por Joana Maltez em quinta-feira, 2 de abril de 2009

Todos os dias existem para que tenhas
um nome e um corpo por onde te possas deixar ir
todas as cicatrizes são vísiveis na tua pele.

Existe o teu corpo manchado porque assim
posso ver-te sem que te doam as lembranças.

Hoje, digo-te que são barcos-de-papel
que rasgam o horizonte.
Estamos sentados apenas
para que o mundo se escreva à medida
que o olhamos.

Podemos fazer com que se vejam crianças
enquanto esperamos
- desenharemos mundos como se existissem já -
e não apenas nas nossas noites.

Debaixo dos pés resta a maresia - quando
olho, não são volumes que me enchem a consciência
mas sim sombras de homens que me circundam.

Os homens são isso mesmo: o que não conseguiram
ser.

Tentarei fazer com que os gritos soem menos
estridentes quando lançados a meio da noite
mas não podemos fazer com que se vejam, porque os
espelhos têm costas por onde só nós nos
sabemos perder.

Por entre as paredes, sussurra-se o nome
que me parece ser o teu.

Agora espero que o silêncio tome conta das
faces febris no soalho e que os meus pés percam
qualquer sentido.

Para que me deixem por aqui sem qualquer vislumbre
de alguém conhecido.



Sérgio Xarepe