Sitting..waiting...wishing

por Angelina em sábado, 4 de abril de 2009

Um dia ele chegou tão diferente
Do seu jeito de sempre chegar,
Olhou-a dum jeito muito mais quente
Do que sempre costumava olhar,
E não maldisse a vida tanto
Quanto era seu jeito de sempre falar,
E nem deixou-a só num canto,
Pra seu grande espanto
Convidou-a pra rodar.

Então ela se fez bonita
Como há muito tempo não queria ousar.
Com seu vestido decotado,
Cheirando a guardado de tanto esperar.
Depois os dois deram-se os braços
Como há muito tempo
não se usava dar,
E cheios de ternura e graça
Foram para a praça
E começaram a se abraçar.

E ali dançaram tanta dança
Que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade
Que toda a cidade se iluminou.
E foram tantos beijos loucos,
Tantos gritos roucos
Como não se ouvia mais,

Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz.


Música:Valsinha
Autoria: Chico Buarque e Vinicius de Moraes
Interpretação: Chico Buarque

Rapariga citadina parte para o campo

por D.

Mais precisamente para uma aldeia transmontana encravada entre penedos, vinhas, muitas árvores de cortiça e amêndoa, rios, afluentes e outros que tais de que o nome não me recordo. Confesso que nunca tinha passado no campo mais de dois ou três dias, sempre em turismo, ou e no caso de ter ficado lá uma semana, com um grupo grande de pessoas da cidade, o que sempre ajuda a disfarçar a ausência de coisas. Confesso portanto que parti com uma certa ideia de confusão na cabeça sobre o que encontrar, o que fazer, com que serviços contar nas redondezas. Depois de gozada por achar que nas aldeias existe pelo menos uma farmácia para casos mais urgentes, já que qualquer posto de saúde fica relativamente longe entre curvas dementes, e pelo facto de não existir sequer um café onde matar o vício, lá parti com a mochila cheia de coisas potencialmente capazes de encher o tempo. Ou seja, vim com cerca de vinte filmes e uns cinco livros, além de trazer o portátil e a internet na esperança de arranjar um pouquinho de rede.

Ora, sucede que o campo se mudou. E embora tudo permaneça por fora igual, a verdade é que (e recordando um texto que escrevi há umas semanas atrás), é agora possível ter tudo ao dispor como se estivesse em casa. Existe agora rede de telemóvel em qualquer lugar e a própria internet funciona, o que faz chegar os recados e informações longe e rápido, o que nos permite inclusive continuar a trabalhar. Com a simples vantagem de que aqui se pode andar mais lento, se pode sentir uma brisa quente e abafada a mostrar um pouco daquele que será o verão por estas bandas, com o rio límpido a convidar a entrada dos pés e as flores sempre a pedir que se cheire (o que não faço, pois desde pequena que sei que o meu cabelo projecta nas abelhas um certo desejo de pousio, pelo que para evitar pânicos desnecessários, prefiro ficar quieta).

Mas contudo, aqueles que de cá são mantêm-se parados no tempo, entre aldeias onde restam poucos, muitos poucos, estradas sem condições, escolas fechadas, parques infantis sem gente, serviços totalmente ao abandono e uma permanente solidão no olhar, entre crenças, devaneios, mas contudo sorrisos sempre prontos para aqueles que da cidade chegam. Com as histórias de padres que se perdem em mulheres e no álcool, lendas antigas onde nasceram as terras e filhos de primos e primos que tornam a descendência contaminada geneticamente. Existe nessas pessoas uma expressão no rosto que lembra que o tempo aqui parou. E embora muitas coisas tenham cá chegado, elas não notam, porque simplesmente não sentem essa permanente necessidade de ter tudo na palma na mão, de ter todas as distâncias asseguradas em segundos sem precisar sequer de sair de casa. Existe uma evolução que parece apenas ser notada pelos de fora, existem gerações que permanecem anos atrasadas, como se vivessem num universo onde o ritmo corre com certeza mais devagar. E a única coisa que consigo pensar é como será possível viver sem expectativas no sítio onde crescemos, sabendo que os nossos filhos provavelmente vão passar pelo mesmo e sabendo que nunca se irá conseguir evoluir, porque simplesmente se foi esquecido por tudo o resto à volta.

