conversas num café em Paris**

por Anónimo em quinta-feira, 26 de março de 2009

Les jours tristes (...)

"Bem, ragazzo! Isso não tem uma resposta clara, penso que nem pergunta se pode considerar!

Ser-se instável não é uma característica; melhor, ser-se instável é em primeira instância ser-se Homem! Nunca conheci ninguém emotivo, que sofresse e que pensasse, que não fosse instável (no sentido em que me falas). Penso que o Homem no seu concreto existir é, apenas, É. Com tudo o que esta expressão pode dizer por demasiado vaga que seja.

Jeune fille, tu és instável?

"Hmmm... Admitir tal é de facto algo de sobremaneira dificil. Num hipotético olhar objectivo, claro que seria; todavia tal frieza de olhar não é o real nem o concreto e como tal não me considero. Essa intimidade resulta de uma reserva tal, própria da pessoa em si, que nunca é demonstrável. Acaba por ser certo egoísmo nosso, mas é um egoísmo essencial e vital, um defeito da Razão dito doutra forma.

"És de facto cruel; pela forma como me falas. Fria... és incrível, falas-me de Razão! (um sentimento de desconforto surgia em mim pelas palavras pouco harmoniosas da sempre querida rapariga; levantei-me e sai a correr do Café).

Belicista... (versao adiantada)

por Duarte Canotilho em quarta-feira, 25 de março de 2009

O dia antes de amanha!


Amanha começa o MUN na catholica! O dia de hoje foi estranho, foi uma espectativa constante, foi um procurar os materiais para representar bem o país, que la vou representar. Foi um sentimento de... "ai... adorava que ja fosse amanha"

Já sinto os debates sobre procedimento, as resoluções mais espatafurdias a passarem e a serem discutidas, O lobbying..... O chamado Confraternizing.... os jantares, e os lanches All you can eat...
Mas acima de tudo está a diversão!
Hoje preparamos as armas, limpamos as espingardas, contamos as balas, para o confronto final.
Sentimos que trabalhamos umas horas, uns dias, para la chegar, e vamos mostrar o que valemos... até ao ultimo cartucho.

Não interessa se uma pessoa diz que nos nao dizemos nada de jeito.... Interessa é que nós sintamos que valeu a pena, e que démos o nosso melhor.

Dasvidanya Tavarischt

Fora de horas 2

por Guilherme Silva

A jornalista questiona-os sobre a sua relação no plateau.
Ela ri e cora. Ele sorri, e descontraidamente estende-se aos cigarros que repousam em cima da mesa, ao lado dos cocktails. Ambos concordam que é boa, mas podia ser melhor. Riem.
O fotógrafo pede que ele se chegue mais para a direita. “Por causa da luz”, diz. Ele atende, mas não sem antes soltar um esgar. Ela bate-lhe na perna. Ele sorri. Ela sorri.
A jornalista pergunta como ambos conseguiram os papeis principais do filme.
Ela explica que depois de muito esforço, três audições em duas cidades diferentes e ainda mais telefonemas, conseguiu finalmente agarrar o papel. “A mim pagaram-me”, diz ele. Ela sorri enquanto trinca a palhinha do seu cocktail; ele prepara-se para acender o cigarro.
O fotógrafo dispara.

XD

por Anónimo em terça-feira, 24 de março de 2009





Na cidade Branca, lembrei-me de vos dizer: Life is Life! XD
Demorei muito tempo a encontrar esta música nos recantos da minha memória, mas por esforço e teimosia ei-la finalmente! Enfim, coisas. .

