1. A propósito do texto do henrique. "Existe uma lenda acerca de um pássaro que só canta uma vez na vida, com mais suavidade que qualquer outra criatura sobre a Terra. A partir do momento em que deixa o ninho, começa a procurar um espinheiro, e só descansa quando o encontra. Depois, cantando entre os galhos selvagens, empala-se no acúleo mais agudo e mais comprido. E, morrendo, sublima a própria agonia e solta um canto mais belo que o da cotovia e o do rouxinol. Um canto superlativo, cujo preço é a existência. Mas o mundo inteiro pára a ouvi-lo, e Deus sorri no céu. Pois o melhor só se adquire à custa de um grande sofrimento...Pelo menos é o que diz a lenda." in Pássaros Feridos, Colleen Mccullough.
2. Há muito tempo que andava para pôr um poema de Alexandre O'Neill numa história. Só que deparo com um conto que já o fez. Fica apenas o poema...
"Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente tropeço de ternura
por ti."
O tropeço de ternura vale tudo.
3. Era uma vez um homem que disse a outro
- Estou a tornar-me uma coisa horrível.
- Uma coisa? Uma coisa não é horrível nem boa, é apenas coisa.
- É esse o meu tormento. É que não me bastando com ser coisa, tornei-me ainda horrível.
Fez-se um silêncio incómodo. E depois disse o outro
- Vicissitudes.
Depois de dedicar largo tempo ao estudo da propaganda política, certas questões não poderiam deixar de aparecer na minha cabeça e fazer-me pensar acerca do papel que ela tem efectivamente nos dias de hoje. Em ano de eleições, certamente que os partidos já estruturaram, pensaram, repensaram e voltar a estruturar, quais as formas mais eficazes de chegar ao centro da questão: como ganhar votos.
A política já quase não se faz de convicções, hoje em dia trocam-se os votos por programas eleitorais, por promessas e porque indivíduo x aparece sempre muito bem na televisão, enquanto o indivíduo y tem um ar sempre desleixado. Não seria aliás a primeira vez que ouviria dizer que “entre dois candidatos mais ou menos iguais, eu escolheria o melhor vestido”, o que mostra que a imagem de marca compra pelo menos os votos de quem não tem ideologia ou de quem não tem tempo para perder com programas e ideias e promessas e acaba por votar nas duas alternativas do centro.
Existem depois aqueles que têm voto fixo, quer haja programa ou não, quer existam ideias ou não, quer o indivíduo esteja bem vestido ou não, quer ofereça uma casa nova ou simplesmente uma caneta que até escreve mal. Provavelmente estes são os indivíduos que vão aos comícios comer e beber de borla, arranjar umas t-shirts, umas canetas, uns blocos, uns cromos e autocolantes, um cachecol e um boné e acabam no fundo por não mudar o seu voto.
Depois sobram todos aqueles que descontentes com os actuais, tentam perceber quem pode trazer alternativas viáveis. Provavelmente é nesses, que são uma maioria, que os partidos investem tantos e tantos euros. Ora, aqui, os métodos e instrumentos de propaganda têm bastante a dizer e bastante a comprar e ganhar. Os indecisos são votos que contam o valor de uma adesão apenas no momento das urnas, mas apenas isso basta para arrancar mandatos e ganhar eleições. Dos diversos métodos, já todos temos conhecimentos que cheguem, juntando-se agora a febre da internet e aumentando-se o número de visitas aqui e ali.
Mas se tudo isto não deixa de fazer parte de uma propaganda que nos passa diante dos olhos e que conseguimos distinguir e sobre a qual temos capacidade de formar opinião crítica, a verdade é que na reportagem percebemos, ou pelo menos eu percebi claramente, que existem formas de fazer propaganda (e diga-se que são já verdadeiras obras de arte), que nos remetem de imediato para o universo Orweliano de um 1984 que levemente mexe as peças. Mas ao invés de um único Big Brother existem vários a puxar cada um para seu lado numa luta pelo domínio do inconsciente das massas.
Os exemplos mostram-nos épocas da história que naquele momento presente passavam despercebidas por aqueles que estavam sobre controlo. A propaganda era sublime e deixava despercebidos crimes horrendos e realidades que em estados emotivos controlados são simplesmente despercebidos a qualquer juízo de censura. Olhando agora o presente e ponderando sequer uma questão semelhante, quantos de nós saberão de facto se conseguem ou não ser manipulados por técnicas idênticas? Quantos afinal conseguem justificar os seus votos de forma racional? Quantos votam por juízos críticos que fizeram previamente? E quantos votam simplesmente dominados por esses mesmos sentimentos de ódio face a isto ou aquilo, porque em tempos como estes, é sempre mais fácil apontar o dedo aos elementos novos que vêm integrar uma ordem que para nós nunca os teve a eles, sendo portanto o bode expiatório perfeito de uns quantos que apenas ambicionam poder? E essa é sempre uma forma tão mais fácil de manipular.
