TV

por Ary em quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

A televisão é hoje (por enquanto, acrescentarão alguns) o mais importante veículo de transporte de ideias e de notícas. As pessoas baseiam grande parte das suas opiniões sobre o mundo que as rodeia baseadas naquilo que vêem. E vêem muita coisa. Só a título de exemplo, segundo um estudo de David Bauder ("Average home has more TVs than people", Associated Press, 21 de Setembro de 2006) o americano médio vê 4h45min de televisão por dia (três quartos de todo o seu tempo livre). Isto até poderia nem ser muito mau se a televisão funcionasse como um instrumento de democratização do conhecimento e de purificação do sistema mas todos sabemos que, em regra, não é assim.

[deixo-vos com um texto do ex-vice-presidente Al Gore]

"Em finais do Verão de 2006, a cobertura noticiosa americana esteve saturada com o caso bizarro da falsa confissõa de um homem que afirmou ter estado presente no momento da morte de JonBenét Ramsey - a rainha da beleza de seis anos cjuo assassínio não resolvido onze anos antes foi responsável por mais uma obsessão. Uns meses antes da detenção de John Mark Karr em Banguecoque, o desaparecimento de uma finalista do secundário em Aruba e a busca intensiva do seu cadáver e do seu suposto assassino absorveram milhares de horas de cobertura noticiosa pela televisão.
(...)
Tal como JonBenét Ramsey, O. J. voltou a dominar mais um surto de notícias obsessivas compulsivas quando a sua não confissão hipotética não foi publicada e a sua entrevista na televisão não foi transmitida. Esta explosão específica de "notícias" apenas cessou quando uma antiga estrela de comédias televisivas proferiu insultos racistas num espetáculo humurístico num clube. E, antes disso, as atenções estiveram concentradas no caso da noiva da Geórgia que fugiu nas vésperas do casamento. E, antes disso, houve o julgamento de Michael Jackson e o julgamento de Robert Blake, a tragédia de Laci Peterson e a tragédia de Chandra Levy. E, como é evidente, não podemos esquecer o caso de Britney e KFred, e o Lindsay, de Paris e de Nicole. Tom Cruise saltou para o sofá da Oprah e casou comKatie Holmes, que deu a luz Suri. E Russel Crowe, ao que parece, atirou um telefone ao porteiro de um hotel.
Em prinípios de 2007, a cobertura ininterrupta da morte e planos do funeral de Anne Nicole Smtih, e a polémica em torno da paternidade e costódia da sua filha e o destino do seu patrimmónio foram mais um exemplo particularmente bizarro das novas prioridades da cobertura noticiosa na América."

5 comentários

E o mais engraçado disso tudo é que Al Gore foi vice-presidente de uma administração norte-americana que, ao que consta, nunca teve um papel visível na limpeza ou, para ser mais brando, no condicionamento deste tele-lixo. Pelo contrário, como qualquer administração norte-americana, esteve bem por detrás da televisão e outros media (jornais e outros) e em estreita colaboração com os lobbys a eles associados.
Porquê que Al-Gore insiste nesta faceta messiânica? Se condena desta forma a televisão norte-americana, porquê que nunca teve a iluminada ideia de, por exemplo, sugerir a criação de um serviço público televisivo de excelência e rigor? Não sei, é só uma ideia.
Faz-me confusão aquelas pessoas que, depois de contribuirem para as asneiras, e Al-Gore contribuiu para muitas, vêm depois mostrar que, afinal, está tudo mal.
Charlatões.

Um abraço

by edukador on 13 de fevereiro de 2008 às 23:21. #

Nem se vê que andas a ler um livro do Al Gore nem nada,lol;)

by João Fachana on 16 de fevereiro de 2008 às 15:05. #

Edukador,

Al Gore não é santo nenhum e de facto acho que não fez nada para "limpar o tele-lixo" durante o tempo em que foi vice-presidente, no entanto creio que com a criação da estação televisiva "Current TV" depois de sair dessas lides limpou o seu cadastro.
A estação procura democratizar o acesso à televisão enquanto forma de divulgação de conteúdos, e colocá-la ao serviço da cidadania. Não sei que frutos tem tido, mas a ideia é boa.

Abraço

by Pedro Ary F. Cunha on 17 de fevereiro de 2008 às 16:48. #

Nós, por cá, temos a Maddie... Espero que n a encontrem porque quero continuar a almoçar e a jantar acompanhada pelos supostos retratos-robôs do sequestrador e pelos pedidos de ajuda dos pais!

Quanto ao "pare-se o tele-lixo", cautelas, cautelas...

E deixo uma pergunta (que fique tlv sem resposta por parte dos intervenientes :p), é o tele-lixo que se impinge em nós, ou somos nós que nos impigimos o tele-lixo?

Por mim tudo bem, desde que não me tirem o Cláudio Ramos!! :p

by White Castle on 18 de fevereiro de 2008 às 21:41. #

White castle,

claro que a pergunta não vai ficar sem resposta. Mas penso que ela é bastante óbvia, já que é a mesma para todas as realidades culturais: nós somos o meio cultural em que nos inserimos (resto são pouco mais que meras possibilidades concretizadas ou não). Nós falamos a língua que ouvimos falar. Claro que levar este pensamento ao extremo seria negar a liberdade, seria concluir que mesmo nós, seres humanos, somos incapazes de tomar decisões livres; que haveria um destino que, previamente traçado ou não, determinável ou não, seguiriamos mesmo quando estivessemos convencidos que dele estavamos a fugir.
Eu acredito, ou eu tenho de acreditar para me conseguir levantar de manhã, que as minhas acções são capazes de mudar o mundo, ou pelo menos aquela parte do mundo que anda mais pelas minhas bandas e que tal se deve a uma decisão "minha", uma "objectivação da subjectividade", uma expressão da minha liberdade, da minha razão e não da minha determinação face aos meus instintos ou face à cultura.
Claro que o tele-lixo só existe porque há quem o veja, e o argumento de que só há quem o veja porque ele existe não é grande coisa a não ser que se prove que só a existência de oferta cria a necessidade que esta vem saciar. O fenómeno já é estudado há algum tempo, e se é hoje seguro afirmar que assim acontece com pelo menos parte das necessidades, não será totalmente errado dizer que tal acontece com as necessidades de tele-lixo.
E quanto às cautelas recomendadas: que se proteja quem tem telhados de vidro. Nunca vi mais de 10 segundos de um "Reality Show", não vejo programas da manhã, nem programas da tarde, nem telenovelas e evito o "Jornal Nacional". Também não vi mais que duas dúzias de vezes o "Acontece" (já dava para uma viagenzinha numa low-cost) não vou festivais de curtas e filmes portugueses geralmente só com mais de 50 anos, digo "é suposto" e não gosto da Antena 2, mas podem ter a certeza que o tele-lixo não existe graças a mim.

Abraço

by Pedro Ary F. Cunha on 18 de fevereiro de 2008 às 22:32. #