#20 às terças, quase como acaso

por TR em terça-feira, 10 de março de 2009

O DESPISTADO

Tínhamos ido para a estação, na época em que chegavam os papéis a pedir gente para o trabalho, o Verão aproximando-se do ocaso. Éramos cinco rapazes, uns feitos com os outros, numa irmandade nascida em braçadas comuns de muitos labores. Primeiro a nadar no rio, depois a erguer os copos, no fim na apanha da fruta. Desta feita iríamos de comboio, podendo jogar às cartas enquanto galgávamos rumo ao nosso destino, a ver se o tempo fluía mais rápido.
Quando chegamos à estação, o Aníbal, que sempre fora o mais espevitado de nós cinco, fez a pergunta
- A que horas chega o comboio?
- Bem…Aqui…Chega uma hora depois de passar na última estação – respondeu o chefe do apeadeiro.
- Então a que horas passa na última estação?
- Ai isso não lhe sei dizer…
Ficamos assim a aguardar, sabendo apenas que o comboio passaria naquele dia. Olhávamos para o horizonte e víamos os dois fios dos carris a prolongarem-se até ao céu, primeiro sólidos e robustos, depois tão ténues como uma pequena linha de coser. Sentamo-nos à conversa, a fazer horas, mas as cabeças viravam-se instintivamente para o longe, à espera que um lagarto de largas toneladas nos acolhesse dentro de si. Cada tentativa de conversa morria pouco depois de nascer, e a impaciência da espera fazia-nos inquietar.
Entretanto o Aníbal levantou-se dizendo ir verter águas. Suspeitamos que tinha ido fazer algo mais, ou então nunca teria demorado tanto tempo. Na sua ausência, continuávamos naquele silêncio espectral, à espera.
Estávamos à espera.
(Esperando.)
Paciência.

A dada altura começamos a ver uma cabeça a surgir no horizonte. Lenta e gradualmente, o barulho do comboio fez-se sentir, cada vez mais firme, aproximando-se da nossa presença. A hora da partida chegava a galope, e por isso demo-nos a chamar o Aníbal.
- Ó Aníbal, onde andas?
- Aníbal…
- Anda! O comboio está aí!
Nada, o rapaz não dava fé de si. Conversamos rápido entre nós, e concluímos ser melhor embarcar. O seguinte só viria no fim da semana, e com isso a hipótese de trabalhar na apanha perigava. Entramos no comboio, não sem mágoa, ainda a gritar o nome do camarada. Quando iniciou a marcha, votamo-nos um por cada porta, ao menos para descansar a consciência, como que dizendo termos feito todo o possível para embarcarmos na companhia do amigo.
Até que começamos a ver o Aníbal a correr, quase esganado de sufoco.
- Anda, Aníbal! Agarra-me a mão!
Ele estava quase, quase
- Aníbal, é só um bocadinho!
Com todas as forças que tinha, e carregando a maldita mala na mão, o rapaz corria o mais rápido que conseguia. Atirou a mala rápido, e o Bilinho agarrou-a. Continuamos a gritar, ele a correr, e o comboio a embalar, anunciando que, brevemente, ganharia forte velocidade. O Aníbal, percebendo a situação, não hesitou. Largou os pés do chão, atirou-se aos meus braços, sendo ambos abruptamente puxados pelos nossos camaradas para o interior.
Descansados dos esforços, perguntamos
- Então, que te deu? Ias perdendo o comboio? Nós chamamos!...
- Não tive culpa! Andava lá um jeitoso pelos montes e tive de ir para um canto abrigado! Quando dei por ela já estava o comboio a descer do monte…Foi o tempo de ir a correr pra cá!

Um ano depois, voltamos à estação. Dessa feita, o Aníbal manteve-se hirto, ao largo da linha, aguardando o comboio, sem denotar quaisquer apelos fisiológicos ou sinais de impaciência.