tempos como estes, é sempre mais fácil apontar o dedo aos elementos novos que vêm integrar uma ordem que para nós nunca os teve a eles, sendo portanto o bode expiatório perfeito de uns quantos que apenas ambicionam poder? E essa é sempre uma forma tão mais fácil de manipular.

Nesse mesmo livro de que falava lê-se por entre as páginas

Who controls the past now, controls the future

Who controls the present now, controls the past

E acaba por ser um pouco assim que a propaganda funciona. Numa lógica muito maquiavélica de que os fins justificam os meios, um pouco por todo o mundo vamos assistindo a uma inversão de factos e dados, e a manipulações extraordinárias de verdades que hoje são tidas como irrefutáveis, onde os manipulados não têm noção de que estão a aderir cegamente a mentiras.

E retomando o início, em ano de eleições e quando temos um lado que suaviza os factos e outro que os torna hiperbolicamente piores do que o são de facto, como ficará dividida a opinião pública na hora do voto? Quais os riscos que pode trazer a manipulação da opinião pública que claramente é feita por certos meios de comunicação, onde os ataques pessoais e populistas são usados como armas de arremesso contra políticas, quando claramente por detrás se percebe que não existem ideias? Sendo que claramente as massas aderem a esses mecanismos ocultos e sendo que os seus votos são aqueles mais facilmente influenciados, usar populismos e ataques pessoais que por vezes roçam a chacota e um grau de baixeza enormes, surgem os riscos de continuar a manter um país que rema de um lado para depois voltar a trás e no fim, reparar que afinal, nunca saímos do mesmo ciclo, porque facilmente programas vazios caem em repetições dos errados ou simplesmente em programas opostos pelo simples gozo de fazer oposição. E assim se vai mantendo o povo entretido de um lado para o outro, sem ideias mas sempre com algo para atirar para cima da mesa e vender àqueles que estão sempre dispostos a comprar.



*este texto originalmente foi escrito para ser publicado nesta edição do Tribuna, tendo ficado de lado por motivos de espaço. Aproveito então o meu cantinho neste blogue para o deixar ver a luz do monitor.