#22 às terças, quase como acaso

por TR

IMPROVISAÇÃO SOBRE A REVOLUÇÃO
Os estudantes reuniam-se à fachada do edifício e entregavam papéis curtos
- É hoje o grande dia
nos olhos de cada brilhava a ingénua alegria que precede a revolução
- De hoje em diante, nada será o mesmo. Ainda que nos abafem, o nosso grito ecoará pelos tempos
Homem a homem que entrasse, mais um papel recheado de enunciados. Cruzavam-se invectivas contra o estado da universidade, a política geral dos governantes, o agrilhoamento das saídas profissionais.
- Vem e junta-te a nós, colega!
Ao soar da palavra do comandante, os estudantes uniram-se em massa, e gritaram alto, bem alto, as palavras que treinavam desde há dias. Hora a hora, revezevam-se às portas das salas, e mobilizavam mais contestários para a manifestação que viria nos anais
- Vens sim! Isto é importante para ti!
Oráculos, anunciavam aos que passavam o seu próprio bem, orgulhosos de o movimento não conhecer refractários ou desertores.
Os tímidos iam de voz calada, e no meio do grupo lá começavam a gritar, que a efervescência da hora proporcionava-o; os senhores de si mesmos ainda ofereciam resistência, nada que não fosse celeremente resolvido pelos senhores da revolução, que ameaça velada aqui, palavra compreensiva acolá, arrastavam-nos para o bulício. Os que, ainda assim, recusavam a dávida, eram banidos da companhia dos demais, para que o movimento fosse global, a voz de todos, sem ovelhas tresmalhadas a mancharem a sua bondade. Malditos fachos.
Os estudantes ergueram barricadas, gritaram bem alto, arremessaram as pedras do chão. Fizeram valer o seu projecto
- Queremos um mundo diferente
Os homens olharam-nos de lado, fartos do bafio da mensagem, e deixaram-nos a saborear a vertigem revolucionária, para, num dia que viesse, os acolherem ao seu largo, de braço sobre os ombros. Aí, as palavras soariam suaves
- Bem vindo ao nosso mundo.
Os estudantes, esses, que agora já não o eram, iam recebendo esse acolhimento de bom grado, orgulhosos da distinção. Depois, em conversas de memória dos tempos idos, lembravam na diversão desse dia em que ergueram barricadas, gritaram bem alto, arremessaram as pedras do chão. Em que decidiram, num acto volitivo, "ser jovens". Em que, à sua maneira, foram-no.

Quente

por Sara Morgado em domingo, 22 de março de 2009

O ar está quente. Não quente quente, mas aquele quente bom que nos anima, não se sabe bem porquê.
Há qualquer coisa na cidade que, tal como nós, a torna mais animada com as brisas quentes e suaves que lhes lambem os edifícios. O calor altera qualquer coisa na cidade, nas pessoas, nas hormonas, nas caras das crianças, nos gelados, nas fontes e nas praças, nos amigos que se deitam a apanhar sol com mochilas nos ombros e sonhos iguais, nos turistas com panfletos de tudo, nos homens de camisa e nas mulheres de óculos de sol e vestidos brancos, nos cabelos soltos, nas mensagens escritas a combinar alguma coisa para aproveitar o tempo quente, nos gira-discos que pedem um disco novo e leve, nas casas e nos carros com as janelas abertas, nas pessoas que calcam as ruas de chinelos, nas sombras das árvores, nas bebidas frescas e nos restaurantes de boa comida, na fraternidade, na amizade, na sedução, no sexo, na intensidade das coisas.
Mas isto toda a gente sabe.
Tirar uma tarde quente de sexta só para ver o Porto a mudar com o calor, vale um verão inteiro.
E pensar que talvez o mesmo esteja a acontecer em todas as cidades e pessoas deste hemisfério.

Anyway it´s bubbles in brain

por ana claudia

Chego a casa. Finalmente descanso desta semana tão cheia de tudo. Bebo vinho. Coloco um disco.

L´effondrement, Le Phare ( Yann Tiersen)


Momentos

por Angelina em sábado, 21 de março de 2009


Porque não me canso de ouvir e já lá vai um tempinho
Porque foi um feliz acaso estar a fazer zapping naquela altura
Porque fui completamente envolvida pela música
Porque é intensa e sentida pelo intérprete
Porque faz todo o sentido
Porque foi um momento tão simples mas brilhante
Porque sim !

