Bob Dylan: a música no Direito

por C em terça-feira, 20 de setembro de 2011

"Em meados dos anos 1960, nas noites de verão, o aparelho de televisão a preto e branco crepitava na sua casa, em Staten Island, Nova Iorque, difundindo informações sobre o Vietname e os surtos de violência que sagravam no Sul do país [em resposta ao movimento pelos direitos dos negros norte-americanos]. Bobby Lasnik ia então para o quarto, deitava-se na cama e deixava o hino do movimento pelos direitos civis penetrar na sua alma sensível de adolescente. Ligado à estação de rádio WBAI, ouvia lamentos carregados de injustiça, canções que teria presentes para o resto da vida. "De repente, alguém usava a linguagem da verdade, era uma coisa que não era costume ouvir-se na rádio", conta Bobby Lasnik, ao recordar a primeira vez que escutou uma canção de Bob Dylan. "Nem me lembro de que música era, mas adorei o imaginário, as palavras - palavras que nunca tinha pensado em associar - e as ideias que provocava na cabeça ao ouvi-las." Agora, o imaginário circula no sentido inverso. O juiz Robert Lasnik - que hoje é tratado por meritíssimo e não por Bobby - é conhecido por invocar o poeta errante nas decisões do Tribunal Federal de Seattle. Foi buscar excertos de Chimes of freedom, num caso que punha em causa a legalidade da detenção sem julgamento, e The times they are a-changin', o grito de guerra do Movimento dos Direitos Civis, num julgamento que fez história, em que a exclusão de meios de contraceção do plano de seguro e medicamentos dos funcionários pela entidade empregadora passou a ser delito de discriminação sexual. Lasnik não é o único a inserir o lirismo contestatário de Dylan no discurso jurídico em vigor. Alguns juristas analisaram a influência do cantor no mundo jurídico atual. Veredicto: nenhum outro músico foi tão frequentemente citado nos tribunais. De decisões do Supremo Tribunal até aos cursos de Direito, os textos de Dylan são retomados para ilustrar os equívocos da lei e dos tribunais. As suas letras icónicas de protesto, Blowin' in the Wind e The times they are a-changin', deram voz a manifestações pela paz e pelos direitos civis. As suas baladas mais incisivas, The lonesome death of Hattie Carroll e Hurricane, inspiram os "retratos jurídicos" do nosso tempo, mostrando a que ponto a música é capaz de veicular uma ideia. (...) Em 2007, durante todo um semestre, Alex Long passou a pente fino as bases de dados jurídicas para detetar as músicas mencionadas nos registos dos tribunais e em artigos em publicações especializadas. Daí resultou o seguinte top 10: Dylan, à cabeça, com 186 citações, muito à frente dos Beatles (74), Bruce Springsteen (69), Paul Simon (59), Woody Guthrie (43), Rolling Stones (39), Grateful Dead (32), Simon & Garfunkel (30), Joni Mitchell (28) e R.E.M. (27). Uma das frases mais citadas é extraída de Subterranean homesick blues, que é um dos dez maiores êxitos de Dylan. Meia dúzia de julgamentos de tribunais da Relação da Califórnia referem-no quando querem expressar a ideia de que um parecer pericial não é necessário para provar o óbvio para os leigos: "You don't need a weatherman/ To know which way the wind blows" [não é preciso um meteorologista/para saber de que lado sopra o vento]. (...) A canção [Hurricane] conta a história de polícias racistas, um juiz desonesto e um júri parcial, que enviou Carter para trás das grades com dupla condenação perpétua. No entanto, um juiz federal conseguiu (em 1985) anular a condenação de Carter, alegando que a acusação tinha sido "baseada mais no racismo do que na razão". Allison Connelly considera que a versão de Dylan, que vê neste caso uma armadilha, pode ter influenciado a promulgação e aplicação de leis proibindo operações stop sem motivo e impedindo os queixosos de demitir um jurado por critérios raça. Um dos primeiros grandes processos de Robert Lasnik, após ter sido nomeado para o Tribunal Federal pelo Presidente Clinton, em 1998, envolvia imigrantes ilegais, passíveis de expulsão e detidos há vários anos. Nessa ocasião, o juiz citou Chimes of freedom, recordando a simpatia do artista pelos oprimidos e vítimas de maus-tratos. Se juizes como Robert Lasnik, hoje com 60 anos, prestam homenagem a Bob Dylan, o respeito não parece mútuo, sublinha David Zornow, sócio do escritório nova-iorquino da firma de advocacia Skaden, Arps, Slate, Meagher & Flom: "O tipo não diz nada bem dos juízes". Nos volumosos arquivos de canções do artista só encontrou duas referências a juízes humanos e profissionais. A maioria manifesta a corrupção e a instabilidade de humor dos magistrados. E, como um suspeito que invoca o direito de permanecer calado, Dylan recusa-se a comentar o seu papel como musa dos juristas. (...)"


