Há qualquer coisa nas manhãs seguintes

por Sara Morgado em domingo, 29 de março de 2009

Há qualquer coisa que fica nas manhãs seguintes, pousada. Há qualquer que fica pousado nas coisas, nas manhãs seguintes. Invisível, parado, intacto, nas coisas do chão: nos copos tombados, nas folhas, nos discos que já chegaram ao fim. Há qualquer coisa que fica embalada nas alças do vestido que dorme na cadeira, calmo. Há qualquer coisa que adormece lenta sobre o pó do tampo da cómoda e nos batons das gavetas abertas, que se enrosca nos cabelos despenteados na almofada, terno. Há qualquer coisa que se espalha pelas paredes do quarto, pelo tecto, que vive nos raios pálidos claros do sol que nos visitam, que nos chegam até à cama, até aos lençóis brancos. Há algo tímido, sem forma e sem cor, mas calmo e morno que se deita lentamente no quarto em silêncio, que começa a acordar, que chega ao pescoço e atrás das orelhas e nos descola as pálpebras docemente.

3 comentários

devo confessar k adoro os teus textos

by Angelina on 29 de março de 2009 às 19:30. #

Lindíssimo!

by Pipette on 29 de março de 2009 às 20:50. #

Gostava de ter manhãs seguintes.

by Anónimo on 29 de março de 2009 às 23:01. #