#18 às terças, quase como acaso

por TR em terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Seguia na carruagem de tom cinza sentado num desses bancos de dois ou três, feitos de couro gasto (dir-se-ia que de um tempo já para lá da memória, tais as rugas que aparentava).
Ciclicamente olhava pela janela e era sempre o mesmo Portugal que se me oferecia: cheio de árvores velhas de um verde musgo, às vezes pontadas de cinza de um incêndio do Verão último, outras com umas pequenas casas que sabe-se lá porquê ali estavam. Talvez vivesse lá alguém, ido para o pulmão da serra por zanga com a gente, ou os homens tivessem mesmo ali nascido, partindo para outros lugares mais próximos do mar. Isto de ser português não se explica muito bem, apenas se sabe que pensamos coisas diferentes das que sentimos, somos racionalmente maus e emotivamente predestinados à vitória. Ou então insultamos o mar, deixando-o ao deus-dará e aos santos padroeiros, e quando damos por ela só queremos passar uns tempos ali ao largo, na praia.
A dada altura comecei a falar com o senhor à minha frente, que me dizia ter feito este trajecto em mais de 40 anos de idas e vindas. Em novo fazia-o para ir ao Porto, levando três carneiros aos sovacos,
- Ia lutando pela vida, sabe?
E lá andava pela cidade invicta, dizia que era feita de sombras e de velas a apagarem-se, as ruas inclinadas ladeadas por prédios altivos, velhos e honrados, que a gente falava com desapego à estética e amor à semântica, usando dizeres atabalhoados, directos, rudes, porém, humanos
- Arranjei lá a minha mulher, ainda me lembro. Quer saber a história?
Sim, quis saber, e lá ouvi e epopeia do pequeno provinciano que temia não vender os carneiros. E, pior, voltar a casa de mãos vazias e sovacos aquecidos, sem palavras a dizer para além de
- Ninguém tem dinheiro, não se vende nada
mas que à força de trabalho, mais por disciplina do que dom divino, lá conseguia fazer render o gado. E mais que isso, ganhara a confiança senhor Joaquim, pai da pequena Maria, seu cliente fiel. A dada altura pediu-lhe a mão da moça, e ele disse que sim, e pronto, lá voltou à terra com moedas na bolsa e uma mulher para a vida.
Eram estas as histórias que o homem contava, e eu ali a ouvir, de audição atenta e com um sorriso no rosto. Ia com o sujeito em feliz cavaqueira quando o comboio começou a abrandar, lenta e gradualmente, até que por fim parou. Pensei que já não chegaria a horas à cidade, enfim, lamentei a minha imprudência de não contar com avarias e coisas que tais, começando a conformar-me com a triste situação de chegar com atraso imperdoável. O homem começou-se a rir, muito alto, ao ver o meu desgosto com a situação, e eu não conseguia deixar de pensar em como aquele ignóbil deveria ter sido um larápio de primeira, ou então nunca se riria assim da miséria alheia que, para pior, era a minha.
- Não sabe o que se passa, pois não?
Claro que sabia, tinha o meu dia destruído por força do raio do comboio velho.
- Não, não sei, disse, frustrado.
- É que há uma cancela a travar o percurso. O maquinista tem de sair para a abrir, deixar o comboio passar, e no fim voltar a sair para descer de novo a cancela.
- Como?
Fosse eu da estirpe daquele sujeito e ter-lhe-ia ido aos queixos, mas sou de outro jeito e limitei-me a um inócuo “como?”, se bem que com cargas de reprovação no tom. Invenção mais inverosímil era difícil… Decido ir à janela e vejo um senhor com chapéu à soldado de chumbo a caminhar ao lado do comboio. Seria mesmo verdade?
Abro a porta à manivela para sair da carruagem, e vou até ao largo da locomotiva, de um laranja vivo, aproximando-me do soldado napoleónico, perdão, ferroviário. Perguntei, embora já sabendo do que se tratava
- O que é que o senhor maquinista está a fazer?
- Não sabe? Tenho de vir abrir a cancela para o comboio passar. Depois volto a sair para a fechar. E só depois arrancamos.
Finalmente acreditei que aquilo era mesmo assim. Como era possível que não houvesse um qualquer ponto de energia que fizesse a portinhola abrir e fechar automaticamente com o aproximar do comboio?
Lá voltei ao meu lugar, agora sem o velho homem à frente. A viagem já ia longa, eu estava cansado, ainda tinha uns blocos de folhas para ler, mas por os olhos não se quedarem de modo firme decidi parar. É cansaço, tens de descansar, dir-me-ia o meu pai. Em respeito ao sangue, decidi fechar os olhos e dormir melhor que um passarinho.
- - -
Acordei já noite, vendo pontos amarelos a anunciarem a civilização.
- Quer um pouco de água?, ofereceu-me o senhor.
- Sim, obrigado - estava com a cara um pouco pegajosa, talvez por não fechar a boca ao dormir, e a garganta estava seca, a fome já esganava, doíam-me as pernas de estar sentado, ou se calhar, tudo se resumia à sede que então sentia. Já recomposto, disse
- Obrigado. Sempre era verdade aquela história das cancelas…
O homem não respondeu, limitando-se a olhar pela janela. Chegamos a S. Bento já noite, ao horário previsto, e descemos do comboio lado a lado, em silêncio. Percorremos a gare lentamente, ele carregando uma pequena cesta de vime, eu com uma mala recente com duas pequenas rodas a ajudarem a combater a gravidade. Não sabia qual a razão da sua viagem, nem ele quais os meus motivos, mas seguíamos lado a lado como dois velhos conhecidos, apreciando desde os azulejos da entrada à perseverança da senhora que vendia os torrões embrulhados em papel laranja. Indiquei-lhe que seguia para cima, pelos aliados até à praça da República, e ele que tinha como rumo os Clérigos, rompendo depois para o Santo António. Despedimo-nos, trocando ainda umas breves impressões
- Sabe…há uma coisa que me disse que me tem deixado a matutar.
- Diga, diga – disse, prestável.
- É que não percebo uma coisa na gente nova…
- Então?
- Porque raio é que aquilo que lhe contei da cancela não haveria de ser verdade?

