O Belicista

por Duarte Canotilho em sexta-feira, 17 de abril de 2009

The Big Push

Lá estavam eles.... Sujos, suados, com a lama até aos joelhos. A chuva caía nos capacetes com bastante intensidade; O nevoeiro, esse ocultava tudo para além de 2 metros da trincheira.
O medo. Esse percorria os corações até dos mais bravos. o cheiro a morte constante lembrava-os do que os esperava em poucos momentos. O ribombar constante dos canhões nos ouvidos, o gritar de dor do companheiro ao lado, os estilhaços que passavam rente aos soldados, as metralhadoras constantemente a disparar.... E de repente... O silêncio.

A silêncio percorreu todo o campo. Os canhões pararam, as metralhadoras silenciaram-se, os gritos são abafados... Só a chuva não permanece em silêncio...
O silêncio prolonga-se.....
A guerra acabou pensam os menos experientes Mas não.... O medo de uns torna-se mais intenso, o palpitar acelarado, constante, dos corações é como que uma droga que nos impede de respirar; o tremer do medo confunde-se com o tremer gélido da àgua...
E de repente... O apito enche a trincheira
E lá foram eles
E o barulho voltou
Ninguem voltou

Ritos no rito das estações

por Inês

Ontem à noite apeteceu-me reler Manuel Alegre. Com isto das internets, perdeu-se aquela mística de ir procurar papéis em gavetas ou estantes antigas e de pelo caminho encontrar fotografias já esquecidas e cartas e bilhetes que não sabemos se queremos (devemos) continuar a guardar. Poderia ter ido desencantar este excerto a algum desses cantos para onde se atiram as coisas que não nos apetece arrumar. E, na minha cabeça, fui de facto desencantá-lo aí, ao meu 7º ou 8º ano, que foi quando o descobri, por altura do 25 de Abril - para ler nas comemorações da escola. Deixo-o aqui, antes que chegue a 'febre das comemorações' do próximo fim-de-semana, onde ele perderia o protagonismo que merece. Anos passados, parece-me tão bonito como da primeira vez que o li.


Nasci em Maio, o mês das rosas, diz-se. Talvez por isso eu fiz da rosa a minha flor, um símbolo, uma espécie de bandeira para mim mesmo.


E todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, no dia 12 de Maio, às dez e um quarto da manhã (que foi a hora em que eu nasci), a minha mãe abria a porta do meu quarto, acordava-me com um beijo e colocava numa jarra um ramo de rosas vermelhas, sem palavras. Só as suas mãos, compondo as rosas, oficiavam nesse estranho silêncio cheio de ritos e ternura.

Nesse tempo o Sol nascia exactamente no meu quarto. Eu abria a janela. Em frente era o largo, a velha árvore do largo dos ciganos. Quando chegava o mês de Maio, eu abria a janela e ficava bêbado desse cheiro a fogueiras, carroças e ciganos. E respirava o ar de todas as viagens, da minha janela, capital do mundo, debruçado sobre o largo onde começavam todos os caminhos.

E tudo estava certo, nesse tempo, ou, pelo menos, nada tinha o sabor do irremediável. (...)

E eu dormia poisado sobre a eternidade, como se tudo estivesse certo para sempre, eu dormia com muitos olhos, muitos gestos vigilantes sobre o meu sono. Por vezes tinha pesadelos, acordava, inquieto, a meio da noite, qualquer coisa parecia querer despedaçar-se e então exclamava:

- Mãe!

E logo essa voz, tão calma, entrava dentro de mim, mandava embora os fantasmas, e era de novo o meu quarto, a doce quentura da minha casa no cimo da ternura.

Não havia polícia nesse tempo. Ninguém roubaria a tranquilidade do meu sono, ninguém viria a meio da noite para me levar, porque bastava eu chamar:

- Mãe!

