Laranja Mecânica (uma das obras de S. Kubrick) é ainda hoje inovador e irreverente: quer pelo seu início chocante quer pelas questões que coloca. Alex DeLarge, um jovem perturbado, relata na primeira pessoa os vandalismos e actos de violência que ele e os seus amigos praticavam, enquanto cantarolavam músicas como “Singin’ in the rain”. Acaba por ser preso, após ter morto uma mulher cuja casa assaltava, e, após uma (curta) estadia na prisão, submete-se a um tratamento que altera os seus comportamentos, passando os actos que anteriormente praticava (e, aliás, qualquer expressão de violência) a causar-lhe sensações de náusea. Tudo isto levar-nos a repensar os limites entre a consciência moral e a capacidade física para julgar o que é ou não reprovável, uma vez que o personagem principal deixou de ter atitudes violentas não por as considerar socialmente inaceitáveis, não estando subjacente aqui qualquer juízo de valor, mas sim porque simplesmente não era fisicamente capaz de as praticar, acabando mesmo por se revelar incapaz de se defender perante um ataque.
Um êxito cuja escolha da banda sonora o dota de uma certa ironia…
Blues da morte de amor
já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida.
mas afinal não morri, como se vê, ah, não,
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.
a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah, não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing, minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.
há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes, uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete: - morrer ou não morrer, darling, ah, sim.
Vasco Graça Moura, in Poezz - Jazz na Poesia em Língua Portuguesa.
Álbum: Know what I mean?, 1961
Música: Waltz for Debby
Cannonball Adderley: alto sax
Bill Evans: piano
Pearcy Heath: bass
Connie Kay: drums
O Jornal Tribuna nº 27/Dezembro 2010 já está nos "escaparates"!
Em breve, disponibilizaremos a versão .pdf on-line.
Se desejar receber o Tribuna, mas não tiver possibilidade de o adquirir em mão, por favor envie e-mail com nome e morada para: tribuna.fdup@iol.pt
"o senhor, sim o senhor, faz o favor de retirar essa t-shirt duvidosa?" (Jantar de Natal)
por Francisco em domingo, 5 de dezembro de 2010






Com o jornal quase, quase a sair, poucos mas bons jornalistas juntaram-se à mesa para uma sessão de corte e costura (e outra de troca de prendas, já me esquecia).
Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso,
em serenos sobressaltos
como estes pinheiros altos
que em verde e ouro se agitam
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.
Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma. é fermento,
bichinho alacre e sedento.
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.
Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel.
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa dos ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança.,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
para-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra som televisão
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre a mãos de uma criança.
(António Gedeão)
este poema é mais do que conhecido mas de qualquer forma acho que que vale a pena ser lembrado =)
Esta é a versão musical do discurso do candidato a Governador de Nova Iorque Jimmy McMillan. Para quem quiser ver o discurso original:http://www.youtube.com/watch?v=x4o-TeMHys0&feature=related
Nasceram em 1975, em Ipswich, Suffolk, em Inglaterra. Fãs de Kubrick, eles fazem-vos lembrar alguma coisa? Exacto - recriaram o visual dos "droogs", do filme Laranja Mecânica - e o seu vocalista actua sempre mascarado de Joker. Poder-se-ia pensar que são uma banda de malucos, mas muito pelo contrário - ao longo dos anos têm seduzido os adeptos de punk rock por todo o mundo. Se vocês ouvem dezenas de bandas e todas vos soam ao mesmo, meus caros, estes senhores são a resposta.