E partiu de rosto sério enquanto eu ainda preparava uma resposta, de tão embasbacado ter ficado.

Olhei a nobreza do seu andar manco, em que ainda não reparara, uma perna mais pequena que a outra, e senti alguma compaixão ao ver como mantinha a pequena cesta carregada firme, como se peso nenhum tivesse. Pensei em como ainda há pouco malograva aquele sujeito, que abertamente me contava painéis da sua vida, considerando que qualquer palavra que de um homem saísse era, já ela, um signo da verdade. Agora que melhor pensava, não conseguia deixar de concluir que se houvesse alguém de má estirpe, esse alguém seria eu.

Volto a escrever neste espaço, após três semanas de interregno, por força do acaso ou da falta dele. Na primeira, estava no primeiro de três dias de estudo para uma cadeira. Na segunda e na terceira tive provas orais precisamente na terça. Dir-se-á, quase por acaso.
O texto que aqui coloco, não o parecendo, deve-se a uma reunião do Tribuna. A dada altura, falava-se numa viagem em que, a dada altura, o comboio parava para o maquinista ir abrir uma cancela. Depois de esta estar aberta, o comboio avançava um pouquinho, para novamente o maquinista sair da composição de modo a poder fechar a referida barreira. Na sequência desta pequena história, o Francisco Noronha, em tom de brincadeira, disse que eu era capaz de escrever uma página e meia sobre a temática. Ri-me, naturalmente, e depois pensei para comigo que era um desafio interessante. Os resultados desses esforços estão à disposição do leitor a quem, desde já, e como sempre, convido a partilhar as suas considerações sobre o que leu.
publicado, também, aqui.