Dos hinos

por D.

Hoje enquanto me preparava para sair, peguei no velho porta-cd’s e comecei a procurar por um qualquer cd que me apetecesse ouvir. Existem inevitavelmente categorias de cd’s e de bandas: existem essencialmente duas. Aqueles cd’s que ouvimos exaustivamente durante muito tempo porque são simplesmente viciantes, mas que passado esse tempo deixam de fazer sentido. E aqueles que ouvimos muitas vezes, deixámos de ouvir mas sempre que pegámos neles associámos a certos momentos, como se fossem hinos e percebemos que nunca deixam de ser bons cd’s.
É essa a vantagem das boas canções, conseguem ser mais do que música e ser pedaços de memória, são sorrisos quase imediatos. Em 2001, quando este cd apareceu, foi como ar fresco que veio mudar o que se fazia até então, embora o estilo não seja propriamente inovador. Mas finalmente havia rock and roll feito no século XXI e de repente todo um movimento surgia. Muitos provavelmente escolheriam a Last Night, para mim, a Someday é sem dúvida a música mais marcante deste álbum.



Someday - The Strokes

provedor de mim mesmo

por Francisco

Abrindo uma brecha no sigilo laboral do conselho editorial, queria dizer que ao ler umas linhas de Claude Levi-Strauss, percebi melhor o que o João Duarte nos quis transmitir com a sua muito própria reportagem sobre a pobreza. Confesso que nas reuniões nunca cheguei a entender como seríamos capazes de fazer uma reportagem sobre este tema que fugisse aos lugares-comuns de outras reportagens sobre o mesmo passadas na televisão, na rádio ou mesmo na internet. Não que lugar-comum tenha aqui uma carga necessariamente pejorativa; simplesmente porque achava muitíssimo difícil fazer algo original, inteligente e com rigor. Quanto ao tema em si, pouco há a dizer. É de uma dimensão humana, social e cívica cuja preocupação e luta exige, entre outras coisas, este tipo de intervenções: reportagens. Isto é, chamar a atenção e insistir para o que está mal (ou o que não está bem) e é preciso mudar. Incessantemente. Recusando piedosos fatalismos.
Todavia, mesmo consciente das minhas reservas, sempre duvidei de mim mesmo, quero dizer, sempre me interroguei se o problema não era meu em não conseguir percepcionar a reportagem brilhante que o João vislumbrava. Especialmente porque sempre que o João batalhou pelo tema, vi os seus olhos brilharem de enorme entusiasmo. Havia ali muita inspiração e sonho que eu não estava a conseguir assimilar. E como eu sou um sonhador em muitas coisas na vida, senti-me, não raras vezes, um bruto, por não acompanhar o João na discussão de ideias. Até por ser Director, juntamente com o impulsionador da ideia, o João, este aspecto mexeu comigo.
Entretanto, os temas foram a debate e votação democrática e, como é conhecimento de todos, o tema da Pobreza ficou de fora. Continuei a pensar na oportunidade que poderia ter passado, e na falta de acuidade que poderia ter revelado quando não apoiei o tema... Bem, quanto a isso não há nada a fazer. Quem sabe numa próxima edição. Não foi isso que me motivou a escrever. Foi sim o acima referido Claude Levi-Strauss (LS).
Em Tristes Trópicos, LS - entre outras coisas, etnógrafo - viaja por alguns dos locais mais recônditos do planeta onde observa e convive com tribos primitivíssimas. Observa, observa, observa. Tirando notas, assimilando ideias, estabelecendo comparações, indo ao fundo (do fundo) do Homem. O resultado final é um diário de bordo onde a Etnografia, sua primeira razão de ser, se enlaça com impressionantes ensaios de filosofia, sociologia e antropologia. É um estudo do Homem e das comunidades humanas de uma beleza e inteligência arrepiantes.
Numa dessas deslumbrantes linhas, quando se encontra entre as gentes mais miseráveis de uma Índia recentemente descolonizada (década de 50), LS escreve um capítulo, Multidões, que é então o leitmotiv de todo este meu escrito: nele vi finalmente aquilo que o João queria para a nossa reportagem. Se calhar até vi mais, mais não seja pelo facto da pobreza indiana ser quantitativa e qualitativamente diferente da nossa. À época e ainda hoje. Mas tenho a certeza que era um pouco isto o que o João invocava, enquanto conceito de reportagem: um trabalho terra a terra. Uma abordagem estudiosa, preocupada mais em conhecer e filosofar e menos em conclusões político-partidárias pomposas. É evidente que LS é LS, e não nos seria de todo fácil fazer algo desta qualidade. Mas aqui consigo então reaver o meu legítimo carácter sonhador, anteriormente pensado e receado que embrutecido para sempre...
Mas já chega de palavras minhas. Oiçamos Levi-Strauss:

