No silêncio, as palavras

por Ricardo Mesquita em sexta-feira, 10 de abril de 2009

Gosto de igrejas vazias. Gosto de sentir que há espaço para mim e para aquilo que carrego debaixo do silêncio; gosto de sentir que não há ninguém a roubar-me o ar de que preciso e que me falta no peito, tantas vezes.
Tenho ido a umas igrejas, dessas escondidas da poeira do mundo e da sua voz, para ouvir o silêncio. Para ouvir as perguntas, para não ter nada com que as abafar e elas sairem assim - nítidas e pela minha voz.
Estive muitas vezes sentado num desses bancos, a desenrolar a alma e as suas curvas, sem ter de levantar muito a voz, sem ter de a ouvir sequer. Houve rostos que vi com a vida pendurada por um fio àquela nesga de esperança que era a paz emprestada por uns segundos.
Perguntava-me o que lhes iria debaixo da pele; o que seria isso da vida sair ao contrário mas continuar a ser vida.
Provavelmente não mais verei os rostos daquela gente que, fora do umbral daquelas portas, se perderá de mim, sem volta.
Fui lá para ouvir a profundidade das ausências, para ver até onde iria o avesso dos sonhos. Para ouvir o que calamos tantas vezes à superfície, por debaixo de uma vida que continua e que gostamos de acreditar que acompanhamos sempre. O Mundo não pára connosco. E o sentirmos que há nesse movimento incessante uma fibra e uma força que nos falta, faz-nos recolher a todos, sem excepção, ao silêncio que nos devolve como resposta um silêncio com a calma do peso que saiu. Um silêncio que tem como resposta um silêncio calmo como um abraço fechado, onde se choram lágrimas que são palavras feitas água.
Não fui para falar. Não fui para ouvir respostas. Fui para ouvir em mim o que sempre falou. E não tive medo de palavras que não queria ouvir, de esbarrar com a incompreensão.
Devolveram-me as paredes a calma e o silêncio, onde pude ouvir a memória do que já não tenho e, onde me pôde visitar assim banhada por uma luz tenra, a saudade infinita, que chegara. Não me senti sozinho naquele banco.
Levantei-me, olhei para trás, para aquele mesmo banco de igreja. Não sei quando voltarei. Sei apenas que ali ficou de mim o silêncio que não quebrei mas que ouviu dizer da minha boca em silêncio, o que o Mundo não pode ouvir sem palavras.
Havia saudade. E fiquei feliz - por ser a saudade a prova que dói do amor que ainda temos por alguém. Que dói o amor. Mas que, mesmo com dor, é amor. Como alguém que sai pela porta de uma igreja sem saber quando volta. Mas que voltando, tem um banco onde a luz nos recebe como os braços de alguém que nos ama.

O Belicista

por Duarte Canotilho

Dado que estamos numa onde de apocalipse.. (ver os ultimos comments do post do bear grills) mostro aqui um video sobre um futuro pós apocalipse núclear.

Enjoy...

http://www.youtube.com/watch?v=iYZpR51XgW0&feature=related

Zenhas Mesquita ou o Ultimate Survivor

por Zenhas Mesquita em quarta-feira, 8 de abril de 2009

Para mim, a chegada das ferias, significa quase sempre uma ida ao campo. A vida rural é então já uma banalidade, tanto, que as coisas que por la faço são as mais naturais. Esta noção de que tenho do mundo onde vivo, foi abalada nos últimos dias. Descobri que a visão da cidade, aos meus passatempos na aldeia, é quase que a de um espectador a ver o Bear Grylls no Discovery Channel. Afinal eu sou o verdadeiro Ultimate Surivivor

#24 às terças, quase como acaso

por TR em terça-feira, 7 de abril de 2009

Amaneirado, sê-lo-ia, sê-lo-ia. Tão amaneirado como outra coisa qualquer. Tinha maneiras, maneiras em excesso, sobrando-lhe um certo jeito de dizer umas quantas coisas.
Dizia-as flutuando, em demasia, e por isso amaneiradamente, amaneirando-se. No fim virou amaneirado, coitado, mas sempre (faça-se a vénia) como um cavalheiro...à maneira.

