Les jours tristes(...)
"Porque me hás de educar no amor se já amei?"
"Não percebeste o que te quis dizer..."
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Não é costume sair sem passar pelo meu querido Café, mas o dia de hoje seria uma excepção, uma triste excepção acrescente-se, com a qual aprendi o porquê de apenas me sentir bem quando recebido pelo Café lá do sítio. Fui a uma daquelas casas de sorte e fortuna e tornei-me num jogador, esta noite marcou os acontecimentos que se seguiram nos dias a seguir, pelo menos marcou o fim da minha vontade, do meu arbítrio, do sentimento de poder escolher. A primeira mesa onde me sentei a jogar (tratava-se de Blackjack* penso) prendeu-me a noite toda, não notei a minha tristeza na altura, talvez a minha ponderada companhia tenha criado aquela atmosfera apática a que uma pessoa não pode fugir e que torna o fingimento uma necessidade.
*o que significa o 15 no blackjack? Pura apatia; indecisão na aposta!
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E depois de levar por uma última vez os lábios ao café, e cerrado já o meu último sorriso, disse-lhe em minutos o que em anos não conseguira.
Ela já o sabia, apenas não o escutara ainda.
Paguei os dois cafés e saí.
Pois, eu sei. Não sou um traste.
O caminho para casa foi mais calmo. Mais silencioso.
As velhas no autocarro já não pareciam rir-se de mim. De nós.
Pois, não sou um traste.
O quarto agora parece-me mais quente. Já não ouço os relógios trabalhar.
Sento-me na cama, desenlaço a minha melhor gravata. Volto a respirar.
Não, não sou um traste. Mas tento.
- 2 comentários • Category: O Pretensioso.
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Em tempos “amigos para sempre”, havíamos embarcado de mãos dadas rumo ao que desse e viesse, carregando à vez, para a nossa nau do impossível, um pouco dos sonhos que acalentávamos. O processo fora simples e ingénuo: lado a lado dizíamos alto, um a um, o que esperávamos que a vida nos oferecesse, dividindo a realidade em pequenas fracções que, juntas, superavam o alcance do conhecido. Classificávamo-la por etiquetas, trabalho, lazer, família, aos 20, aos 40, aos 60, ao que se seguisse, e recruzávamo-la em nova combinação, saboreando ao máximo as potencialidades de um mundo sem barreiras. Indómitos e confiantes no projecto, éramos quatro, e as pequenas parcelas de esperança que depositávamos no porão da robusta nau completavam-se e sobrepunham-se entre si, garantindo para tudo o que surgisse, o que desse e o que viesse, pecúlio suficiente que acalentasse a alma e enchesse a vida.
Mas isso era no tempo em que nos julgávamos amigos para sempre. Porque, depois, virámos corpos agarrados aos destroços de uma nau em deriva.
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Nau feita de sonho, tanto sonho, devida ao acaso de um dia nos encontrarmos. Em pequenas tardes passadas lado a lado, criamos lugares imaginários à disposição de cada um: timoneiro, capitão, boticário, marinheiro, labores fadados para toda a obra, num vaivém de posições à medida de cada hora. Jogámos à bola juntos, rimo-nos das mesmas piadas, comemos lado a lado, bebemos o álcool dos mesmos gargalos, e com tudo cimentámos uma amizade simultaneamente una e trina: de um lado, feita de afecto ao grupo a que, juntos, dávamos corpo; do outro, de três pequenos laços particulares que cada um formava com os restantes. Ali, à mesa do café, passaram anos feitos de sorrisos, compadrio, provocações: a bola, as mulheres, a escola, a política, tudo se erguendo como palco magistral para disputas de palavras, onde cada um lutava por fazer valer suas ética e estética. Havia ainda o sonho, a idade nunca como óbice suficiente para castrar as potencialidades da imaginação: sim, ainda iríamos à lua, seríamos estrelas de futebol, de cinema, da música, arrastaríamos multidões do alto de um púlpito, e teríamos todo o mundo ao alcance da própria mão…
E no fim, no fim ríamo-nos, saboreando os bons pedaços por lá passados.
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Mas a nossa nau, como feita de sonho que era, não resistiu à turbulência da vida.
