#13 às terças, quase como acaso

por TR em terça-feira, 30 de dezembro de 2008

1. Surge este texto num registo pouco habitual, pelo menos às terças. Normalmente aqui se contam histórias, às vezes de uma só frase. Num dia, foi uma citação. Hoje é mais singelo, uma mera reflexão (um pouco a brincar), na primeira pessoa. Não que o não faça nas terças comuns, porque o faço; tão somente, esquivo-me atrás de um outro registo, mais evasivo, menos pessoal mas, porventura, mais intimista.
2. Li, recentemente, uma passagem d’ “A rebelião das massas” (seja pela extensão do livro que, não sendo muita, é suficiente para perder bastante tempo à procura da parte referida; seja por falta de vontade – mais coloquialmente – preguiça, não a irei colocar aqui) que dizia – embora melhor – ser a língua o reflexo do povo que lhe dá origem. Pareceu-me uma asserção tão certeira que, desde então, dela me lembro bastantes vezes. Consideração simples, perspicaz, evidente…e, precisamente por tal, tão poucas vezes alcançada. Parece ser esse o fado das funções vitais (biológicas ou sociais) – o esquecimento. Quem se lembra, durante o dia, que respira (salvo quando a respiração esteja irregular)? Quem se lembra, no dia a dia, ver uma considerável parte da sua vida regulada por normas jurídicas (salvo quando surge um litígio)?
3. Sim, é evidente que a língua é o espelho do povo que lhe dá forma. A palavra responde a um problema: a necessidade de comunicar algo. Assim, o escolástico não precisava da palavra automóvel – precisamente porque não havia automóveis à época. Ou o Romano não teve de conhecer esse cardápio de expressões latinizadas que servem para designar todas as espécies vegetais e animais, porque a biologia ainda não tinha surgido. Da mesma forma, o homem comum não precisa de todas as palavras que se perderam no tempo. As palavras nascem e morrem da necessidade de designar “realidades”, servem a comunicação. Onde nasça uma necessidade de palavra, nasce – imagine-se lá…- uma palavra. Onde aquela que se esfume, esta evapora-se (ou, o inverso, se melhor resultar esteticamente).
4. É então, claro, que a língua seja o tal espelho (ainda que reflicta um retrato parcial, mesmo um espelho só nos mostra um dos lados do corpo) do povo que lhe dá origem. Nem que seja porque demonstram quais as necessidades de comunicação desse povo. É, então, curioso, ver como certos domínios apresentam um conjunto de palavras depuradamente trabalhadas (por comodidade, usarei expressões do mundo do direito). Vejamos: só para situações jurídicas, encontramos ónus, com os seus lados activo e passivo, poder, faculdade, direito subjectivo, dever jurídico, estado de sujeição, dever geral, dever específico. E nos factos jurídicos, melhor ainda: puros factos jurídicos, simples actos jurídicos, actos jurídicos quase negociais/ quase negócios jurídicos, negócios jurídicos unilaterais e bilaterais, e estes, que são os contratos, novamente unilaterais e bilaterais … E todas estas expressões cunhadas por um restrito grupo da população. De onde se conclui algo: os povos precisam do direito, e de expressões cuidadosamente lapidadas.
5. Todavia, quando falamos de amor, as palavras são tão parcas que, não raro, se ouve dizer que há vários tipos de amor: aqueles mesmo a sério, e depois aquele dos pais, e depois dos amigos
“isso é amizade”
“não, é uma espécie de amor diferente”
E depois gosta-se mesmo a sério, não se sabe o que é, enfim. Quem quer que tenha uma qualquer conversa sobre a temática descobrirá as limitações linguísticas que limitarão o seu discurso. Quanto a verbos, temos dois: gostar e amar. E é tudo.
Não será o amor uma necessidade? Claro que sim (pelo menos, o amor é ponto característico do ser humano). Mas isto apenas reflecte uma particular dimensão da sociedade: a ideia de que há domínios da vida pública – que deverão ser comunitariamente discutidos e que, com tal, geram novas palavras – e domínios da vida privada, verdadeiramente arredados da reflexão comum. Por outro lado, demonstra uma velha prática desde há muito presente: a ideia de que há realidades que não são para ser faladas, mas vividas, seja lá o que isso for (curiosamente, os falantes da língua inglesa ficam-se pelo verbo To Love, ao invés dos nossos dois, gostar e amar…povo reservado).
6. Não sei se tal é bom ou mau. Sei, isso sim, que permite uma incrível repetição de experiências entre gerações, com jovens e jovens sucessivamente ineptos perante uma realidade que lhes surge do nada – e que aprendem chamar-se amor.
Permito-me citar uma passagem (Paul Auster, Homem na Escuridão, Edições Asa, p.125):
“durante esse breve percurso, quase, quase, no início, ao fim de talvez dez ou doze passos, a tua avó deu-me o braço, e a excitação desse momento permaneceu até hoje no coração do teu avô…Foi Sónia quem deu o primeiro passo. Não havia nesse gesto nada de abertamente erótico – era apenas uma maneira de me dizer sem palavras que gostava de mim, que gostara daquele momento que tínhamos passado juntos, e que queria voltar a ver-me – mas esse gesto significou tanto para mim…e deixou-me tão feliz que quase me dava uma coisa…Depois, veio a porta. A despedida à porta, a cena clássica de todo e qualquer namoro que começa a desabrochar…O que eu devia fazer? Beijar ou não beijar? Despedir-me com um mero aceno da cabeça ou com um aperto de mão? Passar com os dedos pela face dela? Puxá-la para mim e abraçá-la? Tantas possibilidades e tão pouco tempo para decidir…Como ler os desejos de outra pessoa, como penetrar nos pensamentos de alguém que mal conhecemos? Eu não queria assustá-la, e por isso não podia adoptar um comportamento demasiado atrevido…Mas também era preciso que ela não ficasse a pensar que eu era uma alma tímida que não sabia o que queria…Teria, portanto, de escolher o meio-termo…Meio-termo que eu improvisei da seguinte maneira: pus as minhas mãos nos ombros dela, inclinei-me para a frente e para baixo (para baixo porque ela era mais pequena do que eu) e colei os meus lábios aos dela – com bastante força…”
7. Nem sempre o amor foi assim, por certo. Nem sempre será assim, por identidade de razão. Mas, sem dúvida, e não ser que muito mude o estado da arte, continuará o jovem a sentir-se, ainda que o não revele, desajeitado a dada altura da sua vida, porque é algo de novo, que não conhece, que não estudou, que não aprendeu, que lhe aparece à frente. E, não obstante alguns embaraços e rubores, é um espectáculo bonito.
E, claro está, humano.


