Paz&Espada

por Manuel Marques Pinto de Rezende em domingo, 8 de março de 2009

A Crise
De acordo com o seu étimo, crise quer dizer julgamento, pois deriva do verbo grego krinô, que significa julgar. O substantivo krisis, (com a mesma raiz de krinô), que deu crise, significa julgamento, juízo. Mas, este mesmo substantivo, krisis, expressa também a ideia de separação, triagem, escolha, sendo curioso assinalar que o radical kri-, se encontra em crivo, utensílio que se usa para escolher, separar, joeirar. O crivo é utilizado para joeirar o trigo. E, nas representações egípcias, o escriba, além da tinta e do estilete, também tem um crivo, cujo símbolo é o da apreciação daquilo que escreve. Assim, o crivo sobre os joelhos do escriba significa o trabalho que ele tem de fazer para separar o verdadeiro do falso. O escriba tem, portanto, de fazer uma escolha.
Vemos, deste modo, que as palavras crise e crivo se acham ligadas, associando-se ambas à ideia de escolha. Por isso, quando dizemos que a nossa época é uma época crítica, queremos, efectivamente, dizer que se trata de uma época de escolha, de julgamento.
Uma outra palavra que tem a mesma raiz de crise é crisol. O crisol e o cadinho onde se fundem e purificam os metais preciosos. É no crisol que, segundo a Alquimia, a matéria-prima, tal como o Cristo na cruz, sofre a paixão. Por outras palavras, é no crisol que a matéria-prima morre para ressuscitar em seguida, transformada, purificada, espiritualizada. Também no crisol há uma escolha, uma separação.
Separam-se os elementos puros dos impuros.

José Flórido, "um Agostinho da Silva"