Quer se trate das cidades mumificadas do Velho Mundo ou das urbes fetais do Novo, é à vida urbana que nos habituámos a associar aos nossos mais altos valores no plano material e no plano espiritual. As grandes cidades da Índia são uma zona; mas aquilo de que temos vergonha como duma tara, aquilo que consideramos uma lepra, representa aqui o facto urbano reduzido à sua última expressão: o do aglomerado de indivíduos cuja razão de ser é aglomerarem-se aos milhões, quaisquer que sejam as condições reais.
(…)
A vida quotidiana parece ser um permanente repúdio da noção de relações humanas. Oferecem-nos tudo, prometem tudo, proclamam-se todas as competências, quando nada se sabe. Somos assim forçados, de chofre, a negar a outrem a qualidade humana que reside na boa-fé, no sentido do contrato e na capacidade de nos comprometermos.
(…)
A mendicidade geral é ainda mais profundamente perturbadora. Já não nos atrevemos a cruzar francamente um olhar, por pura satisfação de tomarmos contacto com outro homem, pois a menor paragem será intepretada como uma fraqueza, uma brecha aberta à imploração de alguém.
(…).
(…) somos forçados pelo interlocutor a negar-lhe a humanidade que tanto gostaríamos de reconhecer nele. Todas as situações iniciais que definem relações entre pessoas são falseadas, as regras do jogo social alteradas, não há forma de começar. Pois, mesmo que quiséssemos tratar esses infelizes como nossos iguais, eles próprios protestariam contra a injustiça: eles não querem ser nossos iguais; suplicam, esconjuram-nos para que os esmaguemos com a nossa soberba, pois é da dilatação do afastamento existente entre nós que eles esperam uma migalha (que o inglês chama, acertadamente: bribery), que será tanto mais substancial quanto mais distendida for a relação existente; quanto mais alto me colocam; tanto mais espero que esse nada que me pedem se torne em qualquer coisa. Não reinvidicam um direito à vida; o simples facto de sobreviverem parece-lhes uma esmola desmerecida, que a homenagem prestada aos transeuntes quase não faz desculpar.
(…)
Há algo de erótico nessa angústia de submissão. E se o nosso comportamento não corresponde à sua expectativa, se não agimos cem todas as circunstâncias à maneira dos seus antigos patrões britânicos, o seu universo desmorona-se: não queremos pudim? Um banho depois do jantar do jantar e não antes? Nosso Senhor já não existe… O desânimo estampa-se-lhes no rosto; faço precipitadamente marcha atrás, renuncio aos meus hábitos ou às ocasiões mais raras. Vou comer uma pêra dura como uma pedra, um pudim de anona pegajoso, já que tenho de pagar com o sacrifício dum ananás a salvação moral dum ser humano.
(…)