Primeira Vez

por Ana em domingo, 28 de fevereiro de 2010




Dizes-me: tu és mais alguma cousa

Que uma pedra ou uma planta.

Dizes-me: sentes, pensas e sabes

Que pensas e sentes.

Então as pedras escrevem versos?

Então as plantas têm ideias sobre o mundo?




Sim: há diferença.

Mas não é a diferença que encontras;

Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as cousas:

Só me obriga ser consciente.



Se sou mais que uma pedra ou uma planta? Não sei.

Sou diferente. Não sei o que é mais ou menos.


Ter consciência é mais que ter cor?

Pode ser e pode não ser.

Sei que é diferente apenas.

Ninguém pode provar que é mais que só diferente.



Sei que a pedra é real, e que a planta existe.

Sei isto porque elas existem.

Sei isto porque os meus sentidos mo mostram.

Sei que sou real também.

Sei isto porque os meus sentidos mo mostram,

Embora com menos clareza que me mostram a pedra e a planta,



Não sei mais nada.


Sim, escrevo versos, e a pedra não escreve versos.

Sim, faço ideias sobre o mundo, e a planta nenhumas.

Mas é que as pedras não são poetas, são pedras;

E as plantas são plantas só, e não pensadores.

Tanto posso dizer que sou superior a elas por isto,




Como que sou inferior.

Mas não digo isso: digo da pedra, "é uma pedra",

Digo da planta, "é uma planta",

E não digo mais nada. Que mais há a dizer ?




Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"


.

Sim, é a primeira vez que escrevo num blog
E não, não escrevo versos, nao.

E não sou uma pedra, nem pensadora
Nem tao pouco sei o que sou ou se existo.


Por isso,

'Não sei mais nada (..)nao digo mais nada. Que mais há a dizer',

por agora.. :)





acs

*


Colunas diárias

por Tribuna em sábado, 27 de fevereiro de 2010

O painel de colunas diárias volta a funcionar a partir de segunda-feira, dia 1 de Março.

Tribuna

Núcleo do Porto

por Anónimo em quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Novo site do Núcleo do Porto da Amnistia Internacional ---» http://aiporto.blogspot.com/

por Inês P. em domingo, 21 de fevereiro de 2010

Imagine-se a seguinte situação: vocês estão num autocarro cheio de gente, que é repentinamente obrigado a interromper a sua marcha, porque entrou numa rua onde há um acidente. Perspectiva-se uma grande demora; as pessoas, impacientes, esticam os pescoços por cima das cabeças dos outros, tentando ver a chapa batida, o aparato, talvez até o sangue dos feridos. Ao vosso lado alguém suspira "Vou chegar atrasado outra vez!". Vocês olham o inquieto, sorriem-lhe e dizem "Também eu". E pronto, estão lançados os dados para uma longa conversa, que se prolonga até o autocarro poder passar e um de vocês chegar ao seu destino. "Adeus! Boa sorte", e lá vai à vida dele, e vocês à vossa, e nunca mais o vêem.
É-vos familiar? É natural. Mas o que está em causa não é a conversa em si, mas sim a familiaridade repentinamente estabelecida com um perfeito desconhecido e que morre logo ali. E no caso de um dia mais tarde o reencontrarmos, o mais provável é não o reconhecermos, principalmente se esses episódios estiverem separados por muito tempo. Se assim é, se esquecemos a cara e a voz do outro e fica só a lembrança de uma conversa agradável, quantas vezes já não teremos reencontrado as mesmas pessoas, mas vendo-as sempre sobre prismas diferentes, como se fosse sempre a primeira vez? E até que ponto já não teremos conhecido antes as pessoas que conhecemos agora, mas não nos lembramos de as termos conhecido nunca? Provavelmente a minha melhor amiga hoje é a mesma rapariga que virou as pipocas em cima de mim no cinema há cinco anos atrás, sem eu me lembrar disso. Às tantas fiz castelos na areia da praia quando era pequena com uma rapariga de quem não gosto hoje. E com um jeitinho, o rapaz que os destruiu à gargalhada ainda há-de ser o dono de um dos nossos corações.
"A tua cara não me é estranha".
"Hmm... já não te vi em algum lado?"
"Acho que conheço essa cara!"
Mas não passa disto. Meras suposições, possibilidades indefinidas, nada mais. E seremos sempre assim, eternamente de olhos vendados, talvez sob a vigilância risonha do Criador, divertido com a ignorância das suas formiguinhas. Quem sabe?

