First thing in the week

por Inês em quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Está um barulho insuportável no bar, como se fosse hora de almoço. Os caloiros de farmácia multiplicam-se, eu só vejo manchas roxas e um bocadinho de nada dos tons castanhos das mesas. A hora de almoço há muito que já se foi, olho lá para fora e percebo que é noite cerrada. Na cozinha a azáfama é a do costume, mas a mim parece-me - daqui - que o barulho não passa do balcão para lá. Só vejo - vê-se tão bem...- silêncio. Eu não sabia nada sobre ela, nem mesmo o nome. Mas também não precisava: vinha ao bar, ela atendia-me e eu conhecia-a do que ela era nessas alturas. Nunca parei para pensar nela um minuto que fosse: era certo que sempre que me pendurava no balcão e fazia aquela voz de mimo tão típica do Aquecido, por favooor ia ser brindada com sorriso (e não com um ar maldisposto, como acontece em tantos bares de outras escolas ou faculdades) acompanhado da piada de sempre: Oh minina, o que é que é aquecido? A torrada? E eu ria-me sempre da mesma maneira e quem estava à volta ria-se também e os brasileiros são assim, põem-nos bem dispostos. Agora vejo silêncio porque quem lá está sabe que não vai ouvir mais durante todo o dia o samba que vem daquela maneira de falar que nós não conseguimos imitar.
E afinal, lembro-me agora, parei uma vez para pensar nela, lembro-me bem, afinal pensei. Foi na sexta-feira à tarde, quando saí do bar com o leite achocolatado na mão (Fresco, minina?). Pensei que era uma bênção poder ouvir alegria no trabalho quando se vai pedir um café.
E terça-feira - first thing in the morning - soube que havia, como sempre, torradas e cafés e leite com chocolate, mas que não ia haver nunca mais o sorriso contagiante da senhora de quem eu nem sabia o nome. E fiquei a pensar nisso entre Mis Sis Sóis Rés Lás e Mis o resto da manhã.
Somos tão pequeninos.