Nesse mesmo livro de que falava lê-se por entre as páginas
Who controls the past now, controls the future
Who controls the present now, controls the past
E acaba por ser um pouco assim que a propaganda funciona. Numa lógica muito maquiavélica de que os fins justificam os meios, um pouco por todo o mundo vamos assistindo a uma inversão de factos e dados, e a manipulações extraordinárias de verdades que hoje são tidas como irrefutáveis, onde os manipulados não têm noção de que estão a aderir cegamente a mentiras.
E retomando o início, em ano de eleições e quando temos um lado que suaviza os factos e outro que os torna hiperbolicamente piores do que o são de facto, como ficará dividida a opinião pública na hora do voto? Quais os riscos que pode trazer a manipulação da opinião pública que claramente é feita por certos meios de comunicação, onde os ataques pessoais e populistas são usados como armas de arremesso contra políticas, quando claramente por detrás se percebe que não existem ideias? Sendo que claramente as massas aderem a esses mecanismos ocultos e sendo que os seus votos são aqueles mais facilmente influenciados, usar populismos e ataques pessoais que por vezes roçam a chacota e um grau de baixeza enormes, surgem os riscos de continuar a manter um país que rema de um lado para depois voltar a trás e no fim, reparar que afinal, nunca saímos do mesmo ciclo, porque facilmente programas vazios caem em repetições dos errados ou simplesmente em programas opostos pelo simples gozo de fazer oposição. E assim se vai mantendo o povo entretido de um lado para o outro, sem ideias mas sempre com algo para atirar para cima da mesa e vender àqueles que estão sempre dispostos a comprar.
*este texto originalmente foi escrito para ser publicado nesta edição do Tribuna, tendo ficado de lado por motivos de espaço. Aproveito então o meu cantinho neste blogue para o deixar ver a luz do monitor.
Lá longe, naquele pequeno (já nosso) mundo, nascerá em tempos um homem caricato. Esse homem, na sua condição igual a tantos outros, era especial por possuir um coração de vidro. Os homens das ciências e afins quiseram estudá-lo, mas logo os humanistas os proibiram. "Não maltratem aquela pessoa. Ele padece de uma doença. Morrerá ao mínimo sofrimento e mágoa. Que direito é o vosso de lhe tirarem a vida? É o conhecimento? Estranha doença que vós senhores da medicina sofrem." disseram na altura.
Cresceu e de petiz tornou-se homem de barba feita. Da sua infância apenas é importante reter o isolamento. A mágoa, o sofrimento só os poderia conhecer em contacto com outros homens, como tal, pensaram os pais, seria melhor isolá-lo do mundo e dar-lhe o carinho necessário para crescer dentro de quatro paredes. Melhor solução? Sem certezas, fora a adoptada. Que homem sou eu para a criticar? Aquela pobre criança ficaria com o coração estilhaçado à mínima birra, ao menino contacto que a levasse à desilusão.
De barba feita, quis, o pobre homem, sair de casa. Ver o que estava para lá da verde paisagem.
Os pais ficaram receosos. Como lhe explicar a sua condição? "Querido filho, amor da minha alma! Lá fora o mundo não te sorri tanto como cá dentro. Cá dentro tens carinho. Lá fora tens outras coisas que te farão sofrer."
O filho intrigado respeitou. Mas a curiosidade ultrapassa os avisos. Escapuliu-se o outrora petiz.
Os primeiros tempos foram agradáveis. Viveu junto à natureza, conheceu as maravilhas do mundo. O problema surgiu com o envolvimento com outros. Ele não estava preparado.
A sua viagem, de nascente a jusante, tal como as coisas do Tempo, tinha um fim e início. Mas, nós homens sem estilhaços sabemos que através do Tempo podemos reparar tudo ou, pelo menos, esquecer ou atenuar a dor. A sua viagem era rápida, muito rápida. O início e o Fim ligados por tão frágil peça.
E eis que a desilusão, mágoa, angústia, solidão, ódio, maldade se fizeram sentir, estilhaçando-o. A desilusão ensinou-lhe que nas relação com as pessoas nada é certo e a esperança em demasia, a expectativa também ela engradecida leva sempre sempre à desilusão. A mágoa mostrou-lhe a dor que se sente quando alguém age para connosco a procura das nossas lágrimas. A angústia explicou-lhe que vivemos em pleno estado de ansiedade e tudo nos custa, a falta de novidade, o excesso dela e o não sabermos lidar com as coisas da Vida. A solidão, estado natural de nós homens, teve nele um efeito tal que lhe tirou as forças, a energia e vitalidade e tudo isto apenas com uma premissa: o afastamento face ao mundo, face às pessoas, o olhar absorto e o coração e alma consumidos por uma labareda mais forte que a roubada por Prometeu para forjar os homens. O ódio de mãos dadas com a maldade desfizeram-no, sem razão ou qualquer lógica, eram eles mesmos por si e nada mais há a explicar.
