Nas ruas

por Ricardo Mesquita em sexta-feira, 3 de abril de 2009

Às vezes, saía sozinho de casa. Não lhe apetecia ir a lado nenhum. Talvez o bom fosse mesmo não haver esse ter que ir ou ter que fazer. E achava-se sozinho na rua. Em geral, era hora do poente quando punha o seu corpo à deriva naquele mar de caminhos.
Sabia-lhe bem a cidade com o silêncio e a sua companhia somente. Descia para ver o mar. Muitas vezes dava consigo a não resistir ao apelo constante do horizonte largo. Outras vezes havia em que seguia o impulso e descobria novas linhas no mapa que achava já conhecer da cidade. Apareciam-lhe recantos novos nas dobras de paredes onde se ancorava a memória.
Olhava as janelas e não raras vezes havia gente que lhe sorria lá de cima, quem sabe recordando romances de idades perdidas.
Fixava os olhos no ferro moído das varandas apertadas onde floresciam rebentos pequenos de cor. E imaginava a vida a acontecer do lado de lá. Imaginava as dores de mortes repentinas; lágrimas enraivecidas de caprichos não satisfeitos; risos abertos como teclas de piano; sonhos e gritos; gestos pequenos e esperanças amplas a acontecerem no corpo redescoberto da sua cidade.
Gostava que houvesse vida por perto e que o caminho desvendasse um pouco do seu mistério como se ele a surpreendesse num momento de distracção. Não se fazia notar. Levava no seu olhar a atenção sem expectativa. Não lhe veriam as pessoas nos olhos um desejo do que quer que fosse. Só isso era vida - a corrente decidida de um rio que corre sem espartilhos coalhada pela luz alva da manhã.
Reparava nos rostos enquanto ainda eram seus. Imaginava-lhes as vidas, que todos haviam sido pequenos. Crianças com vozes de uma meiguice trapalhona de caramelo. Às vezes, as pessoas sorriam-lhe. E ficava a ocupar o silêncio a doçura de um olhar caloroso.
Achava que saía para ver a vida. Não queria participar nela. Queria chegar e surpreender a vida em movimento ou num silêncio quieto, desde que o não notassem. Talvez a vida se esquecesse dele ou ele, pelo menos, se sentisse menos em si naqueles momentos.
Na vida dos outros não havia o peso da sua vontade. Não tinha de carregar nos passos a direcção que as decisões sempre dão à vida. Sabia-lhe bem a vida vista assim de fora - os sonhos dos outros a acontecerem e ele a chegar como uma personagem que o sonho deles jamais pudera imaginar que viria.
Não queria ser o sonho dos outros ou sequer pôr neles o seu corpo. Mas isso de alguém chegar ao nosso sonho enquanto a vida corre, lembrava-o que o sonho também o pode desejar por nós a vida. E que o sonho era o corpo de mãos dadas com a vontade mas com uns olhos muito vivos. "De surpresa", pensava ele.