Recomendação de fim-de-semana

por Duarte em sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Em Serralves continua o ciclo dedicado a Manoel de Oliveira. Recomendamos vivamente o filme que amanhã passa: «Vale Abraão». Para muitos, é a obra-prima do decano dos realizadores. Um filme que retoma um certo fulgor perdido desde «Francisca», obra que fecha a tetralogia dos amores frustrados.


«Vale Abraão», segunda colaboração entre Agustina Bessa-Luís e Oliveira, é a transposição da Madame Bovary de Flaubert para o Douro. A obra passa-se nas magníficas paisagens do Douro. Os planos repartem-se, esfumados, em zonas como a quinta que dá o nome ao filme e a Quinta do Vesúvio, perto do rochoso Douro Internacional. À beira deste rio sem cantores – palavras de Agustina a abrir «Fanny Owen» – está Ema Cardeano. Uma mulher singular, perdida num mundo que parece tão longínquo mas ao mesmo tempo tão próximo. Ela é a mulher-fatal. A mulher-desejo que atrai os homens para a sua rede de afectos, mas que os homens não podem, nem querem, saber amar. Ema, interpretada brilhantemente por Leonor Silveira, é aquela mulher por quem os homens se sentem irremediavelmente atraídos, e por quem as mulheres têm uma imensa inveja. Não podem ser como Ema. A leviana Ema. Mas ao mesmo tempo a Ema perdida nos abismos da incompreensão.

Esta obra funciona também como uma crítica ao país pequeno e ensombrado. Várias referências, nesse microcosmo do Douro, são feitas à situação que se vai passando ao longo dos anos do filme – desde os finais dos anos 60 até à década de 90. O Douro surge um pouco como metáfora disso. Aliás, como nota muito bem João Bénard da Costa, «Vale Abraão» é um filme “sem céu”. Explica o crítico a ideia, mostrando que esta obra de Oliveira “é o filme da noite”. A própria banda sonora transmite essa ideia. Os clair de lune de Debussy, Fauré e Schumann e a sonata ao Luar de Beethoven. Porque mais uma vez a temática da morte está presente no cinema de Oliveira. Ema, Carlos e as outras personagens perdem-se nas profundezas de um Douro onde o puro amor é impossível. A temática é parente com a da tetralogia. Porém, «Vale Abraão» vai mais longe. Espécie de actualização de um tempo novo em que estamos. O amor profundo já não leva à morte. Antes a sua falta é que faz deixar de ter vontade de viver.

Todo o modo como Oliveira aborda estes temas é magnífico. Filme que herda da literatura o seu cerne, mas que só na magia do cinema é possível. Com isto o realizador atinge quase a sua perfeição. Brilha génio num filme que se quer sombrio, onde as sequências solares anunciam o desespero do fim das relações humanas. Por fim, fica a mensagem de Agustina e do mestre do cinema luso. A voz do narrador, na sequência final, paira sobre as águas que acabaram de receber Ema para explicar o epílogo das outras personagens. E relata o fim de Carlos e dos outros. Fala também de um último romance escrito por Maria do Loreto (Glória de Matos) – mulher contraponto de Ema no filme – em que explica que nada do que escreve é importante. Mas que isso transmite a ilusão de que se “viveu uma bela vida”. Romance e cinema como vida. Eis a súmula final desta grande obra de Manoel de Oliveira.

Por tudo isto, recomendamos amanhã a visualização deste magnífico filme, em Serralves, com bilhetes a um preço muito acessível: 2,5€.

João Duarte Sousadias