Fonte: "Bob Dylan canta para os pretores", Courrier internacional, Setembro 2011 - nº 187, pág. 64 a 66


Pitas em alta

por Ana Teixeira em segunda-feira, 4 de julho de 2011

A todos os que ainda não entraram de férias, aqui vai uma tentativa de melhorar a auto-estima =)

Pitas em alta

Estão bronzeadas, meninas upper class dançando numa festa de praia, caras lisas que conhecem a boa genética e os cremes hidratantes. Parecem odaliscas, divas com óculos de sol maiores que a cara, sereias zen obedecendo ao DJ na pista de dança. Cai a tarde e podem ver o céu vermelho através das pupilas dilatadas pelas pastilhas e pelo mdma. Estudaram em boas escolas, são universitárias numa cidade estrangeira, algumas já tomaram ácidos, têm boas notas, gostam da vibração das colunas embatendo na armação dos corpos dançantes.



Na beira da pista, observo o ritual da música electrónica e das substâncias que alteram a pele e a consciência. Uma das raparigas, com um calquito brilhante na bochecha e a languidez da felicidade química, aproxima-se para dizer: "Os putos é que sabem." Não percebo e ela repete: "Os putos é que sabem." Não falamos mais.



No dia seguinte, num miradouro aberto ao Tejo, três pitas bonitas e depuradas pelo bom gosto - podiam ter estado na festa da praia - dizem: "Ainda não dormi", "Não há nada como dar para trás", "A mãe da ----- é mestre de reiki". Uma delas tem um coração tatuado no pulso e uma frase no bíceps. Só consigo ler a palavra "love". Pinta as unhas de azul. Outra fala ao telefone: "A minha vida anda muito aborrecida."



Na praia, alguém me tinha dito que os tempos de crise são os mais indicados para o desvario das festas. No miradouro, elas são apenas princesas cheias de graça e têm a vida toda por diante. Penso se os putos, realmente, é que sabem. Claro que não, as pitas sabem muito mais que eles.


por Hugo Gonçalves, Publicado em 23 de Maio de 2011 em www.ionline.pt

por Francisco em terça-feira, 24 de maio de 2011

Num momento tão triste para toda a comunidade académica da Faculdade de Direito da UP, manifesto, em nome de toda a redacção do Jornal Tribuna, o enorme pesar pelo acidente que vitimou a nossa colega Ana Rita Lucas. O Jornal Tribuna envia as suas condolências a toda a família e amigos da Ana Rita.
Que descanse em paz.

Em nome do Jornal Tribuna,
Francisco Noronha.

um abraço à navegação

por Francisco em segunda-feira, 16 de maio de 2011

A todos os meus colegas com quem tive o prazer de trabalhar neste jornal, deixo um abraço grande e sentido, especialmente àqueles que me acompanharam desde os meus primeiros tempos como Director, alguns deles, aliás, os mesmos com quem iniciei o meu percurso académico, que agora termina. Foi bom, muito bom!
À Inês Pinto e à Rita Carvalho, desejo as maiores felicidades na condução deste jornal. Este Tribuna ainda agora saíu e eu já estou ansioso por ver o "vosso"!

Ah!, e não se esqueçam de convidar os "cotas" para os Errâncias... (até porque foram os mesmos "cotas" que o criaram!:))

Até à próxima!
Francisco.