Paz&Espada

por Manuel Marques Pinto de Rezende

Acabo de sonhar.

estou a passar numa rua, e encontro uma fotografia no chão. Nessa fotografia estou eu, numa rua, a encontrar uma fotografia no chão. Nessa fotografia, que eu encontrei numa fotografia que encontrei no chão, estou eu, numa rua, a encontrar uma fotografia no chão. Nessa fotografia, que está na fotografia da fotografia em que eu encontrei uma fotografia no chão, está a minha gata, a Evita Perón, a queixar-se aos inquilinos do facto de estes deixarem entrar humanos nos seus apartamentos.

Tudo é relativamente relativo, à excepção talvez das torradas de manteiga. Há dias descobri que ser um filho da puta será, dentro de poucos anos e já em vários países, equivalente a chamar alguém de filho de um advogado (dizem-me da sala ao lado que já é há algum tempo), ou filho de uma lavadeira ou de um Primeiro Ministro (de novo manifestações da sala ao lado no sentido exacto da anterior chamada de atenção). Não tenho grandes problemas com isso, ao contrário do que possa parecer. Andam para aí muitos filhos da puta que adorariam ver a sua situação legalizada, e não podem. Para que serviu a Revolução, pá? Vamos pôr os filhos da puta a recibos verdes? Mais um pouco e vai chegar para receber uma comenda da Ordem de Cristo.
Fico triste com a República por causa disto também, das medalhas e das comendas da Ordem de Cristo. Digam-me vocês republicanos, que eu sou um súbdito escravizado, porque me lixam as medalhas e as comendas da Ordem de Cristo? Não podiam antes criar a comenda da Ordem de Afonso Costa? A comenda do Zeca Afonsomaisasmerdasdasmúsicasderevolução? É que eu nem me atrevo a dizer isto em separado. Hoje em dia, criticar o Zeca Afonso é ser insensíve,l e eu, que sou insensível como um bruto camafeu, não gosto que o saibam.
Mas continuando. Porque me lixaram as medalhas e as comendas de Cristo? Respondam-me republicanos. É que a Ordem de Cristo até eram uns simpáticos frades. Moviam-se por ideais como a bravura, a dedicação a Rei e Pátria (sim, já sei, Pátria não existe, é coisa que não existe, é como Deus e o fim do imposto sobre o rendimento, mas vá lá, eu acredito nessas coisas) a compreensão e a tolerância. Ideias que criaram Portugal. Mas vocês tinham de estragar tudo. Vocês não percebem que não são Portugal, mas antes a República Portuguesa? Criem as vossas comendas e ordens. Deixem os meus avós descansados nas tumbas. Usar os hábitos dos frades para legalizar filhos da puta, vai de hoje para quase trinta anos, não dá com nada. Eu nem tenho nada contra isso, por muito que pareça o contrário.
Aborrece-me, pronto, é só isso.

