ANARQUIA

por João Fachana em domingo, 4 de janeiro de 2009

Nove horas e vinte e cinco minutos:
O deputado Artur Magalhães tomava o pequeno-almoço à pressa, enquanto procurava folhear o jornal. As suas mãos tremiam à medida que avançava pelas páginas de jornal e erguia a sua caneca de café. A mulher de Artur entrou na cozinha e estranhou logo o comportamento do marido:
- O que é que se passa, Artur? Porque é que estás nervoso?
- Nada querida. É por causa do debate.
- É só mais um debate…
Artur levantou-se e enrolou o jornal:
- Bom, tenho de ir. – E deu um beijo na face à mulher.
- Ficas bem?
- Fico. Não te preocupes.
Artur saiu da cozinha e dirigiu-se ao hall de entrada, pegando no seu casaco e numa pasta metálica, grande e cinzenta. Estava fria e Artur sentiu medo ao tocar-lhe. O que é que estaria ali dentro?
Artur tinha mentido à mulher. Os nervos não se deviam ao debate que iria ocorrer no Parlamento naquele dia, durante a tarde. Deviam-se àquela pasta que Artur tinha de levar para a Assembleia da República. No dia anterior, Artur havia sido abordado por um indivíduo que não conhecia de lado nenhum. Nem o nome apresentara. Apenas lhe dera umas fotos para a mão. Quando Artur as viu ficou horrorizado. Como é aquele homem tinha descoberto? E depois dissera-lhe que se Artur não queria que aquelas fotos fossem parar à primeira página de um jornal tinha de fazer o que ele dissera. E a ordem fosse que levasse a pasta cinzenta, que o homem tinha na sua mão, para o Parlamento no dia seguinte. E que não a abrisse, fosse em que circunstância fosse. Caso contrário, o homem saberia e as fotos seriam reveladas.
Artur tinha, por isso, de deixar a pasta no Parlamento, no seu assento, antes das cinco da tarde. Ou então todos veriam aquelas fotos tiradas num quarto de hotel, em que apareciam Artur e o seu amante, nús. Seria a desgraça e a humilhação eterna. E nem queria pensar no que é que a sua mulher poderia pensar. Iria cumprir as ordens do homem.