E logo uma voz, tão calma, mandava embora os fantasmas. E era a paz, nesse tempo, em que todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, o dia 12 de Maio, às dez e um quarto da manhã, a minha mãe abria a porta do meu quarto e colocava, religiosamente, um ramo de rosas vermelhas sobre a minha vida, nesse tempo, em que dormir, acordar, nascer, crescer, viver, morrer, eram um rito no rito das estações. (ler mais)

A culpa é da UEFA

por Zenhas Mesquita em quarta-feira, 15 de abril de 2009


No rescaldo de tão difícil derrota não há grande motivação para a escrita. Perdoem-me todos os que não gostem de futebol, a todos os que gostam bem percebem a dor que percorre a alma azul e branca. Ainda bem que não sou treinador de futebol, a esta altura no balneário só veríamos cadáveres com cápsulas de cianeto partidas nos dentes e crânios dilacerados por balas de Luger. Como não sou treinador, e ainda bem, ouço temas como este:



SIEG ODER SIBERIEN

O Errâncias na Linha do Douro

por Francisco



Estes somos nós: curiosos, filisteus, diletantes jornalistas.´
Só que em vez do barquito, é de comboio.
Enfim, dinâmicas de grupo. :)

("tem piada... tem piada a vida!") - sem título

por Anónimo em terça-feira, 14 de abril de 2009

Tudo alinhado, o suor nos rostos dos jovens petizes que ansiavam pela sua estreia naquela famosa (muito, muito famosa) Orquestra (gargantuesca Orquestra). As luzes apagadas, certo receio visto que não se sabia ao certo o número de pessoas que componham a plateia. As dúvidas sobre o sucesso do que viria a acontecer: por um lado, se a sala estivesse lotada, quiçá super-lotada, mesmo que a música não contagiasse aquelas pobres almas, era sempre sucesso, visto que o ganancioso Dono tinha os bolsos cheios; por outro lado, se a sala estivesse em pleno choro, vazia, assombrada, mesmo que a música batesse tecla a tecla na perfeição das poucas almas, o Dono fecharia aquele imenso teatro.
As luzes intermitentes anunciavam o início do bailado, até que um jovem, um petiz garçon, subiu ao palco e gritou: "Atenção! Faça-se uma vénia à beleza do que vai ser visto por vós, humildes almas!"
As luzes apagaram-se novamente e, no instante seguinte, a claridade queimou os olhares receosos da plateia. O que foi visto, naquele momento, era algo tão intenso, mas tão intenso que a Fortuna se incarregou de transformar em mito.
O que foi visto:um choro, um lamento.
Lamento pela ociosidade de deuses que habitam lá longe num reino onde a simpatia nunca reinou; deuses esses que aclamaram aos trompetes que rasgassem o coração de quem assistia com o simples objectivo de conhecer o porquê dos pobres homens conseguirem amar. O resultado? Uma carnificina tal, sangue, sangue agitado, lágrimas e poeira! Os deuses esfolaram todos os que se encontravam presentes e não conseguiram descobrir a resposta. Vieram, foram invocados pela simples esperança de desvendar o enigma. Foram embora desiludidos.
Lá dentro, ninguém sobreviveu. Tão forte, tão intenso. No dia a seguir, nos jornais, no Le Figaro, por exemplo, chorou-se as vítimas, mas esqueceram de apontar o essencial à notícia. A falta...

#25 às terças, quase como acaso

por TR

VACILOS
E o escritor, cada vez mais condoído pelo que da sua escrita resultava, começou a chorar todas as noites pelo fardo que tinha de carregar. A caneta vacilava na mão que tremia, e quando finalmente a palavra surgia,
"capacho"
vinha deslocada de tudo o que de mais havia no papel. Capacho, laranjal, etnógrafo, idiossincrático. Nada cruzava com nada, e mão tremia com uma caneta que vacilava, enquanto a folha era escrita, re-escrita, rasurada, rasgada, deixando o escritor cada vez mais condoído pelo que da escrita resultava.
(Chorando todas as noites pelo fardo que tinha de carregar)
Revoltado de uma vida virada tristeza, o escritor resolveu a inverter o triste fado que o cantava, tomando a resolução que para sempre se lhe gravaria no epitáfio.
-
Amortalhou a caneta, as folhas, as outras canetas, e deitou-as ao caixão da memória. Para sempre disse então: "nunca escrevi uma linha que fosse nestas 10 décadas em que me engradeço".
- - -
Gorpiato Cantirbo, n. 1900 - m. 2001.
Homem comum, nada dado às artes.
"Filisteu nasci, filisteu morri", ouviu-se ao último suspiro, num esgar raivoso.
Que a terra lhe seja leve.