Pelo tempo seguindo diferentes rumos, separamo-nos do serão à mesa do café, descobrindo a custo como o tempo só corre num sentido. Podíamos querer corrigir erros do passado mas, para sempre, tudo ficaria implacavelmente cravejado na nossa história. Não, nunca voltaria o momento em que nos iríamos conhecer do novo, ou àquele em que evitaríamos o fim do encontro à mesa. As opções de cada hora viravam sempre irreversíveis, de nada servindo carpir mágoas com vista a tornear o acontecido. Ainda assim, mais do que o arrependimento pelo que se não fez, pesava-nos o medo de, no futuro incerto, fosse pelo que fosse, fraquejar na hora de tomar a recta via. Cobardia, fraqueza, insegurança, a ameaça permanente de ceder planava em nosso torno. Agora, perante o perigo de nos afogarmos na vertigem do quotidiano, apenas podíamos contar, para o que desse e o que viesse, com os destroços de uma nau erguida em anos de sonho. Altos projectos, distintas cavalarias, trocávamos tais esperanças por pequenas vitórias no dia-a-dia.
(Terminar o curso sem solavancos, escrever um bom poema, conseguir um emprego, ganhar à bola num jogo de condiscípulos, encontrar quem nos desse uma vida plena, assim se pintavam agora os voos que queríamos viver.)
Chamava-nos o mundo.
Depois do tempo da infância, o apelo para nos tornarmos homens, metendo as mãos à terra, ao martelo, à foice, à caneta, ao trabalho. Só pelo trabalho, sugeriam-nos, chegaria a redenção para os meninos que, ingenuamente, sonharam um dia poder ser deuses. Começamos a perceber ser esta a via para encontrarmos o nosso lugar no mundo: insertos no meio da multidão, anónima e dispersa, com o imenso desafio de colocar o nosso melhor nas diversas tarefas que se nos apresentassem e, assim, ir lentamente construindo um lugar onde a felicidade fosse senhora e rainha.
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(Bafejados pela sorte, alguns de nós farão seu um pequeno lar, porventura com um dístico à entrada, dizendo
“Boa viagem, meu amigo”
Tudo num belo trabalho de artesão, baixo-relevo, fruto da lapidação dos destroços de madeira de uma nau… de uma nau erguida em dias de sonho).
Originariamente publicado, ontem, aqui. Aí escrevi. "Este texto foi pensado para ser colocado amanhã. No entanto, pelo muito trabalho que tive, pareceu-me por bem colocá-lo desde já. Às 00:01 entrará na coluna às terças, quase como acaso, no blogue do tribuna."
Mote - s. m., conceito expresso em um ou mais versos para ser glosado; epífrafe, tema, divisa, legenda de brasão.
Há qualquer coisa que fica nas manhãs seguintes, pousada. Há qualquer que fica pousado nas coisas, nas manhãs seguintes. Invisível, parado, intacto, nas coisas do chão: nos copos tombados, nas folhas, nos discos que já chegaram ao fim. Há qualquer coisa que fica embalada nas alças do vestido que dorme na cadeira, calmo. Há qualquer coisa que adormece lenta sobre o pó do tampo da cómoda e nos batons das gavetas abertas, que se enrosca nos cabelos despenteados na almofada, terno. Há qualquer coisa que se espalha pelas paredes do quarto, pelo tecto, que vive nos raios pálidos claros do sol que nos visitam, que nos chegam até à cama, até aos lençóis brancos. Há algo tímido, sem forma e sem cor, mas calmo e morno que se deita lentamente no quarto em silêncio, que começa a acordar, que chega ao pescoço e atrás das orelhas e nos descola as pálpebras docemente.
Agora que dentro do avião de regresso à minha faterna Cuba repenso tudo o que se debateu e deixou por debater durante três dias, penso que é de facto bom voltar a casa e que o mundo é um reflexo das suas políticas marcadas por peças de tabuleiro que se movem de acordo com interesses e jogos políticos cada um para seu lado sempre prontos a recuar e mudar a estratégia. Talvez seja por isso que muitas situações tendem a ficar estáticas e talvez seja por isso que muitas vezes todos nós fiquemos com a situação de que quase nada evoluímos embora muitos anos se tenham passado: os estados são feitos por pessoas e talvez por isso se comportem tal como elas. Mas, e embora baixar os braços fosse a situação mais fácil, numa leve embalação no espírito de inércia, é também por isso que dá vontade de jogar também as peças e tentar numa jogada diferente de todas as outras surpreender e obrigar todos os outros a passar a jogar no mesmo sistema: um sistema alternativo e capaz de meter o motor a andar de vez.
Ou talvez esteja ainda o espiríto revolucionário adoptado por três dias a falar.
- Um comentário • Category: o espaço inominável
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"Colocamos os sonhos numa gaveta qualquer,escondidos no fundo do nosso coraçao ou naquele lugar secreto onde guardamos memórias em surdina, não as outras que nos podem acorrer de livre vontade.