Major offensive on Afghan Taliban

por Guilherme Silva em sábado, 13 de fevereiro de 2010

Paradise circus

por Angelina em quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010





Chill out ao melhor nível...um dos regressos mais aguardados dos últimos tempos.
E uma daquelas músicas das quais se devia proibir (os inevitáveis) remixes.
Apeteceu-me partilhar.

Boa semana.

por TR em segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Meio aturdido, não tanto pelo que me é - espero que por ora... - ininteligível, como nesta passagem
Só que - digamo-lo parafraseando Torga - a universalidade consonante com as exigências que inervam tanto o "mundo da vida" como o "mundo do direito" é a intencionalmente significante e materialmente densificante poiético-reflexiva referência ao intersubjectivo-dialogante entretecido horizonte prático-axiológico da experiência problemático-concreta, e não, de modo algum, a lógico-apofanticamente induzida generalização a partir de qualquer espécie. (Fernando Bronze, Lições de Introdução ao Direito, 1ª ed., 2002, pp. 332-333)
colocada, por mim, por brincadeira, mas pelo texto em que a passagem se intercala e que (julgo) ter compreendido.
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(1) 1º ano - Introdução ao Direito - Baptista Machado - "não conhecia desta escrita". (2) 2º ano - Direito Penal I r II- Figueiredo Dias - "não sabia que havia livros assim" (menos pasmo) (3) 3º ano - Direito Processual Penal I (objecto do processo) - Castanheira Neves - "não sabia que havia textos assim" (volta o espanto) (4) 4º ano - saindo do trilho - Fernando Bronze - "uff...ou já me esqueci...ou não sabia que..."...
(2) Título do post, sentido subliminar, embora lateral, da nota (1): Em busca do sentido perdido.

Relembrando

por Angelina em domingo, 17 de janeiro de 2010

#42 às terças

por TR em terça-feira, 12 de janeiro de 2010

No limite do dia, mais uma citação (extraordinária) em torno do direito. Desta vez, de um autor chamado "Aurel David", encontrada no artigo "O direito como alternativa humana", de Castanheira Neves.
"Dans un monde qui avançait vers un monisme absolu, où tout tendait à devenir matière, où la vie et la pensée se redusiaient peu à peu à des réactions psysico-chimiques, le morale tombant dans la sociologie, celle-ci dans la psychologie, la psychologie dans la psysico-chimie, une discipline - dont les savants se désintéressaient - essayait de tenir la tête hors de la rivière matérielle: C'était le Droit qui persistait a diviser le monde en deux sortes d'êtres: les personnes et les choses."