HOJE:

por Francisco

alea jacta est

por Ary em segunda-feira, 13 de abril de 2009

A maior parte do oxigénio presente na atmosfera terrestre foi libertado por algas.

Páscoa ateia

por Sara Morgado em domingo, 12 de abril de 2009

Hoje é domingo de Páscoa.
Cá em casa faz-se uma mousse de morango para fazer de conta que o almoço foi diferente e não dar um ar demasiado ateu à coisa. As pessoas na mesa são as mesmas, o almoço acaba à mesma hora de todos os almoços de domingo. Uns vão ler, outros dormir, outros ver tv, outros fazer outra coisa qualquer depois de saírem da mesa. Por mais que os pais ateus tentem, não há Páscoa cá em casa.
Mas, mesmo em casa de descrentes, tenta-se qualquer coisa.
É estranha esta forma da religião entrar em casa, nos horários, na moldura das férias da escola e de trabalho, nos feriados e nos dias de descanso, na gastronomia, nas prendas, nas relações com os familiares, nas cidades, nas festas da casa… mesmo que dos ateus. Mesmo dos mais assertivos, que em nada acreditamos e, mesmo não acreditando, vemos a vida moldada pela religião lá de fora e acabamos por não nos importarmos ou sequer ligarmos à nossa cedência.
E, agora que penso, não sei quantos ateus, por mais ateus que sejam, conseguiriam abdicar totalmente de um Natal.

Nunca.Nada.De ninguém

por Angelina em sábado, 11 de abril de 2009

Queria ter descansado não me lembro dum único dia que não acordasse com o telintar rotineiro do despertador do telemóvel
Queria ter ido a praia o tempo não ajudou
Queria ter ficado um dia inteiro na cama,metida comigo mesma,afastada do Mundo e ao mesmo tempo em todo o lado.
Queria ter viajado..mas viagem só a da força do pensamento (e não será esta a forma mais abrangente-e mais barata- de sair do marasmo da nossa vida)
Queria ter estudado faltou-me paciencia
Queria ter visto toda a minha lista de filmes para vêr..só vi um
Queria ter começado um livro novo ..e ainda tenho o velho na cabeçeira pousado
Queria ter aliviado o stress e acho que ainda arranjei mais motivos para stress
Queria ter ido sentir a areia nos pés
Queria poder ter sido possivel ir berrar e dançar debaixo da chuva
Queria ter pensado" faz tudo o que te apeteçer e não penses no dia seguinte"
Queria ter estado com todas as pessoas que quis,feito tudo que previ,organizado tudo que precisava.

Mas o dia só tem 24h e as gavetinhas das memorias em surdina e dos sonhos recalcados estão todas abertas e desorganizadas e ocupam tempo e rendimento fisico e mental.Irrita-me quando as coisas fogem ao meu controlo ...a toda a gente,irrita-me ser invadida por um vil diletantismo que so planeia e não concretiza...irrita-me acordar um dia com aquela sensação que tudo é possivel a abrir os olhos ao Mundo e de algum modo terminar o dia fechada em copas.E não tarda está aí a rotina outra vez..semana volta para trás.

"life isn't about waiting for the storm to pass.It's about learning to dance in the rain" como já se disse num post a proposito de outra frase feita..parolo mas verdade.

*o titulo vem de uma peça de teatro que um dia representei sobre perdas ..nem sei porque me lembrei dela mas de algum modo julguei-a ajustada.

escrito ao som de "por una cabeza" tango de Carlos Gardel

Boa Páscoa para os tribuneiros e leitores do blog