Tutto é bello,
(ou, para quem prefira, a vida é maravilhosa.)

2 comentários

Que texto, este!
Tão diverso quanto, afinal, unitário. Despertou-me algumas reflexões.

1. Lembro-me que quando li essa parte no livro de Ortega, estava embrenhado na preparação de uma apresentação de um trabalho de Direito Internacional sobre o País Basco. Por isso foi com um subversivo sorriso nos lábios que li que era a Língua, mais do que qualquer outro factor, a expressão genuína e autêntica de um povo. (coincidência/ironia das coincidências/ironias: Ortega é espanhol).

2. “Por outro lado, demonstra uma velha prática desde há muito presente: a ideia de que há realidades que não são para ser faladas, mas vividas, seja lá o que isso for (curiosamente, os falantes da língua inglesa ficam-se pelo verbo To Love, ao invés dos nossos dois, gostar e amar…povo reservado)”.
Duas observações: os ingleses também usam, por vezes, com a mesma propriedade que nós usamos, o "gostar" na forma do "to like". "I like you" é recorrente.
Quanto às tais realidades existentes não para ser faladas, mas vividas, permite-me acrescentar um elemento que o teu escrito me lembrou: as realidades que não existem, que não são faladas mas que passarão a ser faladas. Falo de sentimentos, sensações e outros aspectos sensoriais, meta-linguísiticos se quiseremos, que não sendo "falados" até então, são convertidos em linguagem. Quantas vezes criam os amantes palavras e expressões (a maioria das vezes indecifráveis para o resto do mundo) que se revestem desses tais aspectos sensoriais que só eles conhecem, cultivam e partilham? Não será isto mesmo um dos aspectos mais belos no Amor? Afinal de contas, no Amor, entre outras coisas, transcendemos essa entidade omnipresente, diria mesmo omnipotente, que é a Linguagem...

3.
O excerto do Auster é belíssimo, Tiago. Desejo sinceramente que essa "falta de jeito" (não me lembro neste momento de um termo mais prosaico) momentânea perdure. Mas também creio que há diferentes graus de "faltas de jeito", aos quais correspondem diversos estádios de sentimento.

Amor e Linguagem... inexoravelmente presentes na existência humana e objecto da sua reflexão. E que bom que assim é!

Um abraço.

by Francisco on 30 de dezembro de 2008 às 14:16. #

noronha, escrevi um comentario que, depois, nao sei como, nao apareceu.

pah...isso do pais basco diz tanta coisa sobre os gajos...principalmente o nao se saber a origem da lingua! o que, de resto, aprendi na tua apresentacao :P

2. o que eu quis dizer com os verbos é que o alcance do verbo amar é muito mais restrito que o do to love. v.g., acho que genericamente traduz.se "i love my parents" por "eu gosto dos meus pais". Não é? o meu ingles é fraquinho.

quanto ao vocabulario proprio ha uma fenomeno engraçado: é que sao palavras privadas, que nao se aplicam em mais nenhuma relacao. São as palavras a cimentar alguma coisa de pessoal, o que é giro. Só servem para aquelas pessoas, só aquelas percebem o seu alcance. São as palavras como sustentaculo de algo.

por fim, acho tb o excerto do auster giro. E, de facto, ficar sem jeito é algo de muito engraçado e...inominável! ha um poema da sophia de mello breyner andersen que acaba assim "o amor é o amor...e depois?"

dá vontade de dizer:
"Amor e Linguagem... inexoravelmente presentes na existência humana e objectos da sua reflexão. E que bom que assim é!"

Um abraço

by Tiago Ramalho on 30 de dezembro de 2008 às 19:06. #