O País do Ódio

por Manuel Marques Pinto de Rezende

Freedom cannot be given, one must choose it for himself.
As nações modernas podem lidar de duas formas diferentes com a democracia:
1- assumem que a decisão da maioria é uma solução consertada entre as diferentes forças do país, entre os diferentes interesses dos diferentes grupos, e que de todas essas hipóteses, muito provavelmente, sairá a decisão menos má - ou mesmo a pior. No entanto, essas nações assumem que a política depende de um esforço honesto de todos em aceitar as diferentes opiniões dos diferentes indivíduos e das diferentes colectividades.
Os países de cultura protestante estão habituados à diversidade. Luteranos, presbiterianos, católicos, puritanos, calvinistas - todos tinham diferentes interesses, todos tinham os seus direitos na participação cívica e política do país.
2- assumem que a democracia é uma busca pela Verdade. Este tipo de visão é visível nos países de cultura católica. Não tendo ligações intelectuais lógicas com o teor do catolicismo (que, não sendo expressamente anti-democrático, despreza a imersão do sujeito no Common Sense) os países latinos são dominados pela crença católica da Verdade.
A Verdade, no jogo democrático, faz por uma mera oposição de números. O Partido que conseguir conduzir mais eleitores às urnas não ganha o direito de conduzir a discussão política sobre determinado tema, tendo em conta a importância dos outros partidos. Isso é o que se passa nos outros países.
Na nossa cultura, a democracia é a Verdade, não a Conciliação. Assim sendo, quem perde as eleições, quanto mais se opõe, mais se afasta da Verdade. São a Mentira.
Isso explica a cultura de ódio da política moderna portuguesa. Executada quase sempre por partidos democráticos. É a Humilhação na psique portuguesa.
Após a vitória dos liberais, em 1834, viveram-se abusos vergonhosos à propriedade eclesiástica e laica dos opositores ao novo regime. A Monarquia Constitucional levou vários anos (duas décadas, para ser mais preciso) a Conciliar os ódios de liberais e legitimistas. Alguns pensam que terá sido essa luta conciliadora (e consequente ódio) a perder a Monarquia para os republicanos.
A queda da Monarquia Constitucional em 1910 trouxe para Portugal mais um pouco desta cultura de Verdade, e mais Humilhação da parte vencida.
Prenderam-se padres, monárquicos, socialistas, sindicalistas, fecharam-se jornais, abateram-se opositores à carbonária e ao Partido Republicano Português, e no fim abateram-se os membros da Carbonária e do PRP.
Todas as reformas sociais (separação da Igreja e do Estado, lei do divórcio e do casamento, etc.) encetadas no tempo da Iª República (e que serviram de justificação para o golpe revolucionário que destronou uma instituição nacional primordial, danificou o Estado de Direito e deitou abaixo um regime constitucionalista e parlamentarista que poderia ter analisado as mesmas questões - lá está, a mentalidade da Verdade, e a vontade de Humilhar pela Força os que não partilham da mesma Verdade) foram feitas em Ditadura.
A República legislou em Ditadura porque, dominada pelo PRP de Afonso Costa, incorporava a Verdade: os católicos, monárquicos, socialistas, e outras forças políticas relevantes da altura não eram a Verdade.
Com o fim da política, manteve-se em Portugal a cultura da Humilhação. A Humilhação do Estado Novo, ao proibir que os intelectuais se juntassem em sociedades secretas, o desprezo pelo parlamentarismo e pelo liberalismo político, etc.
Mais uma vez, ausência de diálogo. Simples Verdade versus Mentira.
O actual Portugal democrático não é diferente.
A concepção portuguesa da política é neandertaal, é própria de povos de nações primitivas (se isto não é ofender esses povos, que provavelmente são mais civilizados na sua cultura política que nós).
Um partido em Portugal, representante de uma Ideologia ou grupo de interesses, luta pela Maioria Abosluta não como objectivo político, mas como luta pela sobrevivência.
Apela-se à mudança de prioridades na hora do voto para não conceder votos à tribo inimiga, ao partido mais oposto - o jogo democrático passa de Conciliação a União pela Verdade - as diferentes tribos unem-se para partilharem do ódio contra outra.
Uma vitória democrática não é apreciada em Portugal se não vier com o Poder Total. O Poder Total deve ser usado para "foder" os Outros.
O consenso parlamentar é uma quimera. Portugal é um país de ódio, onde uma parte odeia a outra, e a que odeia mais, geralmente, tem mais votos.
Este ódio cego chega na hora de esquecer as próprias regras da democracia.
Mais de 90mil assinaturas foram apresentadas, recentemente, no Parlamento, a apelar à realização de um referendo sobre uma lei recentemente levada à Assembleia (e aprovada).
Num tempo em que a nova UE instiga os cidadãos europeus a apelar aos órgãos comunitários para participarem na política interna europeia, parte da sociedade civil une-se para apelar a uma decisão nacional sobre um tema.
Sendo que em 1998 um pequeno partido de esquerda foi eleito com 132mil votos, pela primeira vez elegendo 2 deputados e avançando com várias medidas para referendar o mais variado tipo de coisas.
Esse mesmo partido, agora bem mais poderoso, desdenhou com repulsa a proposta de 90 mil cidadãos.
Esses 90mil cidadãos estão fora da Verdade. E a Verdade, na verdade, resume-se à agência política do interesse predominante. Estavam na tribo errada.
Enquanto houver tribos, não há Portugal, nem portugueses, nem europeus, nem cidadãos.
Há ódio, e esse há aos montes.
PS: sobre a dita proposta, devo dizer que sou contrário há lei aprovada nesse dia. Mas também sou contrário ao referendo.