O esquecimento

por Ricardo Mesquita em sexta-feira, 27 de março de 2009

Quanto tempo demora o esquecimento a chegar? Quanto tempo se demora a esvaziar a nossa lembrança de alguém?
Lembrava-se sempre do tempo em que gostar era coleccionar a vida como se a simplicidade das coisas fosse o que tem mais valor. Guardava sempre os momentos mais raros - esses em que a vida se assemelha tanto a um corpo sem peso; a um corpo sem ele ou sem os seus limites.
O esquecimento demora sempre mais quando o amor foi intenso ou longo. Como se a borracha do seu lápis nunca chegasse para roubar às nervuras das páginas o sabor do que aí ficou gravado.
E mesmo do que engole o véu do olvidar fica sempre a marca sem cor das letras da nossa vida. Como uma folha marcada pelo corpo agora ausente do que já não há. Perguntava-se, por isso, se esquecer seria verdadeiramente possível. Porque querer esquecer, com a vontade de um desejo lá no meio, significava lembrar o que se queria esquecer.
Quando chamamos o esquecimento as coisas são uma recordação maior do que nós. E aí percebemos o quanto delas é nosso e quanto somos no que delas existiu.
Não sabia se alguma vez se esqueceria alguém ou alguma coisa. Talvez esquecer fosse ensinar ao coração a não chamar pelo nome do que lhe dissemos ser nosso. O esquecer é evitar passar por certos caminhos e evitar ver certos rostos. Até que desaprendemos como chegar até eles. Sabemos que eles existem; sabemos onde estão mas não sabemos mais como chegar até eles.
O esquecimento é a exclusão de partes do mundo. Como se nos tirássemos de uma parte do mundo para que ele deixe de nos reconhecer.
Esquecer não é apagar as coisas. Talvez seja não passarmos tanto por elas, como se o lápis não pudesse mais carregar fundo nas letras daquela estória.
Esquecer não é, pois, a absoluta dissolução do que fomos. Esquecer é lembrar mas não desejar mais o corpo do que se lembra. Esquecer é poder lembrar sem desejo.
Sabia pois que o esquecer era lembrar menos vezes. Lembrar e parar no momento em que não mais se pode desejar o que foi.
O esquecimento enquanto utopia de destruição total só persiste enquanto há ressentimento ou mágoa. Como se tentássemos provar a nós próprios que a nossa vontade pode desdizer o que aconteceu acima dela.
Depois dele vivemos na ilusão a que chamamos esquecimento. Mas, na verdade, podíamos chamar-lhe contemplação. Sabemos que o corpo das coisas está lá e mora connosco. E olhamos para elas com um olhar onde cabe a serenidade do que já não dói.
O esquecimento é, então, o esquecer a forma como recordávamos as coisas. Ou viver com a corpo dessa recordação mas aceitar lembrá-las da forma como elas podem ser.
E a forma como elas podem ser é, em geral, um não-ser do que já foram. Por isso custa tanto. Porque sabe a menos do que já foi. Porque sabe a pouco.
Mas com o tempo e o seu balouçar o nosso sonho encaixa-se no imperativo das possibilidades.
E talvez depois de termos teimado em esquecer, o que fique em nós das coisas seja a forma de as mantermos vivas. E de elas existirem sempre connosco.