Nas ruas

por Ricardo Mesquita em sexta-feira, 3 de abril de 2009

Às vezes, saía sozinho de casa. Não lhe apetecia ir a lado nenhum. Talvez o bom fosse mesmo não haver esse ter que ir ou ter que fazer. E achava-se sozinho na rua. Em geral, era hora do poente quando punha o seu corpo à deriva naquele mar de caminhos.
Sabia-lhe bem a cidade com o silêncio e a sua companhia somente. Descia para ver o mar. Muitas vezes dava consigo a não resistir ao apelo constante do horizonte largo. Outras vezes havia em que seguia o impulso e descobria novas linhas no mapa que achava já conhecer da cidade. Apareciam-lhe recantos novos nas dobras de paredes onde se ancorava a memória.
Olhava as janelas e não raras vezes havia gente que lhe sorria lá de cima, quem sabe recordando romances de idades perdidas.
Fixava os olhos no ferro moído das varandas apertadas onde floresciam rebentos pequenos de cor. E imaginava a vida a acontecer do lado de lá. Imaginava as dores de mortes repentinas; lágrimas enraivecidas de caprichos não satisfeitos; risos abertos como teclas de piano; sonhos e gritos; gestos pequenos e esperanças amplas a acontecerem no corpo redescoberto da sua cidade.
Gostava que houvesse vida por perto e que o caminho desvendasse um pouco do seu mistério como se ele a surpreendesse num momento de distracção. Não se fazia notar. Levava no seu olhar a atenção sem expectativa. Não lhe veriam as pessoas nos olhos um desejo do que quer que fosse. Só isso era vida - a corrente decidida de um rio que corre sem espartilhos coalhada pela luz alva da manhã.
Reparava nos rostos enquanto ainda eram seus. Imaginava-lhes as vidas, que todos haviam sido pequenos. Crianças com vozes de uma meiguice trapalhona de caramelo. Às vezes, as pessoas sorriam-lhe. E ficava a ocupar o silêncio a doçura de um olhar caloroso.
Achava que saía para ver a vida. Não queria participar nela. Queria chegar e surpreender a vida em movimento ou num silêncio quieto, desde que o não notassem. Talvez a vida se esquecesse dele ou ele, pelo menos, se sentisse menos em si naqueles momentos.
Na vida dos outros não havia o peso da sua vontade. Não tinha de carregar nos passos a direcção que as decisões sempre dão à vida. Sabia-lhe bem a vida vista assim de fora - os sonhos dos outros a acontecerem e ele a chegar como uma personagem que o sonho deles jamais pudera imaginar que viria.
Não queria ser o sonho dos outros ou sequer pôr neles o seu corpo. Mas isso de alguém chegar ao nosso sonho enquanto a vida corre, lembrava-o que o sonho também o pode desejar por nós a vida. E que o sonho era o corpo de mãos dadas com a vontade mas com uns olhos muito vivos. "De surpresa", pensava ele.

O Belicista

por Duarte Canotilho

A história do homem mais audaz.....


Era uma vez 7 gajos, que estavam em cima de um penhasco armados com Katanas
.... E de repente o mais audaz....
... saca da katana.... e..
Pimbas pimbas zas traz!

Quantos achas que morreram?
(alvitra um numero entre 0 e 7)

Eu vou -te contar como aconteceu....

Estavam 6 rapazes e uma rapariga num quarto.... a comer um callipo.....
e de repente o mais audaz.....
pega num chicote.... e...
Pimbas pimbas zás traz.....

Quantos é que achas que morreram?
(alvitra um numero entre 7 e 0)

Eu vou-te contar como aconteceu.....

Estavam 5 homens e 2 furões numa mata.....
e de repente o mais audaz....
pega numa caçadeira... e....
pimbas pimbas zás traz....

Quantos achas que morreram?
(alvitra um numero entre 7 e 0)´

Eu vou te contar como aconteceu...

Estavam 6 loiras e uma morena num café....
.... e de repente a mais audaz......
Pega numa cadeira e ...
pimbas pimbas zás traz....

Quantas achas que morreram?
(alvitra um numero entre 0 e 7)

Eu vou-te contar como aconteceu...

Estavam 9 motoqueiros (motociclistas) numa concentração de motards a beber cerveja!
... .de de repente o mais audaz...
pega num tubo de escape...e ....
pimbas pimbas zas traz....

Quantos achas que morreram?
(alvitra um numero entre 0 e 9)

Eu vou te contar como aconteceu....

Estavam 3 marinheiros num bote no meio do mar....
.... e de repente o mais audaz....
saca de um remo e ....
Pimbas pimbas zás traz....

Quantos achas que morreram?
(alvitra um numero entre 0 e 3)

eu vou-te contar como aconteceu....