Umas vezes amarfanhados,outras vezes direitinhos e dobrados ao meio, a verdade é que, por cada sonho que a vida ou os outros ou nós mesmos nos roubamos,a gaveta vai enchendo e enchendo cada vez mais.
É assim a vida.Como também acontece, um dia e de repente,a gaveta ou caixa de papelão, rebentar de tão cheia que está, de tão pesada que nos verga todos os dias e damos por nós num pranto desfeito, se tivermos sorte, ou num silêncio de morte, que cai sobre a nossa existência para não mais se levantar.
E o que responder aos outros quando nos interrogam o que passa.
Não há nada para dizer.Nada.
Simplesmente esgotámos a reserva que nos tinha sido concebida, por alguma força desconhecida,para enfrentar a realidade.
E ficamos secos,sem chama,sem alento e cumprimos os dias e nada mais.Até que certa manhã,por exemplo,a chuva cai de repente e as cores brilham de forma luxuriante,(...) ou encontramos por acaso alguém que conhecemos e que padece de males maiores.
Então, olhamo-nos de esguelha no espelho com vergonha das nossas fraquezas, limpamos a gaveta dos sonhos não concretizados e começamos do zero.Uma vez mais."
Luisa Castel-Branco (no jornal Destak).Daquelas não raras vezes em que pareçe que não se consegue associar a pessoa à escrita.
Sem inspiração para mais e com um computador que também não ajuda.
dia e noite em Paris. Clepsidra de uma Festa Pós-Modernista
por Manuel Marques Pinto de Rezende em sexta-feira, 27 de março de 2009
- 5 comentários • Category: a paz e a espada
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Lembrava-se sempre do tempo em que gostar era coleccionar a vida como se a simplicidade das coisas fosse o que tem mais valor. Guardava sempre os momentos mais raros - esses em que a vida se assemelha tanto a um corpo sem peso; a um corpo sem ele ou sem os seus limites.
O esquecimento demora sempre mais quando o amor foi intenso ou longo. Como se a borracha do seu lápis nunca chegasse para roubar às nervuras das páginas o sabor do que aí ficou gravado.
E mesmo do que engole o véu do olvidar fica sempre a marca sem cor das letras da nossa vida. Como uma folha marcada pelo corpo agora ausente do que já não há. Perguntava-se, por isso, se esquecer seria verdadeiramente possível. Porque querer esquecer, com a vontade de um desejo lá no meio, significava lembrar o que se queria esquecer.
Quando chamamos o esquecimento as coisas são uma recordação maior do que nós. E aí percebemos o quanto delas é nosso e quanto somos no que delas existiu.
Não sabia se alguma vez se esqueceria alguém ou alguma coisa. Talvez esquecer fosse ensinar ao coração a não chamar pelo nome do que lhe dissemos ser nosso. O esquecer é evitar passar por certos caminhos e evitar ver certos rostos. Até que desaprendemos como chegar até eles. Sabemos que eles existem; sabemos onde estão mas não sabemos mais como chegar até eles.
O esquecimento é a exclusão de partes do mundo. Como se nos tirássemos de uma parte do mundo para que ele deixe de nos reconhecer.
Esquecer não é apagar as coisas. Talvez seja não passarmos tanto por elas, como se o lápis não pudesse mais carregar fundo nas letras daquela estória.
Esquecer não é, pois, a absoluta dissolução do que fomos. Esquecer é lembrar mas não desejar mais o corpo do que se lembra. Esquecer é poder lembrar sem desejo.
Sabia pois que o esquecer era lembrar menos vezes. Lembrar e parar no momento em que não mais se pode desejar o que foi.
O esquecimento enquanto utopia de destruição total só persiste enquanto há ressentimento ou mágoa. Como se tentássemos provar a nós próprios que a nossa vontade pode desdizer o que aconteceu acima dela.
Depois dele vivemos na ilusão a que chamamos esquecimento. Mas, na verdade, podíamos chamar-lhe contemplação. Sabemos que o corpo das coisas está lá e mora connosco. E olhamos para elas com um olhar onde cabe a serenidade do que já não dói.
O esquecimento é, então, o esquecer a forma como recordávamos as coisas. Ou viver com a corpo dessa recordação mas aceitar lembrá-las da forma como elas podem ser.
E a forma como elas podem ser é, em geral, um não-ser do que já foram. Por isso custa tanto. Porque sabe a menos do que já foi. Porque sabe a pouco.
Mas com o tempo e o seu balouçar o nosso sonho encaixa-se no imperativo das possibilidades.
E talvez depois de termos teimado em esquecer, o que fique em nós das coisas seja a forma de as mantermos vivas. E de elas existirem sempre connosco.