ANARQUIA

por João Fachana em domingo, 12 de outubro de 2008

Oito horas:

Um homem, sentado no lugar do condutor de um carro cinzento, fumava calmamente um cigarro, enquanto olhava para as crianças que entravam no portão da escola, do outro lado da estrada.
- Quantas? – Perguntou a um outro homem que estava a seu lado e que também as observava.
- Duzentas e quarenta até agora.
- Falta alguém importante?
- Sim, a filha da jornalista.
O homem bateu com o punho no tablier.
- Precisamos dela! Ela tem de aparecer!
- Não te preocupes, controlamos tudo muito bem, nenhum dos putos está doente, de certeza que é só um pequeno atraso.
- Espero bem que sim. Ela é essencial.
E, com efeito, momentos depois, saía de um carro preto uma rapariga loira e mais duas amigas.
- Estás a ver, ali está ela.
- Óptimo, Fernando. Os teus homens estão a postos?
- Sim. E o dinheiro de que falaste, é mesmo seguro?
- Sim, é. Dez milhões, um milhão para cada um de vocês.
- Eles pagam? Até agora nenhum sequestro deu proveito aos sequestradores.
- Desta vez pagam, é seguro, garanto-te. Tenho o plano bem estudado.
- Assim o espero. Não me queres mesmo dizer o teu nome? Depois de tantas conversas, acho que poderíamos deixar de te tratar por esse pseudónimo.
- Fica como está. – Disse o homem, dando as últimas passas no cigarro e deitando-o para a estrada. – Afinal, não me tomes por burro, bem sei que o teu nome verdadeiro também não é Fernando.
- Pelo menos não é tão excêntrico como o teu. Até pareces um vilão de banda desenhada.
- Eu sempre gostei muito de banda desenhada. Especialmente de vilões.
- Bem me parecia que sim, Anarquia.
***
Vanessa Matos conduzia a toda a velocidade, em direcção à estação televisiva onde trabalhava. Tinha acabado de deixar a filha e as amigas na escola e já estava atrasada. Tinha combinado com o Tiago Barros, o seu câmara, às oito horas e um quarto na entrada da estação. Iria fazer uma entrevista importantíssima para a sua reportagem e não queria chegar atrasada.
Vanessa sintonizara o rádio do carro na TSF, onde se ouvia um colega seu a referir-se ao debate parlamentar que iria ocorrer, hoje, sobre o Estado da Nação. Seria mais um debate inútil daquele parlamento, pensava Vanessa, como sempre. Iriam lá estar todos os bananas, desde o Primeiro-Ministro e os seus Ministros até aos líderes da oposição e deputados. Após todos estes anos, em que Portugal ia de mal a pior, Vanessa interrogava-se como é que ainda nenhum maluquinho se lembrara ainda de pôr uma bomba no parlamento. O telemóvel tocou. Era Tiago. Vanessa atendeu.
- Estou quase a chegar, Tiago. Dez minutos.
- As mulheres fazem-nos sempre esperar. – Gozou.
- Foi a Sara. Demorou-se a arranjar.
- Mas hoje não era o pai dela a ir levá-la?
- Era, mas telefonou à última da hora a dizer que não podia. Estafermo.
- Deixa lá isso.
- Pelo menos vai buscá-la às cinco. Espero que não se esqueça. Não seria a primeira vez.
- Não se esquece, vais ver.
- É bom que não. Olha, vou desligar, a polícia está ali mais à frente. Beijo.
- Beijo. Amo-te.
- Eu também.
E desligou.