(retirado do Editorial do Jornal Tribuna/Maio 211, papel impresso)

POST SCRIPTUM

Como o meu último número enquanto Director do Jornal Tribuna, gostaria de deixar uma palavra. Tal como os meus colegas antecessores, fui apanhado de surpresa quando, ainda no meu primeiro ano, me endereçaram um honroso convite para ser Director deste pequeno grande jornal.
Grande, porque feito de um entusiasmo genuíno dos estudantes, que em poucos sítios se vê desta forma. Grande, também, pelo rigor e profundidade de quem aqui escreve e colabora. Felizmente, pude ainda conviver com jornalistas (com todas as letras) que, ingenuamente, como eu, ainda valorizam mais a palavra do que a imagem, o “ruído” e a confusão. Pessoas que ainda acreditam – que sonham, como eu – que há quem queira ler uma página inteira de texto com jornalismo sério e informado. Estes são os jovens que, como eu, ainda dão valor à reflexão e conseguem ter a disponibilidade intelectual para se prenderem às palavras e aos pensamentos. Coisa rara, nos dias que correm. Num tempo em que o imediatismo e a "falta de paciência" para ler mais do que 5 linhas de texto são a regra (por isso ouvimos hoje dizer que se lêem mais jornais – pois lêem, mas são os “Metro” e os “Destak”), foi para mim um privilégio trabalhar com pessoas assim (nem todas, é certo) - pensantes.

Pequeno, porque o Tribuna vive e viverá (não direi sempre) num terrível dilema. Como jornal semestral que é (sai duas vezes por ano, no final das contas), de tiragem reduzida (1500 exemplares), vive permanentemente num impasse: ficar como está, que é num nível muito bom mas relativamente “doméstico”; ou profissionalizar-se, passando a fazer mais do que uma edição por semestre, criar uma página Web a sério, organizar conferências, colaborar com outros jornais (universitários e não só), etc. Mas tudo isto implica, pelo menos, três coisas: pessoas, tempo e meios técnicos (e este último implica… já adivinharam). Mais gente para trabalhar e mais tempo para que essa gente se possa dedicar em exclusivo a produzir bom jornalismo. Mas como fazê-lo quando somos estudantes e temos um curso para tirar? Como fazê-lo quando não temos qualquer retorno financeiro por isto?

No primeiro ano como Director, ainda conjecturei, em segredo, duas ou três ideias para avançar para essa maior profissionalização do jornal. Formalmente, não o consegui, não fui suficientemente corajoso e não tive a disponibilidade (mental e temporal) para isso. Profissionalizei-o, no entanto, e modéstia à parte, noutros sentidos: democratizando praticamente todos os processos de decisão internos (o que acarretou custos de “morosidade” inevitáveis, mas suportáveis!); batalhando por um grafismo moderno; procurando pessoas nas áreas da Fotografia e do Design para o jornal; organizando e tentando organizar conferências; procurando fazer do blog um espaço crítico e actualizado, através da manutenção de um painel de colunistas semanal; chamando personalidades importantes da sociedade civil para escrever no jornal (na coluna que hoje é conhecida como “Visto de Fora”); tentando amealhar patrocínios importantes (tarefa hercúlea, quando não vâ); ou incentivando a criação do “Em Amena Cavaqueira”, onde tanta gente reconhecida tem ocupado as páginas do jornal. Não o fiz sozinho, mas com a colaboração e energia dos meus colegas de redacção, a quem agradeço o alento, por vezes fundamental para quem arca com todas as responsabilidades.

Mas se contribui para a profissionalização do jornal, também nunca o deixei de… infantilizar, no melhor sentido possível. E por isso insisti e insisto (às vezes sou chato, bem sei!) com os meus colegas para que nos juntemos todos numa serra qualquer no “Errâncias”, ou para que façamos um “jantar de natal” e uma “troca de prendas”. E isto porque penso, como já escrevi num email lamechas qualquer que lhes enviei a todos há uns tempos, que qualquer organização só funciona com alegria e dedicação (e isso é diferente de funcionar “bem”) quando as pessoas comunicam entre si para além do “Há reunião na quarta” e “Tens que entregar o teu artigo até dia 20”. Porque, e este é um apelo que deixo às gerações futuras, o Tribuna só funcionará com a coesão que tem tido nos últimos anos enquanto houver amizade, cumplicidades, momentos bons de convívio. Sem isso, não há profissionalização que nos valha! E a sermos profissionais cinzentos e desconectados, então deixemo-nos ficar pela Terra do Nunca, esse pequeno gabinete no interior da AEFDUP.
Para esta última, vai o meu obrigado pelo apoio e confiança. Houve horas menos boas, é certo - mas quando é que não as há quando as pessoas são francas e dedicadas às suas respectivas causas?

