Sublinhado

por Sara Morgado em domingo, 8 de março de 2009

Do amor e da ausência do pai pela filha:

Talvez que um dia, se nos conhecermos melhor, lhe mostre o retrato que guardo na carteira da minha filha de olhos verdes que mudam de tonalidade quando chora, e se tornam da cor do mar intratável do equinócio a saltar a muralha num tricot zangado de espuma, lhe mostre o seu sorriso, a sua boca, o seu cabelo loiro, a filha que sonhei nove meses nos suores de Angola porque a gente é que somos de verdade e o resto nunca que existiu, dizia o Luandino, a gente é que somos de verdade, ela e eu, o seu corpo alto, as suas mãos tão parecidas com as minhas, a infatigável curiosidade das duas perguntas, a sua inquietação aflita acerca do meu silêncio ou da minha tristeza, a gente é que somos de verdade resto tudo é mentira, lhe mostre a expressão séria da minha filha que não vi inchar na barriga crescida da mãe, a filha para quem eu era uma fotografia que se aponta com o dedo e me encarava com a raiva com que se recebem os intrusos, eu chegado de África deitado com ela no meu colo tardes a fio, sorrindo um para o outro o riso de entendimento antigo e sábio que as crianças de quatro meses herdam dos álbuns e demoram anos e anos a perder (…).

Dizia assim António Lobo Antunes, in Os Cus de Judas.