O continuar

por Ricardo Mesquita em sexta-feira, 20 de março de 2009

Há coisas que acabam na nossa vida. Coisas que, de repente, não podemos mais seguir. Coisas que seriam o corpo e a causa dos dias mas que não chegam mais. E nós continuamos e continua a ser vida os dias que vêm sem o nosso sonho na palma da mão.
Custa chamar a isso vida. Ou mesmo que lhe chamemos vida e saibamos que ela corre, o difícil é mesmo sentir que estamos inteiros no tempo que passa por nós.
Continuar significa, pois, seguir em frente depois de deixarmos para trás algo que era nosso. E sabe a perda. Tem esse sabor de prisão e vazio.
E a sua vida continuava. Mas, às vezes, com o mar em fundo e vozes recentes que lhe falavam, pensava onde estaria se o que continuasse fosse o filme parado no silêncio. Estranha essa sensação, quase certeza, de que estaria noutros lugares e os rostos seriam outros.
Estranha essa sensação de saber que há uma imagem da vida que poderia ter sido. Pensava só que a nossa vontade de trilhar novos caminhos pode vir de encruzilhadas que chegam ao fim. Ou talvez o que nos levasse para a frente não fosse vontade - não fosse esse desejo nas veias, mas antes uma esperança de encaixarmos o nosso corpo e espírito num vazio um pouco mais cheio.
Tivera já de continuar. E, não raras vezes, encontrara uma vontade de ficar no caminho aberto no avesso da vida. E o continuar podia ser o começar. O começar por reconhecer nas coisas novas razões para ficar. Tudo no mundo continua, afinal. Nada é como no primeiro dia. E a vida que corre nas ruas é uma versão fortalecida do sonho. Fortalecida por esses amores imprevisíveis que, quando olhamos, percebemos terem começado exactamente no avesso disso, sem nada que fosse a nossa vontade a chamar-lhe o nome que ainda não tem.
E, aos poucos, os seus dias enchiam-se de coisas que poderia ter perdido. E o segredo era esse: pensar no que teria perdido se não tivesse havido uma fenda na certeza que era o chão dos dias que viriam. Vieram os dias. E talvez não tivesse vindo o mesmo chão de sempre. Mas havia o homem. E a vontade de chamar seu ao caminho que agora se abria.