Estavam 5 gajos do street fighter a lutar numa mega drive.....
.... e de repente o mais audaz....
saca de um Hadoken... e....
Pimbas pimbas zas traz....

Quantos achas que morreram?
(alvitra um numero entre 0 e 5)

Eu vou-te contar como aconteceu....

Estavam 3 homens e 7 mulheres a jogar poker.....
.... e de repente, de todos o mais audaz,....
Saca de um revolver,... e....
pimbas pimbas zas traz

Quantos achas que morreram?
(alvitra um numero entre 0 e 10)

Eu vou te contar como aconteceu....

Estava 2 reclusos a tomar banho numa penitenciaria, sai um entram 5, saem 6, entram 9, e saem 4, entram 7 ,e sai um.....
Mas..... de repente.. de todos o mais audaz,
saca de um chino.... e.....
pimbas pimbas zas traz

Quantos achas que morreram?

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In histórias dos acampamentos da minha juventude

Post piroso mas verdadeiro

por Inês

Use your skills - the forest would be very quiet if only the best bird sang.


(fotografia de Afonso Bianchi)

por Joana Maltez em quinta-feira, 2 de abril de 2009

Todos os dias existem para que tenhas
um nome e um corpo por onde te possas deixar ir
todas as cicatrizes são vísiveis na tua pele.

Existe o teu corpo manchado porque assim
posso ver-te sem que te doam as lembranças.

Hoje, digo-te que são barcos-de-papel
que rasgam o horizonte.
Estamos sentados apenas
para que o mundo se escreva à medida
que o olhamos.

Podemos fazer com que se vejam crianças
enquanto esperamos
- desenharemos mundos como se existissem já -
e não apenas nas nossas noites.

Debaixo dos pés resta a maresia - quando
olho, não são volumes que me enchem a consciência
mas sim sombras de homens que me circundam.

Os homens são isso mesmo: o que não conseguiram
ser.

Tentarei fazer com que os gritos soem menos
estridentes quando lançados a meio da noite
mas não podemos fazer com que se vejam, porque os
espelhos têm costas por onde só nós nos
sabemos perder.

Por entre as paredes, sussurra-se o nome
que me parece ser o teu.

Agora espero que o silêncio tome conta das
faces febris no soalho e que os meus pés percam
qualquer sentido.

Para que me deixem por aqui sem qualquer vislumbre
de alguém conhecido.



Sérgio Xarepe

SIRAP

por Luísa

Olho em redor. O mesmo sitio. As mesmas coisas. Pessoas diferentes.
Recordo.
Parecem lugares diferentes. Não tinha reparado no obelisco. Não sabia que aquele ponto branco era a celebração daquele triunfo. Não imaginava que fosse possível encontrar uma grande maçã naquele lugar.
Comparo.
As conversas. Os gestos. O "à vontade". A vida não pára e o ano passou.

quem diria...
As voltas que o mundo dá. E tudo permanece igual.

por Zenhas Mesquita em quarta-feira, 1 de abril de 2009

Ainda mais um recorte do meu fim de tarde:



Doutor Fausto, visto segundo Murnau

Bezerra da Silva

por Zenhas Mesquita




Boa tarde a todos. Hoje inicio aqui as minhas crónicas, espero que gostem.




Um fim de tarde como tantos outros pelo meu belo subúrbio. Como sempre dou uma volta pelos meus arquivos de música no computador e deparo-me com algo novo. Bezerra da Silva, um disco que por algum motivo o meu irmão arranjou, ponho-o a girar com uma certa curiosidade de nome tão peculiar e dos nomes das musicas, que são do género, Opera do Morro, ou Samba do Malandro. Estaria a mentir se disse-se que não gostei. Um samba agradabilíssimo ao ouvido, que só fala em maconha e malandragem. Imaginei-me por momentos com um fato branco e toda a minha malandragem na favela a relaxar . Se nos EUA ao rap saído dos guettos chamam de gangsta, então isto terá de ser Gangsta Samba ! Estou agora a gravar este belo CD, certamente o nosso bom Marques da Silva vai adorar isto.