I

por henriquemaio em sábado, 4 de outubro de 2008

As pessoas agem como se tudo que conhecessem fosse algo de certo ou com tendência a alcançar tal, todavia, a partir do momento em que as estruturas basilares das suas (ditas) verdades são tocadas, começam a entrar no processo oposto: o declínio triunfal e a angústia. Este momento é o (re)conhecimento da primeira das aporias a ter em conta: a do Tempo.
Muitos teimam em dizer que vivem por viver outros que vivem os momentos e, ainda, existem aqueles que nunca tiveram uma preocupação aflitiva. A minha única reacção face a tal é simultaneamente uma dialéctica entre um profundo pesar e um certo ciúme descontrolado.
Os cépticos sapientes ou os que mais viveram tendem a desvalorizar a opinião daqueles que pela sua estrutura, estatura ou maturidade biológica são o seu contraste: os jovens. É presumível que da juventude possa surgir um pensamento maduro capaz de fazer vacilar até as mais fundas e enraizadas convicções? Será que a “verdade” (ou veracidade?) é alcançável não por aqueles que já “viveram” quanto baste, mas sim por aqueles que teimam em tentar viver desde cedo as angústias do tempo e, mais que isso, tentam conhecer-se profundamente e ao seu próximo.
Engraçado: o cepticismo sapiente ou maduro contra a irreverência pouco erudita de uma aurora matinal que teima a sufocar-se a si mesmo estão somente separados por uma linha ténue: a da possibilidade de serem ou não influenciados. Claro está, que assim dito, parece uma qualquer incoerência de discurso, porém, é de notar que os ditos sapientes, os vividos, são pessoas em que as suas estruturas intelectuais estão já consolidadas e apodrecidas, de tal forma que não há no seu livre arbítrio a procura por algo novo, e em último caso, por uma nova crença; quanto aos mais jovens, os pouco maduros, é certo que as suas próprias atitudes (e por questões da própria ontologia) são passíveis de influência e é deles que pode partir certa e determinada mudança. Falta esclarecer, ainda, o tal sufoco dos mais novos, a este ponto, friso a aporia ôntica, do ser ou da existência. Pertinente focar a relação entre ser enquanto essência e ser enquanto existência, é que de aparentes sinónimos, escalpelizando o seu conteúdo chegamos ao “lugar-comum”: “existência precede a essência”.
Teimo em mim que tal sufoco é uma constante intemporal, daí ser possível hipoteticamente (ou utopicamente?) distinguir diversas categorias de personalidades (não direi “Tipos”, pois estaria a relativizar as raízes que pretendo arrancar do conceito “sufoco”): teremos os amargurados racionais, os resignados culturais e, por último, os inconscientes afortunados. Os primeiros, serão os que teimaram em amadurecer mais depressa, os que vivem constantemente pela sua vontade fogosa de tentar assaltar a verdade, contudo são os mais reprimidos de todos, devido à sua absorção constante do Absurdo ou do Ridículo; os segundos, são os absorvidos pelo quotidiano e pelos afazeres, estes estão de tal modos inertes nas suas actividades que não conseguem guardar para eles mesmos uma parcela da sua própria vida; por último, a fortuna vivida pelos ditos inconscientes será aquilo que mais se aproxima da Felicidade ideal ou do Bem-Comum que todos procuramos, é que não ter que viver a aporia existencial é poder viver sem pensamento sem atrasos sem qualquer obstáculo, todavia se há uma utopia, nestas três categorias, será esta última.
Agora é possível colocar-se uma questão relativa ao porquê da demarcação destas categorias se elas mesmas são somente hierarquizadas numa estrutura deôntica, mais que isso, num topo idealístico; a solução, não a resposta a questão, encontra-se na conjugação das três categorias, o que resultara noutros tantos géneros e assim sucessivamente até ao infinito.
Relacionando Tempo e Influência, apenas dois apontamentos a reter: (1) o castigo que os cépticos sapientes aplicam aos seus aprendizes, por vezes, ignorando-os e humilhando-os profundamente numa teia complexa de mentira e de dogmas; (2) e a eterna dor do Tempo, indissociável da própria condição humana, que impele os mais petizes a revoltar-se contra os sistemas estabelecidos a priori.


O mundo é um palco, uma peça de teatro, um livro! O Tempo cria a linha: Prologo, Início, Vida, Fim, Epílogo. Resta saber se, nesta peça, as marionetes têm na realidade livre arbítrio… resta saber se elas mesmas percebem o significado de tal!

henriquemaio