Não saio, pois, com a consciência de “missão cumprida”, porque sinto que houve passos, os tais da profissionalização, que ficaram por dar. Se calhar porque não soube ou não fui capaz de mais, se calhar porque simplesmente é impossível atendendo ao meio em que o Tribuna se insere e ao período sempre curto de cada direcção.
Levo muita experiência, muitas relações, humanas e até profissionais, do meu período enquanto Director deste nobre jornal, e é nisso que a minha memória se fixa. À Inês Pinto e ao próximo(a) Director(a), desejo as maiores felicidades (e sorte, que também é precisa!) e deixo o desafio para que tomem os passos que eu não fui capaz de tomar.


“E agora eu vou-me embora
e embora a dor
não queira ir já embora
agora eu vou-me embora
e parto sem dor

E parto dentro de momentos
apesar de haver momentos
em que dentro a dor
não parte sem dor”
(Sérgio Godinho)

errata

por Francisco em quarta-feira, 11 de maio de 2011

Queria corrigir o "se dúvidas haviam" que consta do artigo da minha autoria presente no "Em Amena Cavaqueira", pág. 39. Deve-se então ler, correctamente, "se dúvidas havia".

É um gralha "daquelas", bem sei.:) Fica a correcção!

Yey

por D. em sexta-feira, 8 de abril de 2011

No meio disto tudo, eis que surge uma boa notícia. Grata por não ter estourado as minhas poupanças para ir ver estes garotos geniais a Madrid. Parece que há alguém a ouvir as minhas preces ou gente com muito bom gosto na organização.

Simpsons censurados devido a piadas sobre energia nuclear

por Ana em quinta-feira, 7 de abril de 2011


Estações televisivas da Alemanha, Áustria e Suíça decidiram restringir e retirar alguns episódios da série The Simpsons, devido ao descuido e às piadas das personagens em relação ao trabalho na central nuclear da série. De acordo com o Hollywood Reporter, os canais de televisão dos três países vão proceder a uma triagem dos episódios da série. A triagem será baseada na busca de piadas ou abordagens que possam ferir susceptibilidades devido à recente crise nuclear que afecta o Japão. O canal francês Pro7 foi o primeiro a tomar medidas, ao afirmar publicamente que iria proceder à triagem para prevenir a transmissão de episódios que desrespeitem crises nucleares. Em consonância com a Pro7, também a suíça RF anunciou o início do processo de triagem na popular série animada norte-americana. A última a tomar medidas foi a estação austríaca ORF, que implementou um acto de censura mais severo ao banir um total de oito episódios dos Simpsons até Abril, altura em que será realizada uma revisão dos procedimentos. A energia nuclear é um tema recorrente desde a criação da série em 1989. A cena inicial retrata Homer Simpson a sair da central nuclear de Springfield com uma vareta nuclear presa na sua t-shirt, que posteriormente atira pela janela do seu carro. A personagem principal - que trabalha como inspector de segurança na central nuclear -, é inúmeras vezes retratada a adormecer no trabalho ou a desrespeitar as regras de segurança (já por si irresponsáveis). A central nuclear da série já explodiu pelo menos por uma vez e assistiu-se várias vezes à fusão dos seus reactores. SOL http://sol.sapo.pt/inicio/Vida/Interior.aspx?content_id=15342

e depois também há o pessoal da idade de plástico

por Francisco

sim, é certo, mas o pessoal do hip hop bate muito mais

por Francisco em quarta-feira, 30 de março de 2011



CLAASSSSSIC