#23 às terças, quase como acaso

por TR em terça-feira, 31 de março de 2009

Em tempos “amigos para sempre”, havíamos embarcado de mãos dadas rumo ao que desse e viesse, carregando à vez, para a nossa nau do impossível, um pouco dos sonhos que acalentávamos. O processo fora simples e ingénuo: lado a lado dizíamos alto, um a um, o que esperávamos que a vida nos oferecesse, dividindo a realidade em pequenas fracções que, juntas, superavam o alcance do conhecido. Classificávamo-la por etiquetas, trabalho, lazer, família, aos 20, aos 40, aos 60, ao que se seguisse, e recruzávamo-la em nova combinação, saboreando ao máximo as potencialidades de um mundo sem barreiras. Indómitos e confiantes no projecto, éramos quatro, e as pequenas parcelas de esperança que depositávamos no porão da robusta nau completavam-se e sobrepunham-se entre si, garantindo para tudo o que surgisse, o que desse e o que viesse, pecúlio suficiente que acalentasse a alma e enchesse a vida.

Mas isso era no tempo em que nos julgávamos amigos para sempre. Porque, depois, virámos corpos agarrados aos destroços de uma nau em deriva.
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Nau feita de sonho, tanto sonho, devida ao acaso de um dia nos encontrarmos. Em pequenas tardes passadas lado a lado, criamos lugares imaginários à disposição de cada um: timoneiro, capitão, boticário, marinheiro, labores fadados para toda a obra, num vaivém de posições à medida de cada hora. Jogámos à bola juntos, rimo-nos das mesmas piadas, comemos lado a lado, bebemos o álcool dos mesmos gargalos, e com tudo cimentámos uma amizade simultaneamente una e trina: de um lado, feita de afecto ao grupo a que, juntos, dávamos corpo; do outro, de três pequenos laços particulares que cada um formava com os restantes. Ali, à mesa do café, passaram anos feitos de sorrisos, compadrio, provocações: a bola, as mulheres, a escola, a política, tudo se erguendo como palco magistral para disputas de palavras, onde cada um lutava por fazer valer suas ética e estética. Havia ainda o sonho, a idade nunca como óbice suficiente para castrar as potencialidades da imaginação: sim, ainda iríamos à lua, seríamos estrelas de futebol, de cinema, da música, arrastaríamos multidões do alto de um púlpito, e teríamos todo o mundo ao alcance da própria mão…
E no fim, no fim ríamo-nos, saboreando os bons pedaços por lá passados.
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Mas a nossa nau, como feita de sonho que era, não resistiu à turbulência da vida.
Pelo tempo seguindo diferentes rumos, separamo-nos do serão à mesa do café, descobrindo a custo como o tempo só corre num sentido. Podíamos querer corrigir erros do passado mas, para sempre, tudo ficaria implacavelmente cravejado na nossa história. Não, nunca voltaria o momento em que nos iríamos conhecer do novo, ou àquele em que evitaríamos o fim do encontro à mesa. As opções de cada hora viravam sempre irreversíveis, de nada servindo carpir mágoas com vista a tornear o acontecido. Ainda assim, mais do que o arrependimento pelo que se não fez, pesava-nos o medo de, no futuro incerto, fosse pelo que fosse, fraquejar na hora de tomar a recta via. Cobardia, fraqueza, insegurança, a ameaça permanente de ceder planava em nosso torno. Agora, perante o perigo de nos afogarmos na vertigem do quotidiano, apenas podíamos contar, para o que desse e o que viesse, com os destroços de uma nau erguida em anos de sonho. Altos projectos, distintas cavalarias, trocávamos tais esperanças por pequenas vitórias no dia-a-dia.
(Terminar o curso sem solavancos, escrever um bom poema, conseguir um emprego, ganhar à bola num jogo de condiscípulos, encontrar quem nos desse uma vida plena, assim se pintavam agora os voos que queríamos viver.)

Chamava-nos o mundo.
Depois do tempo da infância, o apelo para nos tornarmos homens, metendo as mãos à terra, ao martelo, à foice, à caneta, ao trabalho. Só pelo trabalho, sugeriam-nos, chegaria a redenção para os meninos que, ingenuamente, sonharam um dia poder ser deuses. Começamos a perceber ser esta a via para encontrarmos o nosso lugar no mundo: insertos no meio da multidão, anónima e dispersa, com o imenso desafio de colocar o nosso melhor nas diversas tarefas que se nos apresentassem e, assim, ir lentamente construindo um lugar onde a felicidade fosse senhora e rainha.
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(Bafejados pela sorte, alguns de nós farão seu um pequeno lar, porventura com um dístico à entrada, dizendo
“Boa viagem, meu amigo”
Tudo num belo trabalho de artesão, baixo-relevo, fruto da lapidação dos destroços de madeira de uma nau… de uma nau erguida em dias de sonho).

Originariamente publicado, ontem, aqui. Aí escrevi. "Este texto foi pensado para ser colocado amanhã. No entanto, pelo muito trabalho que tive, pareceu-me por bem colocá-lo desde já. Às 00:01 entrará na coluna às terças, quase como acaso, no blogue do tribuna."