O sangue escorria-lhe pela boca, de joelhos entoou a sua última prece:
Ó vida, ó vida! Porque me deste tu a tua dádiva
se não me deste a oportunidade de compreender o mundo?
Porque me deste forças para nascer e olhar a Natureza
Se logo me impediste de tocar nas suas folhas.
Porque me fizeste homem se nunca me poderia relacionar?
E porque de todos os homens me escolheste a mim
Para sofrer com todos os ódios deste mundo
Para os sentir como ninguém
Para os viver e respirar
Aceitava não ter nascido e sido isolado
Era preferível, teria-me feito sorrir!
a minha alma espalhada agora no terra
o meu sangue te dou. Sem agradecimento espero
TU própria me condenaste.
Não me arrependo da viagem. Arrependo-me sim de ter abdicado!
Abdicado do único Amor que tive. Meu pai e minha mãe.
Calma. A lógica e Razão aparecem.
Não te odeio Vida. Não! Fizeste-me sentir o Amor e mais não posso pedir.
É um conto que não me é estranho de todo. Se calhar já o li, imaginei outrora. A questão é que o sinto!
Como tal decide escrevê-lo ou reescrevê-lo á minha maneira. Aqui fica uma espécie de resumo. Sim, esta não será a história completa. Coração de vidro. Faz-me rir tanta inocência e ao mesmo tempo tanta verdade.
Ainda fica o agradecimento ao T. Ramalho. Voltei aos contos meu amigo, voltei aos contos. =)
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Finalmente chego a casa. Parece que sempre me encontro quando cá chego. O cheiro tão familiar. O rosnar da minha gata que deliciosamente procura o meu aconchego semanal. Tudo sempre no seu lugar por tantos anos. A eternidade de cada coisa, que não sente o tempo passar. Eu e a minha solidão.
A agulha alinhada desenha os sons que enchem a sala. A minha droga e ressaca diárias. O deleite do meu corpo e da minha alma.
A raridade de momentos assim. Onde nos bastamos a nós próprios, sem os bombardeamentos coloquiais de frases feitas e os sorrisos forçados a que nos obrigamos.
O amor. A voz que já conhecia antes de conhecer o mundo. A segurança de um encontro esperado todas as noites por via telecomunicada. O sorriso e olhar cansados, a ternura do abraço. Ela chegou!
E como se já nada me pudesse fazer mal. Sento-me a seu lado. Sinto que nada mais importa. O seu amor é tão grande que caibo dentro dela. O meu amor por ela é tão grande que nada serve para escreve-lo.
Disse-lhe que tinha saudades. Pedi-lhe uma beijo. Disse que a amava. Sorriu e com o coração respondeu ( daquela forma que só quem ama conhece).
Ó Procusto que viste em mim?
Prometi-te o cândido Amor
Convidaste-me;
De sussurro em sussuro
De Cântico em Cantico
encantaste-me.
Procusto, Procusto
Enlaçaste-me;
Apeguei-me a Ti.
Na noite calma pediste o meu descanso
Amarraste-me...
Procusto, a ti descrevi o que a minha alma via;
o que temia.
Minhas fragilidades expostas.
Transparente corpo.
Adormeci...
Não de cansaço. Alma tranquila.
Logo te revelaste!
Querias vingança.
Apedrejar meu corpo.
Cortar-me.
Sede de conhecimento?
Não! Pura Maldade.
Procusto, que te fiz?
Merecer o teu Ódio?
Mas, logo o Divino se entrometeu
Não morri às tuas mãos.
Meu coração parou.
A desilusão na tua face sem perceberes.
À tua frente uma cândida pessoa
Sem musculatura suficiente para aguentar a dor
Física? Raios, Procusto! Dor na Alma.
Não me quiseste entender.
Logo,
Ganhei este teu Jogo! Sem orgulho, sem mérito!
Apenas pelo que sou... Ironia!
(título de um filme francês) tb publicado aqui
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Comecei esta semana a estudar para os exames, tudo me parece diferente, no mundo dos livros encontro mais insegurança que em Aldoar. Para todos os efeitos, a todos que iniciam agora a longa caminhada dos estudos, deixo um hino estudantil como já não se via desde 1961
(...) o regime está, na verdade, expresso naquele ignóbil trapo que, imposto por uma reduzidíssima minoria de esfarrapados mentais, nos serve de bandeira nacional - trapo contrário à heráldica e à estética, porque duas cores se justapõem sem intervenção de um metal e porque é a mais feia coisa que se pode inventar em cor. Está ali contudo a alma do republicanismo português - o encarnado do sangue que derramaram e fizeram derramar, o verde da erva de que, por direito natural, devem alimentar-se. (...)
Fernando Pessoa “Da República” Editora Ática, Lisboa, 1978