Fado incerto

por Anónimo


"Não parei de pensar desde a última vez que tivemos juntos. Tudo é mais difícil agora e não te sei explicar porquê. Quer dizer, o sentimento é tão claro e óbvio, mas por outro lado não vejo uma palavra que o descreva na perfeição. Talvez porque custe ser claro para os outros, talvez porque me apeteça fugir desse confronto. Não sei ao certo o que torna isto tão mas tão árduo e não sei como tirar estas cordas dos meus braços e pernas. Prometi dar-te um presente, fi-lo em forma de escolha, numa mão tinhas uma pequena marioneta (bastante catita) na outra mão tinhas a mais hedionda rosa. A tua escolha, amarga a meus olhos, nunca foi clara. Digo-te hoje o que significava cada: a marioneta, era eu, podias (e se calhar sempre o fizeste) brincar comigo, estrangular-me, desmembrar-me, odiar-me, fazer preces à Fortuna para que me magoasse; a hedionda rosa, era e será sempre a mesma peça de teatro, o mesmo palco onde tu e eu nos perdemos constantemente e nenhum de nós se levanta e assume posição. Não sei ao certo o que é que escolheste deste presente nunca desejado por ti, mas como oferta tinhas que o receber, pois odiares-me é fácil, mas fazê-lo friamente e claro é coisa que de ti nunca esperarei. De ti e de qualquer outrem que se diga pessoa, não é assim? A vida tem destas coisas, ser-se inocente ao ponto de se acreditar no Homem.

Quero-te falar do ódio e como sinto que é perda de tempo. Li em tempos que nunca deviamos perder tempo a explicar ódio e desgosto por alguém quando podiamos aproveitar tais momentos para demonstrar amor por aqueles que gostamos. Sábias palavras e se isto foi algo que sempre senti até hoje, depois de lidas (aquelas palavras) tornou-se fé, fanatismo, religião. Amar em vez de odiar, é assim tão difícil? E aqueles momentos em que somos sinceros, mas que para terceiros somos tão frios que magoamos os outros? Paradoxo? Provavelmente quando somos frios e magoamos só queremos o melhor para essas pessoas e quiçá depois de tanta frieza elas crescem no agir e tornam-se mais afáveis, alegres e amorosas.
Penso no que te digo e sinto-me estúpido, falo-te de amor. Coisa estúpida essa, não é? Para que falar de amor se podemos perder o nosso dia a falar de todas as outras coisas que nos afastam dele? Se podemos discutir tudo o que é importante para manter os teatros, essas hediondas rosas. Digo-te, em qualquer ocupação tua, vais encontrar amor. Olha, o caso daqueles mesquinhos advogados e senhores do direito, eles a serem tal, amam a justiça, não é assim? Seja lá o que ela for, afinal de contas é so mais um anelo subjectivo de cada um, certo? Podes não acreditar no que te digo, não é censurável.
Gosto de perder horas a descrever o amor com amor na fala e se tal acção se confunde com alguma fragilidade minha, apenas vos digo na minha humilde posição que têm que ser livres (se assim o desejarem).

Mas, não me quero perder neste devaneio, voltemos ao início: "Não parei de pensar desde a última vez que tivemos juntos". Sei o que dizer em seguida, sei o que pensar, sei o que esperar e desesperar, mas não sei o que fazer concretamente. É tudo tão confuso, mas já não parte de mim. É certo que amo, amo as pessoas, mas já dei tanto, porque tem que partir de mim? Cada vez mais a minha alma se liberta e todas as correntes passam de mim para ti (vós)."

Um dia, talvez, o cansaço crescerá em mim de tal forma que falar de amor me provocará enjoo. Nesse triste (e que triste) dia, deixarei de ser Homem, não é assim?"

alea jacta est

por Ary em segunda-feira, 6 de abril de 2009

Quatro cavaleiros do apocalipse


Guerra - Cavalo Branco
Peste - Cavalo Vermelho
Fome - Cavalo Negro
Morte - Cavalo Esverdeado

Por mais que as modas mudem

por Sara Morgado em domingo, 5 de abril de 2009

Há bandas que, de certa forma, são nossas. É a “nossa” banda, enquanto os anos passam. Sabemos que essas músicas para nós nunca vão deixar de soar, por mais que os sons sejam já diferentes, por mais que as pessoas à nossa volta já estejam fartas de nos ouvir falar dela. Começamos a encaixar diversas músicas e diversas letras em diversas alturas da nossa vida. Quando dá aquela batida, sentimos de novo aquilo que sentimos em determinado acontecimento. Sabemos que um álbum, por mais vezes que tenha sido ouvido, nunca nos cansa. Gostamos de descobrir pequenos segredos nos álbuns, gostamos que nos surpreendam com pequenas notas e truques escondidos e, depois de tanto tempo, ainda cantam alguma coisa que nos faz pensar “é mesmo isto”.
Eu comecei a ouvir quando era pequena. Inicialmente ouvia porque era o que dava cá em casa, depois comecei a gostar de algumas, mais tarde deliciei-me com a obra.
Por mais que as modas mudem, isto perdura:


