# 9 às terças, quase como acaso

por TR em terça-feira, 2 de dezembro de 2008

AS CHUVAS E O SÁBIO

Desde os tempos de Iolando, O Saturado, gravados nas pedras das fachadas e nos rostos dos soldados, que não chovia assim a levas de dilúvio. A cidade sorria ante a esperança do toque de clarim que calasse as salvas celestiais: mas dos céus não se via a terra e seus sorrisos… e o tormento outonal não podia quedar-se pela metade.

Às primeiras lágrimas dos céus – pois tão grande era o seu desencanto com estes pequenos – o povo olhou para o Alto e pensou

- não será grave o chuvisco

Mas as lágrimas engrossaram; e outras mais vieram; e lágrimas a lágrimas sucederam enquanto os céus rompiam em sentido pranto. E o povo pensou

- é grave, de facto é grave. Mas passará.

Mas os céus têm seus propósitos; passeiam-se na abóbada e esquecem as paixões e devir humanos. Por isso é que o Alto é a sua morada e o seu nome, e não a planície, o planalto, os mares, os rios ou os ribeiros. Ai, e como os céus choravam! Choravam qual velho amargurado, desencantado com a existência que gerou, num último sopro de coragem e desafio aos seus pares. Céus, gritai! Céus, dessacralizai-vos! Céus, dizei aos que abaixo de vós se encontram que jamais aguentarão o turbilhão da vossa destemperança!

E o povo pensou

- fomos amaldiçoados! E que vida a nossa, que vida a nossa…

Os céus não acalmaram, todas as preces foram oradas em vão. Era a sua catarse, porque haveriam de parar? Porque se aqueles céus cerceiam o olhar do homem, materializando-se num horizonte em cópula, também os homens influenciam os céus com as suas paixões ódios e intrigas. Normalmente alheados e indiferentes à vida destes pequenos, os céus ousaram olhá-los. E por isso choram.

- isto parará. Por Júpiter, por todos os deuses, isto passará. Passarão cem dias até o sol romper as nuvens.

Assim dizia o povo, repetindo as palavras dos magos de barba farta. Quão vã a esperança do homem perdida na ilusão; quão vãos os sonhos sem suporte! Intimamente acredita que o dilúvio não terminará, que é o último dos sinais do fim desta era, que é o Demónio sob a veste de tempestade e furacão. Mas, ainda que o acreditem, estes homens criaram um marco no qual projectaram toda a sua esperança. Assim, faltará sempre menos um dia para retornarem a essa existência de ouro vivo, para esse momento em que o sol volta a queimar as eiras, a banhar os beirais, a fazer florir essas flores que brotam das valetas dos caminhos. Como se enganam, e como se querem enganar…

É que os céus ignoravam os homens. Continuaram no seu inconsolável pranto, sofrível melodia a todos incomodando, triste augúrio para os dias sucedâneos. Até um dia.

1000 dias a chuva caiu; e 1000 dias os homens rezaram. Depois a chuva parou.

O povo pensou que desde os tempos de Iolando, O Saturado, gravados nas pedras das fachadas e nos rostos dos soldados, não chovia assim a levas de dilúvio. Foi aí que o Imperador Genovívio saiu à rua, agora já sem prados, palácios, praças, jardins ou armazéns imperiais. Durante aqueles 1000 dias de desassossego, o patriarca deste povo em prece ordenou aos seus lacaios para que distribuíssem pelas povoações todos os bens guardados nos depósitos para que “nem um só tenha de roubar o outro para levar o pão à boca”. Nesses 1000 dias, o imperador refugiou-se no último dos andares da Biblioteca de Kafitos, criada, construída e recheada pelo seu predecessor de cabelo em caracóis rosados, e rodeou-se do guarda-livros do Império, também decano da Academia Imperial de História, Doutor em Filosofia, astrónomo amador, correspondente de prestigiadas revistas de Leis de todo o Consórcio Imperial do Médio – Este, cantor lírico de ocasião e bailarino clássico às terceiras noites de cada mês. De todo o saber que acumulou com o eclético guarda – livros, o jovem Genovívio foi o primeiro dos da sua nação à rua. Saiu dos escombros que recordavam o palácio que em tempos ali havia e, enquanto de sachola a labutar, gritou numa voz que atemorizou os céus que, ainda há pouco, faziam retumbar sobre os homens os mais tormentosos suplícios:

