ANARQUIA

por João Fachana em domingo, 30 de novembro de 2008

Nove horas e quinze minutos

- Como estão as coisas? – Perguntou Tiago a Vanessa, enquanto conduzia em direcção a Chelas.
- Como assim?
- O teu divórcio…
- Oh, nem me fales. Estou farto daquilo. O advogado dele tem feito de tudo para abrandar o processo o mais que pode. Ele sabe que eu tenho razão e mereço tudo aquilo que pedi. – Retirou um cigarro do seu maço. – Posso?
- Claro.
Vanessa acendeu o cigarro e abriu a janela do carro.
- Ainda falta muito?
- Não, devemos estar quase a chegar. – Respondeu Tiago.
O telemóvel de Vanessa começou a tocar dentro da carteira. Vanessa retirou-o. Era uma chamada anónima. Atendeu.
- Estou?
- Mamã?
- Sara? O que é que foi filha?
- Está aqui um senhor que quer falar contigo. – A voz de Sara soluçava.
- Mas filha, espera aí, está tudo bem contigo?
Vanessa já não ouviu resposta da filha.
- Está? Está? Sara?
- Bom dia, Sra. Matos. Tudo bem consigo? – A voz calma de um homem surgiu do outro lado da linha.
- Onde é que está a minha filha? Onde é que ela está? – Vanessa começou a gritar para o telemóvel.
- O que é que se passa Vanessa? – Perguntou Tiago, enquanto encostou o carro na berma da estrada.
- Sra. Matos. Acalme-se. A sua filha está aqui ao meu lado. Ela está bem. E vai continuar a estar bem desde que faça tudo o que eu disser.
- O que é que quer? – Perguntou Vanessa, branca como a cal.
- Vanessa o que é que se passa? – voltou a perguntar Tiago, tentando-lhe tirar o telemóvel, mas Vanessa não o deixou e saiu do carro.
- Sra. Matos, presumo que esteja a caminho de Chelas, da Zona J, para fazer a sua reportagem. Pois bem, volte para trás e venha para a escola da sua filha. Seja rápida, tem de cá chegar antes das dez menos um quarto, percebeu? Ou a sua filha morre.
Ao ouvir aquela última palavra, Vanessa sentiu as suas pernas fraquejarem e caiu no chão.
- Sra. Matos? – Perguntava a voz do telemóvel.
Vanessa voltou a si, pegou no telemóvel rapidamente e respondeu:
- Sim, estou aqui. Diga.
- Traga uma máquina de filmar e alguém que saiba usá-la. Tem meia-hora, não se atrase, pelo bem da sua filha.
- Espere! Quem é você?
- Não lhe interessa, por enquanto. Apenas venha até à escola. E não contacte a polícia ou a sua filha morre. Entendeu? Não contacte a polícia.
- Sim…
A chamada terminara. Vanessa estava apática. Como é que isto lhe tinha acontecido?
- Vanessa? – Era Tiago, que mais uma vez a chamava.
- Sim… Desculpa.
- Que chamada foi essa?
- Alguém tem a minha filha refém. Temos de ir até à escola dela.
- Vamos é telefonar à polícia! – Disse Tiago, enervado.
Tiago pegou no telemóvel de Vanessa e começou a marcar o 115, quando Vanessa o impediu.
- Eles matam a minha filha se ligarmos à polícia.
- Como é que eles sabem que nós vamos ligar à polícia?
- Não sei… Mas tenho medo. É a vida da minha filha que está em jogo. Por favor, não ligues. Vamos fazer o que eles querem.
- Muito bem. Entra no carro. Eu conduzo.

***
- A mulher estava petrificada de medo, pude senti-lo na voz dela. – Disse Anarquia a Fernando, logo após ter desligado o telemóvel. – Dois dos teus homens que tragam a bomba para o polivalente.
- Muito bem. Vou já tratar disso. – Respondeu Fernando, saindo da beira de Anarquia.
Anarquia baixou-se, de modo a ficar da mesma altura que Sara Matos. A menina tinha dez anos, acabada de entrar para o quinto ano. Não tinha ouvido a conversa entre Anarquia e a sua mãe.
- A tua mãe já vem aqui para o pé de ti. – Disse-lhe Anarquia. – Não estejas assustada, vai tudo correr bem. Volta para a beira dos teus amigos.
A rapariga foi a correr e a chorar até à beira dos colegas da turma dela e da directora de turma. Um dos cuidados que Anarquia teve foi o de dividir os alunos pelas turmas e deixá-los com os directores de turma. Um adulto no meio de cada trinta crianças ajudaria a mantê-los na ordem. Afinal, ele não tinha em mente matar nenhuma criança a menos que fosse estritamente necessário. Olhou em volta. Um rapaz, já crescido, na casa dos treze anos, tinha as calças molhadas. Fez sinal a um dos homens para o ir buscar e levá-lo à beira dele. A professora, directora de turma do rapaz, ficou nervosa e por momentos tentou impedir o homem de o agarrar, mas bastou um olhar acutilante de Anarquia para a mulher e ela ficou imobilizada. O rapaz já chorava quando o homem o trouxe para a beira de Anarquia.
- Porque choras rapaz? Já és um homem crescido. – Disse Anarquia, não procurando ficar à mesma altura do rapaz desta vez.
- Tenho medo. – Respondeu, entre soluços e lágrimas.
- Como é que te chamas?
- Salvador.
- Bem, Salvador, vou-te contar um segredo. A melhor maneira de reagires a situações como estas, sabes qual é?
- Qual?
- É pensares para ti próprio que já estás morto. Assim, tudo se torna mais fácil de suportar. E de sobreviver.
E, de repente, Salvador parou de chorar. Olhou para Anarquia. Anarquia sorriu. O rapaz inspirou fundo e voltou para o lugar. Entretanto, Fernando e dois homens reentraram no polivalente segurando num grande caixote castanho. Carregavam-no com um extremo cuidado. Pousaram-no à beira de Anarquia. Fernando perguntou-lhe:
- Retiramos já a bomba da caixa?
- Não, deixa-a estar ainda dentro. Afinal não queremos iniciar o pânico aqui dentro quando ainda não existe pânico lá fora.