Tanque - Ornatos Violeta

Lembrei-me agora

por Francisco

de que na edição escrita de Dezembro, a minha coluna era suposto ter uma imagem. Entretanto, por manifesta falta de espaço, não foi possível colocá-la.
Deixo-a aqui agora, pouco importando estar sem texto, dada a força que representa. Convido quem quiser a jogar ao "quem é quem?". :)

Sitting..waiting...wishing

por Angelina em sábado, 4 de abril de 2009

Um dia ele chegou tão diferente
Do seu jeito de sempre chegar,
Olhou-a dum jeito muito mais quente
Do que sempre costumava olhar,
E não maldisse a vida tanto
Quanto era seu jeito de sempre falar,
E nem deixou-a só num canto,
Pra seu grande espanto
Convidou-a pra rodar.

Então ela se fez bonita
Como há muito tempo não queria ousar.
Com seu vestido decotado,
Cheirando a guardado de tanto esperar.
Depois os dois deram-se os braços
Como há muito tempo
não se usava dar,
E cheios de ternura e graça
Foram para a praça
E começaram a se abraçar.

E ali dançaram tanta dança
Que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade
Que toda a cidade se iluminou.
E foram tantos beijos loucos,
Tantos gritos roucos
Como não se ouvia mais,

Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz.


Música:Valsinha
Autoria: Chico Buarque e Vinicius de Moraes
Interpretação: Chico Buarque

Rapariga citadina parte para o campo

por D.

Mais precisamente para uma aldeia transmontana encravada entre penedos, vinhas, muitas árvores de cortiça e amêndoa, rios, afluentes e outros que tais de que o nome não me recordo. Confesso que nunca tinha passado no campo mais de dois ou três dias, sempre em turismo, ou e no caso de ter ficado lá uma semana, com um grupo grande de pessoas da cidade, o que sempre ajuda a disfarçar a ausência de coisas. Confesso portanto que parti com uma certa ideia de confusão na cabeça sobre o que encontrar, o que fazer, com que serviços contar nas redondezas. Depois de gozada por achar que nas aldeias existe pelo menos uma farmácia para casos mais urgentes, já que qualquer posto de saúde fica relativamente longe entre curvas dementes, e pelo facto de não existir sequer um café onde matar o vício, lá parti com a mochila cheia de coisas potencialmente capazes de encher o tempo. Ou seja, vim com cerca de vinte filmes e uns cinco livros, além de trazer o portátil e a internet na esperança de arranjar um pouquinho de rede.

Ora, sucede que o campo se mudou. E embora tudo permaneça por fora igual, a verdade é que (e recordando um texto que escrevi há umas semanas atrás), é agora possível ter tudo ao dispor como se estivesse em casa. Existe agora rede de telemóvel em qualquer lugar e a própria internet funciona, o que faz chegar os recados e informações longe e rápido, o que nos permite inclusive continuar a trabalhar. Com a simples vantagem de que aqui se pode andar mais lento, se pode sentir uma brisa quente e abafada a mostrar um pouco daquele que será o verão por estas bandas, com o rio límpido a convidar a entrada dos pés e as flores sempre a pedir que se cheire (o que não faço, pois desde pequena que sei que o meu cabelo projecta nas abelhas um certo desejo de pousio, pelo que para evitar pânicos desnecessários, prefiro ficar quieta).

Mas contudo, aqueles que de cá são mantêm-se parados no tempo, entre aldeias onde restam poucos, muitos poucos, estradas sem condições, escolas fechadas, parques infantis sem gente, serviços totalmente ao abandono e uma permanente solidão no olhar, entre crenças, devaneios, mas contudo sorrisos sempre prontos para aqueles que da cidade chegam. Com as histórias de padres que se perdem em mulheres e no álcool, lendas antigas onde nasceram as terras e filhos de primos e primos que tornam a descendência contaminada geneticamente. Existe nessas pessoas uma expressão no rosto que lembra que o tempo aqui parou. E embora muitas coisas tenham cá chegado, elas não notam, porque simplesmente não sentem essa permanente necessidade de ter tudo na palma na mão, de ter todas as distâncias asseguradas em segundos sem precisar sequer de sair de casa. Existe uma evolução que parece apenas ser notada pelos de fora, existem gerações que permanecem anos atrasadas, como se vivessem num universo onde o ritmo corre com certeza mais devagar. E a única coisa que consigo pensar é como será possível viver sem expectativas no sítio onde crescemos, sabendo que os nossos filhos provavelmente vão passar pelo mesmo e sabendo que nunca se irá conseguir evoluir, porque simplesmente se foi esquecido por tudo o resto à volta.