- que cesse a vigência das leis do Outono Velho, que vigorem os velhos costumes do Império, sob a versão restaurada de Iolando, O Saturado, perpetuados nos velhos volumes de flor em cruz! Todo o homem manterá a terra que era sua, mas dará o fruto do esforço da mão e saber humanos na exacta proporção com que cada homem entrar; os soldados, fiéis servos do Império, recuperarão as pontes, depois tornarão transitáveis os caminhos, e não pararão seu esforço antes dessa hora em que todo o homem volte a ter um espaço a que chame de lar! Os mais exímios atletas desta Nação também Império chegarão junto de mim e correrão pelos montes que nos servem de chão anunciando as mensagens que revelarei enquanto trabalho! Aos velhos Doutores que hajam resistido às agruras destes 1000 dias de dor e preces em vão, ordeno que partam de terra em terra auxiliando os homens bons dos lugares a tomar as decisões justas para todas as questões de honra ou de repartição dos bens que possam surgir! E com eles irão os mais distintos estudantes de Leis, se Doutores em abastança já não houver. Aos médicos e seus ofícios ordeno que não deixem morrer um só homem por falta de cuidado, e que desde esta hora partam, com suas artes às costas e seus discípulos em mãos, rumo àqueles que clamem por socorro e ainda não o tenham! Todos os privilégios que não fundados na lei natural são abolidos, e todo o homem que não ajude a reconstruir o Império perde o título de “senhor” ou “senhora”. Em tudo o que não haja dito, ou em que das minhas palavras emanem dúvidas ou equívocos, ordeno que se faça como o digam os três melhores homens de cada lugar, mas só se de acordo com os mais nobres matizes da razão e dos bons costumes do Império.

Assim falou Genovívio, O Sábio, no primeiro dos 1000 dias de reconstrução do Império. Depois de três doenças de mau-olhado, quatro pneumonias de ódio celestial, duas picadas grossas de barriga, sete olhos de vidro fosco, uma perna quebrada em cinco pontos, cinco tiros rasantes ao coração saídos por capricho da fortuna, e de todas elas curadas à força de mais trabalho e do constante debitar de indicações para todos as praças centrais do Império; depois daqueles cabelos esbranquiçados pelo cansaço, das mãos mais calejadas do que as de qualquer homem da terra, do saber mais vasto do que o recolhido na nova Biblioteca de Kafitos – Erópos, rebaptizada com o nome do guarda-livros que a fez crescer para sete vezes o seu tamanho original; depois de todas aquelas noites em que dormitava qual passarinho, sempre frágil; depois desses dias em que correu três vezes o Império desde o Promontório-Este à Colina do Temor Celeste, nessas horas em que os jovens saboreavam o descanso; depois de perder a voz por tantas indicações ter oferecido aos seus pares, Genovívio tornou-se O Sábio por aclamação, e Imperador não só pelas leis naturais e humanas mas também por convicção do povo por si orientado.

Nesse dia 1001 na era pós dilúvio, nessa hora em que Genovívio recolheu ao seu palácio, agora uma casa como a de qualquer outro seu par, todo o povo assomou à rua e, pela primeira vez em 2001 dias, pode redescobrir esse tépido azul da cor dos jardins, com o seu quê de soturno e melancólico, anunciando uma dimensão tão apaziguadora quanto imprevisível. Foi aí, nesses idos de contemplação, que o povo olhou para o seu lar, “O Império do Povo em Unidade” ou, como agora pregava Genovívio, no resultado do estudo desses dias em que se resguardava no último dos pisos da Biblioteca Kafitos, “A República”, e esqueceu os 1000 dias em que sobrevivia no que das casas restava, alimentando as horas de dor primeiro a jogos de cartas e depois de paciência.