("tem piada... tem piada a vida!") - sem título

por henrique maio em terça-feira, 14 de abril de 2009

Tudo alinhado, o suor nos rostos dos jovens petizes que ansiavam pela sua estreia naquela famosa (muito, muito famosa) Orquestra (gargantuesca Orquestra). As luzes apagadas, certo receio visto que não se sabia ao certo o número de pessoas que componham a plateia. As dúvidas sobre o sucesso do que viria a acontecer: por um lado, se a sala estivesse lotada, quiçá super-lotada, mesmo que a música não contagiasse aquelas pobres almas, era sempre sucesso, visto que o ganancioso Dono tinha os bolsos cheios; por outro lado, se a sala estivesse em pleno choro, vazia, assombrada, mesmo que a música batesse tecla a tecla na perfeição das poucas almas, o Dono fecharia aquele imenso teatro.
As luzes intermitentes anunciavam o início do bailado, até que um jovem, um petiz garçon, subiu ao palco e gritou: "Atenção! Faça-se uma vénia à beleza do que vai ser visto por vós, humildes almas!"
As luzes apagaram-se novamente e, no instante seguinte, a claridade queimou os olhares receosos da plateia. O que foi visto, naquele momento, era algo tão intenso, mas tão intenso que a Fortuna se incarregou de transformar em mito.
O que foi visto:um choro, um lamento.
Lamento pela ociosidade de deuses que habitam lá longe num reino onde a simpatia nunca reinou; deuses esses que aclamaram aos trompetes que rasgassem o coração de quem assistia com o simples objectivo de conhecer o porquê dos pobres homens conseguirem amar. O resultado? Uma carnificina tal, sangue, sangue agitado, lágrimas e poeira! Os deuses esfolaram todos os que se encontravam presentes e não conseguiram descobrir a resposta. Vieram, foram invocados pela simples esperança de desvendar o enigma. Foram embora desiludidos.
Lá dentro, ninguém sobreviveu. Tão forte, tão intenso. No dia a seguir, nos jornais, no Le Figaro, por exemplo, chorou-se as vítimas, mas esqueceram de apontar o essencial à notícia. A falta...