Paz&Espada

por Manuel Marques Pinto de Rezende em sábado, 4 de abril de 2009

Acabo de sonhar.

estou a passar numa rua, e encontro uma fotografia no chão. Nessa fotografia estou eu, numa rua, a encontrar uma fotografia no chão. Nessa fotografia, que eu encontrei numa fotografia que encontrei no chão, estou eu, numa rua, a encontrar uma fotografia no chão. Nessa fotografia, que está na fotografia da fotografia em que eu encontrei uma fotografia no chão, está a minha gata, a Evita Perón, a queixar-se aos inquilinos do facto de estes deixarem entrar humanos nos seus apartamentos.

Tudo é relativamente relativo, à excepção talvez das torradas de manteiga. Há dias descobri que ser um filho da puta será, dentro de poucos anos e já em vários países, equivalente a chamar alguém de filho de um advogado (dizem-me da sala ao lado que já é há algum tempo), ou filho de uma lavadeira ou de um Primeiro Ministro (de novo manifestações da sala ao lado no sentido exacto da anterior chamada de atenção). Não tenho grandes problemas com isso, ao contrário do que possa parecer. Andam para aí muitos filhos da puta que adorariam ver a sua situação legalizada, e não podem. Para que serviu a Revolução, pá? Vamos pôr os filhos da puta a recibos verdes? Mais um pouco e vai chegar para receber uma comenda da Ordem de Cristo.
Fico triste com a República por causa disto também, das medalhas e das comendas da Ordem de Cristo. Digam-me vocês republicanos, que eu sou um súbdito escravizado, porque me lixam as medalhas e as comendas da Ordem de Cristo? Não podiam antes criar a comenda da Ordem de Afonso Costa? A comenda do Zeca Afonsomaisasmerdasdasmúsicasderevolução? É que eu nem me atrevo a dizer isto em separado. Hoje em dia, criticar o Zeca Afonso é ser insensíve,l e eu, que sou insensível como um bruto camafeu, não gosto que o saibam.
Mas continuando. Porque me lixaram as medalhas e as comendas de Cristo? Respondam-me republicanos. É que a Ordem de Cristo até eram uns simpáticos frades. Moviam-se por ideais como a bravura, a dedicação a Rei e Pátria (sim, já sei, Pátria não existe, é coisa que não existe, é como Deus e o fim do imposto sobre o rendimento, mas vá lá, eu acredito nessas coisas) a compreensão e a tolerância. Ideias que criaram Portugal. Mas vocês tinham de estragar tudo. Vocês não percebem que não são Portugal, mas antes a República Portuguesa? Criem as vossas comendas e ordens. Deixem os meus avós descansados nas tumbas. Usar os hábitos dos frades para legalizar filhos da puta, vai de hoje para quase trinta anos, não dá com nada. Eu nem tenho nada contra isso, por muito que pareça o contrário.
Aborrece-me, pronto, é só isso.