Paz&Espada

por Manuel Marques Pinto de Rezende em domingo, 26 de abril de 2009

Já não escrevia cá há algum tempo, e ainda assim vim escrever atrasado. Peço imensa desculpa.

Impulsionado pelas palavras da Daniela, e por um texto que me pareceu peculiarmente imaginativo, um exercício hipotético que eu raras vezes, ao longo de uma vida de exercícios hipotéticos, vi em prática, resolvi copiar-lhe a ideia e expor uma síntese fictícia do que seria o País caso não se tivesse dado o 25 de Abril e se tivesse mantido o regime ditatorial (o que, ao fim de mais de 30 anos, seria muito pouco provável de acontecer).
Ou seja, resumindo, vou inventar à fartazana.

Aí vai:

1- Se o País nunca tivesse saído da Ditadura, manter-se-ia a corrupção, alastrando-se por mais sectores da Administração e órgãos de fiscalização do Estado.

2- Haveria ainda mais favorecimentos por parte de Estado aos magnates da indústria, e substituir-se-ia o proteccionismo das pequenas indústrias somente pelo proteccionismo às grandes indústrias.

3- Mantinha-se a repressão administrativa, engenhando-se maneiras de aumentar as custas judiciais e favorecendo-se uma política de apelo à decisão dos Tribunais, perpetrada pelos Ministérios, sempre que estes se arvorassem em defensores dos particulares e exigissem da parte do Governo indemnizações a todos a quem passam por cima dos respectivos direitos.

3- Proibir-se-ia o ódio racial, mas incentivava-se o ódio de classe, visto que o conservadorismo do Estado Novo quer que todos sejamos humildes por igual, excepto a classe económica politizada.

4- Mantém-se o amor a certas manifestações colectivas, procurando-se o ardor das massas. Assim, nos dias 25 de Abril, o regime do Estado Novo obrigaria as estações de media públicos a cantar ininterruptamente canções exaustivamente alentejanas, sendo que a principal seria a Grândola Vila Morena, e deveriam fazê-lo de joelhos, de rabo virado para Meca.

5- O terrorismo de Estado continuava, mas mitigado. Em vez de lápis azuis, o Presidentes de Conselho usariam do seu poder para pressionar as estações televisivas públicas e privadas para passarem certos conteúdos mediáticos. Continuar-se-ia a iludir as pessoas com futebol e Fátima.
Em vez do lápis azul, os Governos usavam de meios judiciais à sua disposição para processar os jornalistas, contando com o vasto aparelho da comunicação social partidarizado para lhes dar cobertura e fracturar a opinião pública.

6- Far-se-ia uma Constituição sem a referendar, ainda que a mesma fosse feita sob pressão das Forças Armadas, sectores reaccionários da revolução.

7- Exigir-se-ia dos Jovens a entrada na vida política como forma de ajudar ao progresso económico/profissional. Seriam criadas várias Juventudes Partidárias, porque a Mocidade Portuguesa já não cumpria o objectivo de criar pessoas que aos 18 já tivessem mentalidades político/ideológicas fixas, com sucesso. Ocupar-se-ia as camadas jovens mais acéfalas e afectadas pela propaganda regimental de manter "a luta na rua", numa forma de protesto infinito por liberdades tão abstractas como incompreensíveis, para dar a impressão que as liberdades democráticas estão a ser exercidas. Esses jovens, resultado de experiências envolvendo cruzamentos entre primos, apelidar-se-iam Bloco de Esquerda.

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De facto, não fosse o golpe, e este país estariam em valentes maus lençóis.

5 comentários

Bom texto. Inteligente.

by Francisco on 27 de abril de 2009 às 00:29. #

Após outra e outra leitura, devo acrescentar que não obstante o elogio à inteligência (é mesmo este o adjectivo) do texto, friso as minhas devidas distâncias. Pois o seu autor está a comparar e, pior, a nivelar, coisas de uma natureza e magnitude radicalmente diferentes.
Mas é também neste nivelamento (profundamente errado, a meu ver) que o texto ganha perspicácia. E humor.

by Francisco on 27 de abril de 2009 às 00:39. #

muito obrigado.

o objectivo será simplesmente alertar para um pequeno facto, ténue mas talvez apoquentador, de que talvez as coisas não tenham mudado assim tanto.

by Manuel Pinto de Rezende on 27 de abril de 2009 às 01:56. #

Ainda que discorde profundamente de alguns pontos, acho que realmente há pontos com bastante razão, mas como já disse o noronha ha pontos que não devem ser comparáveis..
BOm texto manel

by Duarte Canotilho on 27 de abril de 2009 às 11:09. #

eu acho apenas que voltaste a entrar em demência.

by Daniela Ramalho on 28 de abril de 2009 às 18:38. #